quarta-feira, 11 de abril de 2018

O Prisioneiro de Azkaban - Uma Análise do Filme


Nas últimas décadas um novo fenômeno surgiu na mídia mundial, se tornando lentamente um sucesso literário para posteriormente se tornar uma febre nos mais diversos meios, desde videogames até sucedidas adaptações cinematográficas. Trata-se da saga do bruxo Harry Potter.

Criado por Joanne K. Rowling, Harry Potter dá uma roupagem moderna às antigas histórias de magia e feitiçaria. Em linhas gerais, a saga de Potter (que ainda não foi finalizada, pois foram publicados cinco livros de um total de sete pretendidos) pode ser resumida da seguinte forma: Harry Potter é um jovem mago que teve os pais assassinados pelo maligno bruxo Voldemort (ou Aquele-que-não-deve-ser-nomeado), sendo que apenas Harry escapou do ataque, com uma cicatriz em forma de raio na testa. Criado pelos tios trouxas (pessoas que não possuem magia), Harry só foi descobrir que era bruxo aos 11 anos quando recebeu uma carta para se matricular na Escola de Bruxaria e Magia de Hogwarts. Lá ele se torna amigo de Ron Weasley (aprendiz de bruxo, filho de bruxos) e Hermione Granger (aprendiz de bruxa, filha de trouxas). Também entra em contado com o guardião das chaves da escola, Hagrid, um meio gigante, com o diretor da escola, Albus Dumbledore, considerado um dos maiores magos da atualidade, e com a professora Minerva, que se tornam uma espécie de protetores, tutores e conselheiros de Harry. Outro personagem de destaque é o Professor de Poções, Severus Snape, que nutre uma antipatia pelo jovem mago. A cada ano que passa, Voldemort tenta recuperar seu poder e sua forma física (já que esta foi destruída quando tentou matar Harry, quando este ainda era um bebê), tentando simultaneamente assassinar Potter. A cada novo embate, Harry torna-se mais forte mais consciente de suas capacidades e menos dependente de seus protetores.

Em 2001, o primeiro livro da série, Harry Potter e a Pedra Filosofal, transformou-se em filme, sendo dirigido por Chris Columbus (Esqueceram de mim, Nove Meses). A ele se seguiu Harry Potter e a Câmara Secreta (2002), também dirigido por Columbus.

Entretanto, não nos interessa no presente trabalho tratarmos dessas adaptações. Nosso foco de análise é Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisioner of Azkaban, EUA/Inglaterra, 2004), terceiro filme da série protagonizada pelo bruxo adolescente.

Dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón (A Princesinha, E sua mãe também), em O Prisioneiro de Azkaban, Harry (Daniel Radcliffe) está entrando no terceiro ano letivo de Hogwarts. E como já se espera, algum novo perigo vai rondar a vida do bruxo adolescente. O nome dessa provável ameaça é Sirius Black (Gary Oldman), fugitivo de Azkaban, suposto seguidor de Voldemort, condenado pelo seu envolvimento na morte dos pais de Potter. Para impedir a entrada de Black na escola, são destacados os tenebrosos guardas de Azkaban, criaturas mágicas conhecidas como dementadores. Mas esses guardas, na realidade, são muito mais perigosos que o fugitivo. São criaturas vis e cruéis, que sugam toda a felicidade das pessoas, deixando-as apenas com lembranças infelizes, e, por fim, roubando-lhes a vida. Outras personagens importantes são introduzidas na história, como o professor de Defesa contra as Artes das Trevas, Remus Lupin (David Thewlis), que também era amigo dos falecidos pais de Harry, o hipogrifo Bicuço (um ser mágico que é parte cavalo, parte águia) e a professora de Adivinhações, Sibila Trelawney (Emma Thompson).

Alguns aspectos gerais podem, inicialmente, ser apontados na construção do filme. Podemos perceber que os realizadores da película buscam, mesmo em um mundo mergulhado na magia, mostrar certo realismo e naturalismo. O diretor prefere tomadas externas a aquelas feitas em estúdio, coloca os personagens usando roupas comuns além dos uniformes de bruxos, usa os efeitos especiais de forma sutil como parte da cena e não como foco principal. As personagens caminham de um cenário ao outro da escola sem muitos cortes, nos dando uma mostra de como o castelo é e deixando a escola de magia e bruxaria de Hogwarts muito próxima de uma escola real. Alunos podem ser vistos estudando ou conversando em seus corredores. E aquelas atitudes típicas de estudantes também são observadas no decorrer de todo o filme (como passar bilhetinhos entre colegas, ou o empurra-empurra em uma fila). Enfim, vê-se, no filme, um mundo bruxo extremamente plausível, tal qual ele provavelmente seria se fosse real.

