quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Nem todos os anjos pertencem ao Céu




Estrada para Perdição foi publicada em 1998 pela DC Comics, através do selo Paradox Press, e seu autor é Max Allan Collins. Além de escritor de quadrinhos, Collins é autor de diversas histórias de detetive, tendo inclusive ganhado duas vezes o Prêmio Shamus de Escritores de Histórias de Detetive por seus romances True Detective e Stolen Away. A arte ficou a cargo do talentoso e também premiado ilustrador Richard Piers Rayner, que já trabalhou nas seguintes publicações: Hellblazer, Monstro do Pântano, L.E.G.I.Ã.O. e Doutor Destino. Aqui no Brasil a graphic novel foi publicada pela editora Via Lettera, em três edições encadernadas. 

O espaço entre a concepção da história e sua publicação foi de aproximadamente cinco anos. Todo esse tempo se deveu principalmente ao trabalho do ilustrador, que demorou em média seis meses para ilustrar cerca 25 a 30 páginas (num total de mais de 300). Mas toda essa demora valeu a pena, pois tanto o trabalho de Collins no roteiro quanto o de Rayner nas ilustrações são magníficos, refletindo a extensa pesquisa de que são frutos. A obra pode ser considerada como uma das mais detalhadas, fidedignas e realistas reconstituições dos anos 30. 

Sam Mendes (Beleza Americana, Soldado Anônimo) dirigiu a versão cinemoatográfica estrelada por Tom Hanks, Jude Law e Paul Newman. 

Estrada para Perdição é um bom filme, com atuações impecáveis, direção de primeira, além de uma reconstituição de época primorosa (a história se passa nos anos 30). Talvez o grande porém seja o seu final, por demais óbvio ao espectador, o que pode gerar uma espécie de anticlímax para os mais críticos. 

A história do filme e da revista é mais ou menos a seguinte: Sullivan (Tom Hanks) é um assassino profissional que trabalha para Rooney (Paul Newman), gângster que controla a região das "Três Cidades" e é subordinado a Al Capone. Certa noite, o filho mais velho de Sullivan, Michael Jr. (Tyler Hoechlin), presencia um assassinato cometido por Connor, filho de Rooney. Connor resolve matar o menino, não apenas por este ter visto o crime, mas também por nutrir um certo sentimento de ciúmes contra Sullivan, já que o matador é alvo de afeto especial por parte de Rooney, que o considera como um filho. Entretanto, Connor acaba matando por engano o filho mais novo e a esposa de Sullivan, que acaba fugindo com o filho mais velho, Michael. Juntos, pai e filho percorrem, literal e metaforicamente, uma estrada para Perdição - o nome de uma cidade onde Sullivan pretende esconder Michael. Além de tudo, ele ainda busca vingança pela morte de sua família. 

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Como em qualquer adaptação, existem diferenças substanciais entre a graphic novel e o filme. Primeiramente, é possível apontar certas diferenças de nomes. Na revista, Michael Sullivan é chamado de Michael O´Sullivan e recebe a alcunha de Anjo da Morte (the Archangel of Death, no original), nem ao menos citada no filme. Já Mr. Rooney, nos quadrinhos, é chamado de Looney, um personagem real. Além disso, o tempo que O´Sullivan e seu filho passam na estrada também é diferente. No filme, são gastas seis semanas para se chegar à Perdição, enquanto na revista são necessários seis meses. 

Se no cinema temos a presença de Frank Nitti, um dos mais proeminentes auxiliares de Capone, na HQ, além dele, somos brindados também com a participação do famoso intocável Eliot Ness. No filme, Michael Junior escapa da morte por ter ficado de castigo depois da aula devido a uma briga, enquanto na revista ele havia saído para uma festa de aniversário. Também é fato digno de nota que tanto o início quanto o final da HQ são bastante diferentes do que vemos no filme. 



A mudança mais óbvia, no entanto, diz respeito à criação do excêntrico assassino de aluguel Harlen Maguire (Jude Law), em substituição às dezenas de gangsters que perseguem Sullivan e seu filho na história impressa. Mas a principal diferença entre as duas obras está no tom escolhido por seus realizadores para narrar a história. Ironicamente, a história em quadrinhos é muito mais movimentada que o filme, com diversas e elaboradas seqüências de ação e tiroteios - talvez uma espécie de reflexo da experiência de Collins em histórias policiais. Já o filme de Sam Mendes procura ser mais intimista, concentrando-se mais nos conflitos pessoais das personagens, especialmente nas relações entre pais e filhos, estabelecendo um paralelo entre Rooney/Connor e Sullivan/Michael Jr. De qualquer maneira, as diferenças apontadas não diminuem em nada as qualidades de ambas as obras.

Em relação à história em quadrinhos, não é possível deixar de assinalar a estreita relação de Estrada para Perdição com outra obra da arte seqüencial: Lobo Solitário

Criado por Kazuo Koike e Goseki Kojima e publicado no Japão na década de 70, Lobo Solitário conta a história de Ito Ogami, o executor oficial do Shogun que, acusado injustamente de traição, passa a vagar pelo Japão ao lado de seu filho Daigoro. Quem conhece a obra de Koike e Kojima reconhece imediatamente que Collins usou-a deliberadamente como fonte de inspiração para a sua história. Ele transpôs o Japão Feudal e seus rígidos códigos de honra para os anos da Lei Seca nos Estados Unidos: os clãs japoneses encontram correspondência nas famílias de mafiosos, e O´Sullivan faz as vezes de Ito Ogami, enquanto seu filho Michael ocupa o lugar de Daigoro. 

Assim como Ogami, O´Sullivan é um reconhecido e eficiente assassino a serviço de seu "senhor"; de repente, se vê caindo em desgraça, traído e perseguido por aqueles em quem um dia confiou, além de ter sua família assassinada no desenrolar dos acontecimentos. Resta-lhe apenas o filho como companheiro de travessia. 

O próprio título da HQ americana já é uma referência ao mangá. Quem já leu Lobo Solitário, mesmo em português, se lembra da escolha que Ito Ogami fez após a tragédia que se abateu sobre sua vida: ele escolheu seguir a trilha do assassino, um caminho de sangue e morte no qual não existe nenhuma misericórdia e que, no fim das contas, acaba o conduzindo ao meifumado, o inferno japonês. Nada muito diferente da escolha de O´Sullivan. Tanto ele quanto Ogami caminham para o inferno ou, em outras palavras, percorrem uma estrada para a perdição. 


Apesar de beber em fonte japonesa, Collins consegue construir uma obra marcante, de qualidade tão extraordinária quanto sua correspondente oriental. Mais que isso: consegue que seu trabalho seja apreciado por suas próprias qualidades, sem ser ofuscado ou reduzido pela sua inspiração. 

Collins escreveu duas outras continuações, em prosa, da história: Road to Purgatory (2004) e Road to Paradise (2005), contando a trajetória de Michael Jr. 

Em resumo, a graphic novel Estrada para Perdição pode ser considerada um dos mais formidáveis trabalhos de quadrinhos adultos realizados nos últimos anos. Merecer ser conferido, não apenas por quem gostou do filme ou é fã de Lobo Solitário, mas por todos aqueles que querem ler uma história empolgante, de qualidade, magnificamente escrita e ilustrada. 


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