Também são dignas de nota as diversas referências que Cuarón utilizou para construir sua visão do mundo criado por J. K. Rowling. O universo potteriano de Cuarón não é um mundo de fantasia cor-de-rosa e belo, existe algo macabro mesmo nas situações mais comuns (como a cabeça-encolhida que auxilia o motorista do Noitebus, o ônibus utilizado pelos bruxos como meio de transporte). È um mundo de tonalidades acinzentadas em que nem tudo é o que parece. A inspiração no estilo do Expressionismo Alemão e um pouco menos nos filmes de terror dos anos 30 da Universal também é notável. Como no Expressionismo, o filme apresenta cenários íngremes e angulosos, refletindo o conflito e a tensão que existe no ar. A Escola de Hogwarts deste filme é toda constituída de sombras, aclives e declives. Como se tudo lembrasse que "algo sinistro está se aproximando". Também alguns recursos de passagem de cenas (o "olho da lente" se alargando ou diminuindo) é típico desse movimento cinematográfico. Ainda sobre essa influência, não podemos deixar de destacar a figura do dono da estalagem bruxa O Caldeirão Furado, que recebe Harry em seu estabelecimento após a viagem de Potter no Noitebus, encaminhando-o até o ministro da Magia, Cornelius Fudge. Tal personagem lembra fisicamente uma mistura do vampiro Nosferatu, protagonista do filme de mesmo nome e um dos marcos do Expressionismo alemão dirigido, em 1922, por F.W. Murnau, com o assistente corcunda do Dr. Frankenstein do clássico filme de James Whale, de 1931.

Outra referência cinematográfica explícita no filme diz respeito à cena na qual Harry voa pela primeira vez nas costas de Bicuço. Tal seqüência nos remete diretamente a cena em que o jovem herói Atreyu voa nas costas do Dragão Falkor, no filme A História Sem Fim, importante filme de fantasia realizado durante a década de 80.

Como o filme se passa durante o decorrer de todo um ano letivo de Hogwarts (que vai de setembro até junho), é preciso destacar a mudança das estações e passagem de tempo. As soluções encontradas para demonstrar essa passagem de tempo são bastante interessantes e em momento algum forçadas. A primeira, que indica a passagem do verão para o outono, mostra uma folha caindo no chão, depois destaca a árvore conhecida como Salgueiro Lutador sacudindo todas as suas folhas amarelas no chão. Além de ser um recurso divertido, também dá certo destaque prévio a essa árvore, que posteriormente terá um papel importante na história, pois abaixo dela se encontra a entrada para o esconderijo de Sirius Black. A passagem do outono para o inverno também é bastante criativa. No fim de uma seqüência na qual Harry e Lupin conversam na floresta, Lupin promete dar aulas particulares para Harry, e, assim, ensinar um feitiço que poderá afastar os dementadores. Mas diz que só poderá fazer isso depois dos feriados (de Natal e Ano Novo). Ainda estamos no outono. Ao fim dessa conversa, Harry solta sua coruja, Edwiges, que voa pelos terrenos da escola. A seqüência do vôo começa no outono, e, sem cortes, termina com a escola já completamente coberta de neve no inverno. No fim desta, vemos Harry, atrás do grande relógio da escola. Tal seqüência não indica apenas a passagem de tempo no que diz respeito às estações do ano, mas também está diretamente ligada ao diálogo anterior entre Harry e Lupin, pois com a chegada do inverno e, consequentemente, dos feriados, é hora também de o professor cumprir sua promessa.

Sobre os dementadores, eles são destacados como a grande ameaça a Harry Potter durante todos o filme. Algumas cenas-chave são utilizadas para reforçar a idéia de ameaça e terror que envolvem tais seres antes do confronto final entre o jovem bruxo e as cruéis criaturas. Na seqüência em que os monstros surgem pela primeira vez, Harry, Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) estão dentro do Expresso Hogwarts, o trem que leva os alunos até a escola. Junto com eles está, aparentemente adormecido, o prof. Lupin. A viagem transcorre normalmente, quando, repentinamente o trem pára. Ron insinua que talvez seja para que alguém possa embarcar. As luzes da cabine começam a falhar. Mostra-se o cenário externo. Chove torrencialmente e o trem se encontra em cima de uma ponte bastante alta, embaixo dela, um precipício. Tais elementos ajudam a criar um clima de terror e ansiedade sobre o que está por vir, afinal, que tipo de criatura iria embarcar em um trem no meio do nada, em um trem em cima de uma ponte? Sem falar, é claro, que estando o trem suspenso, caso algo terrível se aproximasse dele, como realmente ocorreu, não haveria lugar para o qual seus ocupantes pudessem efetivamente correr ou fugir. Eles estavam completamente encurralados. Aumentando a sensação de horror na platéia.

Os dementadores, como nos é explicado depois por uma das personagens, são criaturas mágicas que sugam a felicidade e a vida de todos a sua volta. Em um livro, é relativamente fácil descrever como esse processo transcorre, bastando apenas narrar como se sentem as personagens quando os monstros se aproximam. Mas como transpor isso para imagens? A solução para tal problema no filme foi bastante eficiente. Dentro da cabine onde Harry e os amigos estão, uma garrafa d’água é discretamente mostrada. A partir da aproximação dos dementadores, o ambiente muda. Quando os personagens falam o vapor d’água que está no ar se condensa, algo que ocorre quando está muito frio, o mesmo ocorrendo na janela, que fica embaçada por dentro e começa a ter as gotas de chuva que caem nela pelo lado de fora congeladas. A garrafa d’água é novamente destacada e seu conteúdo torna-se gelo por completo. Após isso acontecer, a porta da cabine é aberta pelos dementadores. Apenas as mãos deles são mostradas no inicio, criando certo terror pelo que está por trás daqueles dedos longos e pegajosos. Daí, os monstros são expulsos pelo professor Lupin e tudo volta ao normal.

O que os realizadores do filme fazem é criar uma associação entre algo físico (o frio do ambiente) com algo emocional (a depressão causada pelos monstros). O frio e o gelo roubam a vida da natureza (ainda que momentaneamente) assim como os dementadores roubam a felicidade e a vida de suas vítimas. Em outra seqüência do filme essa associação é ainda mais explícita. Os dementadores sobrevoam as margens do lago da escola. As flores que se encontram nessas margens são enquadradas. A medida que os dementadores se aproximam, as flores, antes viçosas e belas, se congelam, se tornando cinzentas e mortas.

Outra cena que reforça o horror que os dementadores são é aquela na qual Harry e seus colegas de dormitório, logo depois do banquete de boas vindas, estão no seu quarto, brincando e rindo. A felicidade ali mostrada é colocada em contraste com a horda de dementadores, mostrados do lado de fora do castelo, debaixo da chuva, voando e observando a janela do quarto onde Harry está. Os monstros lembram predadores observando de longe a sua presa. Também o modo como as vestes negras do dementadores ondulam durante o seu vôo reforça o aspecto fantasmagórico e ameaçador desses seres.

Novamente, na cena em que Harry está jogando quadribol (um esporte bruxo), a ameaça dos dementadores é assinalada. Chove quase tanto quanto na cena em que ele encontrou as criaturas pela primeira vez. Voando em sua vassoura, o bruxo observa uma nuvem, um pouco mais escura que as demais. De repente, esta toma a forma de um cachorro, que nos lembra o Sinistro, um negro cão sobrenatural citado pela professora Sibila e que é o anúncio da proximidade da morte. Logo em seguida, os dementadores, personificando essa morte anunciada, atacam Harry. Seu vôo em direção ao bruxo lembra novamente o comportamento de um predador, de uma ave de rapina, atacando sua presa.

Após uma observação mais atenta, é possível perceber que existem dois elementos fundamentais permeando todo o filme: o tempo e a circularidade dos fatos.

A história de O Prisioneiro de Azkaban não é apenas a história de Harry, mas é também a história de Sirius Black, dos pais de Harry e demais amigos deles. É o passado que retorna para se resolver e se esclarecer no presente, fechando um ciclo da história e abrindo um novo.

As referências ao tempo são colocadas sutilmente, porém insistentemente, em todo o filme: o pêndulo do grande relógio da escola, que balança logo atrás de Potter em uma cena, o próprio Harry olhando a vida através do mesmo grande relógio, cujas engrenagens giram constantemente, os planetários da sala do Professor Lupin, também girando em movimentos de rotação e translação.

Se não bastasse todos esses elementos para reforçarem o tema do tempo e da circularidade em todo o filme, existe ainda a questão da viagem do tempo na história.

Harry descobre que Sirius, que também é seu padrinho, na verdade é inocente e nunca traiu seus pais. O traidor era Peter Pettigrew (Timothy Spall), também amigo de James e Lily Potter, que fingiu a própria morte para incriminar Black e, disfarçado de rato, se tornou o bichinho de estimação de Ron Weasley, melhor amigo de Harry.

Após uma determinada série de eventos, Pettigrew foge e Sirius é capturado. Sabendo agora da verdade, Harry e Hermione voltam no tempo usando um artefato chamado Vira-Tempo para salvar a vida de Sirius e também a do hipogrifo Bicuço, que fora condenado à morte, por ter atacado um aluno. Embora a culpa não tenha sido do animal.

A seqüência que mostra Harry e Hermione saindo da ala hospitalar quando voltam no tempo é praticamente idêntica à cena que mostra o retorno deles à ala, embora o caminho de ida seja oposto ao caminho de volta. Os dois saem da enfermaria. A câmera não segue os dois, pois o que importa não é o caminho que eles vão fazer para realizar seu intuito, mas o tempo que está passando para realizá-lo. A câmera passa por dentro das engrenagens do grande relógio da escola, reforçando a idéia tanto da volta ao passado, quando a questão do tempo que está novamente correndo e de que é preciso se apressar para salvar Sirius. Na volta deles até a enfermaria, depois de realizarem o resgate, novamente não é mostrado o percurso até a ala hospitalar, e sim, as engrenagens do relógio. O tempo continua passando e apesar de terem salvo Sirius, Harry e Mione não podem relaxar, pois terão grandes problemas, agora que voltaram ao presente, caso alguém descubra que foram eles que soltaram o padrinho de Harry. Outro recurso bastante eficaz para reforçar a questão temporal, assim como a tensão e a urgência na missão de Harry e Hermione, é o constante tic-tac na trilha sonora logo imediatamente após eles retornarem ao passado. Sutil, mas irritantemente presente: todos estão esperando algo acontecer, algo que está prestes a ocorrer e que demarca o tempo contado e escasso em que eles devem realizar seu intuito.

Outras duas seqüências podem ser apontadas como fundamentais para o tema do tempo e da circularidade. Embora ambas as seqüências sejam exatamente sobre o mesmo acontecimento: o ataque dos dementadores a Harry e Sirius. Na primeira cena, Harry e Sirius estão na beira do lago. Sirius está ferido. Os dementadores se aproximam, descem em espiral em direção de suas vítimas (novamente a circularidade presente), lembrando também mais uma vez aves de rapina prestes a atacar. Harry tenta espantá-los usando o patrono, o único feitiço capaz de afugentar os monstros. Mas não consegue. Quando tudo está perdido, um patrono bastante poderoso é emitido por alguém na outra borda do lago. Harry acredita que seja seu pai, com quem ele se parece bastante. O pai (passado) teria voltado para salvar o filho (presente).

Na outra seqüência, Harry, juntamente com Hermione, vê Sirius e ele quase sendo mortos pelos dementadores. E espera que o pai surja para salvá-los. È aí que ele percebe que quem o salvou fora ele próprio, e acaba conseguindo conjurar o patrono. A sensação que se tem, a partir dessa seqüência, é que o passado não importa mais. O ciclo anterior foi fechado, os mistérios solucionados e o que realmente interessa é o que vai acontecer de agora em diante. Para finalizar, devemos também assinalar a forma como é construída no filme uma forte ligação entre Harry e Sirius depois que descobrimos a verdade sobre sua inocência. De ameaça, o padrinho de Harry se torna uma figura paterna substituta aos falecidos pais do menino. Isso se dá através de cenas bem colocadas, como a que Sirius convida Harry para morar com ele, ou aquela na qual eles conversam rapidamente sobre os pais de Harry, ou a que Sirius, em sua forma canina, defende o afilhado e os amigos da ameaça do Professor Lupin, que se transformara em lobisomem e não tem mais controle sobre seus atos, só para citar alguns exemplos. Mas, essa aproximação também se dá de uma forma bastante sutil em algumas seqüências. Por exemplo, quando estão sendo atacados pelos dementadores na beira do lago, Harry e Sirius desmaiam um ao lado do outro e são mostrados no chão, deitados exatamente na mesma posição. Quase como iguais, mas não exatamente idênticos, pois a cabeça de Harry está na ponta em que estão os pés de Sirius. Ainda, quando vemos Sirius pela última vez no filme, ele é visto voando nos céus de Hogwarts, nas costas de Bicuço. É noite. Na última cena de Harry no filme, ele também é visto voando. O hipogrifo é substituído por uma vassoura voadora, presente do padrinho. É dia. Existe aí uma simultânea aproximação entre os dois, mas também uma diferenciação entre eles. Sirius e Harry estão ligados por forte laços, mas não são a mesma pessoa, nem compartilham o mesmo destino. Um precisou partir, fugir, enquanto o outro, precisou permanecer na escola. Contudo, ainda assim, ambos estão intensamente ligados por laços praticamente familiares.

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Nota da Autora:

Este trabalho foi feito como trabalho de conclusão de uma curso de cinema que eu fiz em 2004 ou 2005

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Speed Racer (O Filme)- Resenha


Confesso que me bateu um certo desânimo em assistir a Speed Racer. A principal razão era saber que Andy e Larry Wachowski eram os responsáveis pelo roteiro e pela direção do filme. Embora eu tenha gostado muito do primeiro Matrix e goste de algumas coisas de Animatrix, me decepcionei em demasia com Matrix Reload e Matrix Revolutions. Desse modo, encarei a adaptação do anime com o pé atrás. 

Embora eles tenham produzido e roteirizado V de Vingança, Speed Racer é o primeiro filme que dirigem desde a trilogia de Matrix. (E, antes que me perguntem, eu ainda não vi V de Vingança, em parte por falta de tempo, outra por falta de coragem, mas agora, pretendo me arriscar). 

Para a minha grande surpresa, eu gostei do filme. Minhas expectativas não eram das melhores, mas, me vi realmente apreciando o filme. O começo derrapa, mas depois, a marcha engrena e o filme acelera. 

A história mantém o cerne básico do anime: Speed Racer (Emile Hirsch) é um jovem e promissor corredor cujo irmão mais velho, Rex, depois de brigar com o pai (John Goodman), morre em um acidente de carro. Depois do ocorrido, Speed, cujo talento nato para a corrida se revela desde criança, decide se tornar o melhor piloto do mundo, tanto para honrar o irmão falecido, quanto para trazer orgulho à sua família. 

Assim como na versão animada, o ponto de apoio de Speed é sua família, que também vem a ser a sua equipe. A Racer Motors é a empresa familiar independente que se vê diante das mega-coorporações que dominam - de forma por vezes inescrupulosas - o mundo das corridas. 

Segundo um amigo, esse tema (a estrutura familiar x grande capital e o valor do empreendimento do homem comum diante da ganância desmedida) é recorrente no cinema americano desde os anos 30 e 40, especialmente no trabalho do diretor americano Frank Capra. Coincidência ou não, essa temática esteve em alta justamente nos anos da Grande Depressão, e, atualmente, os Estados Unidos se vêem diante de uma forte recessão. 

Elucubrações a parte, essa oposição é reforçada de maneira inteligente, embora, para o espectador mais atento, seja relativamente óbvia, em uma seqüência que alternam as imagens da festa da mega empresa "inimiga" de Speed e sua família com imagens da Mamãe Racer (Susan Sarandon) preparando sanduíches de geléia e pasta de amendoim para a família, enquanto estes trabalham na oficina. 

Portanto, o primeiro grande acerto dos Wachowski foi perceber que a base da história de Speed está principalmente em sua família. Com isso, escolheram o elenco a dedo, sendo felizes nas suas decisões. Os atores que vivem Pops (John Goodman) e Mamãe Racer (Susan Sarandon), Gorducho (Paulie Litt) - o irmão caçula de Speed, o mecânico-quase família Sparky (Kick Gurry), e Trixie, a namorada do piloto, Trixie (Christina Ricci) não ficaram apenas idênticos visualmente aos personagens do desenhos, mas conseguiram encarná-los por completo. Emile Hirsch também se sai bem como Speed, equilibrando o idealismo e a audácia que são as características mais marcantes do herói. Mesmo Matthew Fox , como o misterioso Corredor X, se saí bem, embora, ás vezes seja difícil esquecer que ele é o "certinho" Jack Shephard da série Lost. 

O segundo grande acerto foram permitir Speed Racer ser exatamente o que ele é: uma produção pop, uma história simples, sem reflexões filosóficas herméticas e dramas pseudo-existencialistas que não caberiam naquele contexto. 

Speed Racer é pop até o último parafuso do Mach 5. Eles deixam claro nas cores, nos objetos cênicos, no figurinos e penteados - que misturam um clima nostálgico dos anos 60 (quando foi produzido originalmente o anime) com um ar de "futuro" (embora seja um que lembra muito os filmes de ficção dos anos 60). 

As cores sem muita gradações, estouradas em alguns momentos, os vilões caricatos (como também eram no desenho), entre outras coisas, dão um ar cartoonesco ao filme, o que invariavelmente acaba nos remetendo a outra adaptação, inspirada nos quadrinhos, Dick Tracy (1990). 

Contudo, essas mesmas cores acabam prejudicando o filme, especialmente o seu início. O filme é "colorido demais", o que às vezes o torna cansativo e faz com que o espectador perca, no meio daquele emaranhado de estímulos, os detalhes que realmente importam. 

Como disse, prejudica especialmente seu início por se este ser enfocado principalmente na família de Speed e no passado deste, onde a atuação dos atores pede mais destaque que o cenário à sua volta. 

Essas seqüências pediam uma direção de arte mais enxuta, não apenas pela questão supramencionada das atuações, mas também por perderem uma grande oportunidade de utilizar esse recurso sinestésico como mote amplificador das emoções que demandam as cenas de corrida. 

Falando nas cenas de corrida, elas empolgam. Embora eu não conseguisse parar de pensar que as pistas lembravam versões colossais das pistas de hot wheels (aliás, se eu não me engano, já tem realmente versões hot wheels das pistas do filme sendo vendidas). 

Paradoxalmente, a corrida mais empolgante - ou pelo menos a que faz o filme realmente engrenar - é aquela que mais se aproxima das corridas originais do anime: a do rally através do deserto e das montanhas. 

O filme se estende em demasia em algumas seqüências, acerta em outras - a seqüência de abertura mostrando Speed se preparando para uma corrida, batendo o pé de ansiedade, cortando para o Speed menino, também batendo pé me contigüidade visual, criando uma ligação forte entre aqueles dois momentos da vida do personagem é um exemplo desses acertos. 

Outro ponto a se destacar é a forma como a trilha sonora original do anime foi inserida de forma discreta, porém marcante durante todo o filme. 

Não acredito que essa adaptação vá se tornar um clássico do cinema como o anime no qual se baseou se tornou na história da televisão, contudo, o filme cumpre a que veio de forma competente. Enfim, entre feridos, carros capotados e explosões, acho que Speed Racer (o filme) conseguiu cruzar bem a linha de chegada. 

Speed Racer 
EUA , 2008 - 129 min 
Aventura / Ação / Infantil 


  • Direção: Andy Wachowski e Larry Wachowski 
  • Roteiro: Andy Wachowski e Larry Wachowski
    Elenco: Emile Hirsch, Matthew Fox, Christina Ricci, Paulie Litt, John Goodman, Susan Sarandon, Kick Gurry, Roger Allam.
    Nota: 3 em 5
    Galeria de Imagens 

            

       
  • quinta-feira, 2 de novembro de 2017

    Um pouquinho do Japão...


    O Catador de Batatas e o Filho da Costureira ou O Filho da Costureira e o Catador de Batatas.

    Lançado pela JBC para comemorar os 100 anos da Imigração Japonesa e realizado pelo desenhista Bruno D’Angelo e pelo roteirista Ricardo Giassetti, “O Catador de Batatas e o Filho da Costureira ou O Filho da Costureira e o Catador de Batatas”.
    conta a história de Ikemoto, um imigrante japonês, e Isidoro, um descendente de escravos:

    O Catador de Batatas
    IKEMOTO está em fuga de seu próprio passado. Sua família e toda a classe samurai se viu esquecida após a Reforma Meiji. Sem posses e sem futuro, Ikemoto vê o Brasil como um refúgio distante para curar as mágoas de seu passado. Veterano da guerra russo-japonesa (1904-05), foi prisioneiro de guerra no navio Kazan, agora de posse da frota japonesa sob o nome Kasato Maru.

    O Filho da Costureira
    ISIDORO não conheceu nem sua mãe nem seu pai. Foi criado por Dona Nâna, costureira de grande coração que acolhe crianças rejeitadas. Vivendo como colonos em uma fazenda de café, Isidoro destaca-se como um garoto esforçado e inteligente, o que o faz ser uma figura deslocada nesse ambiente rústico. Sem muitas perspectivas devido ao preconceito racial, Isidoro e Ikemoto acabam unindo forças e compartilhando problemas que os encaminham para um destino comum: a fuga para uma nova vida, com novos desafios e conquistas. 
    (extraído do site da JBC)


    A idéia da revista é sensacional. O título duplo é justificável porque na realidade são duas revistas em uma. Lendo-se da esquerda para a direita (o modo ocidental de se ler) vemos os fatos da perspectiva de Isidoro com os textos em português e legendas em japonês no rodapé; da direita para esquerda, a história de Ikemoto é contada no modo oriental de se ler, em japonês com notas em português.

    As duas histórias convergem para um único final que se encontra no meio da revista, o que parece intencionalmente ser uma metáfora para os encontros das histórias e culturas que tornaram o Brasil o que ele é.


    Contudo, apesar da premissa criativa e interessante, o resultado final é um pouco desanimador. 

    Para começar, o resumo do site da JBC que eu coloquei aqui explica muito mais a história que o texto original. Quando nós lemos as trajetórias de Isidoro e Ikemoto, muitos fatos ficam obscuros ou são pouco explicados e explicitados. Muitas vezes me peguei perguntado sobre o que exatamente aconteceu, como se imensas lacunas tivessem sido deixadas no decorrer da narrativa.

    Na realidade, essas lacunas realmente existem, vários fatos são mencionados porém não mostrados, como o modo pelo qual Ikemoto ajudou uma família de imigrantes com o racionamento de alguns alimentos (eu acho...). Aliás, não se sabe porque o menino da família auxiliada por Ikemoto deduz que o ex-militar era um catador de batatas, apesar de nunca ter sido um.

    A suposta amizade entre Isidoro e Ikemoto é mal desenvolvida, e não se entende porque no fim das contas eles decidem se juntar e partir juntos do povoado que habitam. Parece algo completamente “deus ex machina” a amizade e aliança formada entre os dois.

    Os desenhos deixam um pouco a desejar, muitas das cenas parecem  esboços de croqui, se tornando tão confusos quanto a história.

    Uma pena, pois os personagens são potencialmente interessantes e a ideia para uma homenagem a dois povos que tanto contribuíram para a formação do Brasil era genial. 

    Vale ler apenas como uma curiosidade... lamentando-se que o resultado final fique tão aquém do desejado.


    Minhas Imagens do Japão


    Em compensação, a editora CosacNaify publicou um tempo atrás  Minhas imagens do Japão, com texto e ilustrações de Etsuko Watanabe, traduzido por Cássia Silveira.

    A autora traz aos leitores o dia a dia da pequena Yumi e de seu irmão caçula Takeshi em seu dia a dia no Japão.


    Ela descreve todo o dia a dia daquelas crianças, a casa, o quarto de dormir, os apetrechos para se ir na escola, as refeições, a comida, a higiene pessoal, até mesmo o banho público. Assim como os festivais anuais e as tradições...

    Tudo de um modo tão suave, inocente e natural que é nos é impossível não adentrarmos naquela cultura com olhos de aceitação, curiosidade e interesse.



    Sei que usualmente não gosto de fazer isso, preferindo escrever minhas próprias observações, mas, encontrei uma resenha tão perfeita sobre esse livro que achei válido reproduzi-la aqui:

    “Mais que uma crônica da vida urbana no Japão contemporâneo, esse livrinho guarda a chave para compreendermos um fato muitas vezes esquecido: que, apesar das diferenças, somos todos, essencialmente, seres humanos. Não é pouco. 

    Quando os meios de comunicação e a Internet nos bombardeiam com toneladas de informações superficiais ou inúteis - em que podemos vislumbrar, quase sempre, generalizações injustas e perigosas -, as diferenças culturais passam mais a afastar do que aproximar as pessoas, transformando o outro, o estranho, no rival, no inimigo. 

    Como vive uma menina de sete anos no Japão? Nesse lugar tão longínquo - não apenas em termos geográficos -, o que há de diferente e de semelhante em relação a nós? 

    Para responder a essa pergunta, Etsuko Watanabe nos apresenta o Japão e seu povo: os utensílios do cotidiano, os objetos escolares, a vida em família. E como a mesa é posta, quais as vestimentas do dia-a-dia, algumas brincadeiras - as minúcias, enfim, que constroem uma civilização. Conhecemos também as palavras, com seus sons inesperados, às vezes surpreendentes, donas de uma eufonia para a qual precisamos reeducar nossos ouvidos. 

    A beleza do estranho nos assalta em inúmeros trechos da obra. A autora, formada pela Musashino Art University e com mais de sete livros infantis publicados, não despreza sequer os aspectos da intimidade. A importância da hora do banho, os vasos sanitários - curiosos e eficazes - e os banhos públicos - uma característica dessa cultura que não submeteu a nudez humana ao arbítrio da absoluta privacidade: todo o engenho do conforto e da higiene de uma civilização está resumido nesse livrinho. 

    De repente, percebemos que não estamos distantes do Japão dos samurais, e é como se pudéssemos vislumbrar, sob cada gesto - principalmente sob os hábitos e a disciplina escolares -, o código de honra desses antigos guerreiros. 

    Nada é esquecido: das brincadeiras infantis às superstições, à busca da sorte e da ajuda dos deuses; as lendas e os costumes; as crenças pueris do povo e as festas que as materializam, comemorações que são marcos da passagem do tempo, cujas alegrias podem conceder uma nova força à vida banal, fragmentada entre o trabalho e as poucas horas de descanso. 

    Introdução a um mundo diverso do nosso, a obra de Watanabe oferece possibilidades quase infinitas de se trabalhar com as crianças, não só para diverti-las, mas também para mostrar como as diferenças, se quisermos, podem mais unir do que separar as pessoas. Sob o olhar imparcial de uma menina capaz de se encantar com as menores coisas, Minhas imagens do Japão descreve um povo cujas tradições e história engrandecem a espécie humana”. 

    (por Rodrigo Gurgel – “A beleza do diferente” em http://educacao.uol.com.br/resenhas/imagens-japao.jhtm)

    Enfim, apesar de ser um livro infantil, é uma leitura indicada para qualquer que seja a sua idade. 

    quinta-feira, 26 de outubro de 2017

    Mad Monster Party? (Parte 02)

    O mistério explícito diz respeito à presença de It (a Coisa) na festa. Nos créditos iniciais, ele é mostrado como um dos protagonistas do filme, mas, não sabemos exatamente quem ou o que seria It. Apenas sabemos o quão perigoso e selvagem It é, fato reiterado nas falas do Barão e de Francesca no decorrer da história, o que acaba criando uma expectativa de que, apesar de não ter sido convidadp para a festa, It vai aparecer.

    O que, de fato, acontece. Francesca planeja, juntamente com Drácula, matar Felix e se apossar dos segredos de Frankenstein. Entretanto, o conde a trai e se junta ao Monstro e sua companheira. Encurralada e ressentida, Francesca manda um convite para It, que surge na Ilha, nos minutos finais do filme.



    It é nada mais, nada menos, King Kong, o gorila gigante que apareceu pela primeira vez no filme de 1933, dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack. Com a chegada dele à Ilha - que, neste momento, pode também ser inferida como referência à própria Ilha da Caveira, lar original de Kong - não apenas o caos já existente devido a perseguição dos monstros a Felix e Francesca aumenta, como elementos apresentados anteriormente na narrativa ganham sua real função. Kong vê a foto de Francesca e se apaixona pela ruiva, seqüestrando-a; os aeroplanos do Barão são utilizados na reprodução da famosa seqüência em que o gorila é abatido no alto do Empire State, sendo o prédio substituído por uma montanha da ilha.
    Contudo, como dissemos, existe também um segundo mistério no filme, implícito nas entrelinhas e que se faz totalmente claro ao final do filme. A verdadeira natureza de Francesca. Pistas são lançadas no decorrer da história.
    Quando a moça surge pela primeira vez, o Dr. Frankenstein solta a seguinte fala:
    Vê-la todo dia me dá grande prazer, se eu puder dizer, é uma obra de arte [referindo-se à Francesca, mote que ela própria retoma em diálogo com Felix ao fim do filme, sobre ela ser uma "obra de arte"]

    Pouco antes do jantar, quando o Monstro e sua companheira descem pela grande escadaria do castelo em direção ao hall de entrada, o Doutor cochicha com Francesca, que estão ao pé da escada, ao notar a expressão de desagrado da ruiva com a chegada dos dois monstros criados pelo Barão:

    Lembre-se que somos todos uma família feliz aqui.

    Tal fala é tomada, inicialmente, como algo metafórico e não literal, entretanto, a revelação final muda completamente seu sentido.

    Depois de escapar do King Kong, sendo trocada pelo Barão, Francesca foge da ilha, de barco, com Felix. Logo após assistirem à destruição do lugar, ele se vira para ela, dizendo:

    (...)Vamos nos casar. E logo haverá o som dos pequeninos Flankens correndo.
    Francesca: Oh, Felix [chora]
    Felix: O que foi? O que eu disse? Compraremos uma casa maior. Vou parar de espirar. O que foi?
    Francesca: Nunca poderei me casar com você.
    Felix: Não pode? Não me ama?
    Francesca: Sim, eu amo. Por isso não posso me casar.
    Felix: Tenho que lhe dizer algo. Não posso namorar você em selvas.
    Francesca: Há uma coisa que eu preciso dizer. Nunca pensou por que eu estava naquela ilha? Não sou um ser humano como você. Fui criada por Frankenstein, depois do Monstro e sua companheira. Fui sua obra-prima. Onde outras mulheres têm um coração, eu tenho uma mola que vai desenrolar. Onde outras mulheres têm pulmões, eu tenho uma bomba que usa baterias e que gasta. Onde outras mulheres têm cotovelos e joelhos, eu tenho juntas metálicas que vão enferrujar e endurecer. Sou uma máquina com centenas de peças que vão acabar de desgastando.
    Felix: Bem, Francesca, nenhum de nós é perfeito... [Click] Perfeito... [Click] Perfeito... [Click] Perfeito...

    Deste modo, as pistas sutilmente lançadas no decorrer do filme acabam se encaixando ao descobrirmos que Francesca é uma criação do Barão. Por isso ela se considerava uma herdeira de direito, por isso ela foi apontada como a obra de arte, por isso o Barão a lembra que estão em família. Aqui, também temos outra dupla aproximação entre Felix e Francesca.

    O verdadeiro nome de Francesca se revela como um nome duplamente fonético como o de Felix: Francesca Frankenstein, quase como uma Lois Lane - namorada e atualmente esposa do Superman, vulgo Clark Kent. Francesca pode ser reduzido para Frankie, que pode ser também diminutivo de Frankenstein, mostrando não ser por acaso esse o nome dela.

    A segunda aproximação se dá através do estranho click que intercala a fala de Felix, como se ele fosse um robô que emperrou no meio de um procedimento, insinuando-se, que, assim como ela, ele não deve ser humano, mas sim, um construto.


    A seqüência em questão é praticamente um diálogo do filme Some Like It Hot (EUA,1959), conhecido no Brasil como Quanto mais quente melhor. No filme original, roteirizado (em parceria com I.A.L. Diamond ), dirigido e produzido por Billy Wilder, Jerry/Daphne (Jack Lemon) tenta contar ao milionário Osgood Fielding III (Joe E. Brown), com quem se envolveu, que na verdade é um homem, enquanto estão ambos também fugindo em um barco, mas de mafiosos. Osgood apenas retruca:Ninguém é perfeito!

    Entretanto, apesar de ser a mais explícita, essa não é a única relação que se pode fazer entre a obra de Wilder e o filme Mad Monster Party?. Wilder era bastante conhecido por seus diálogos inteligentes, carregados de duplos sentidos, e que poderiam ser interpretados em diferentes níveis.
    Muitas dos diálogos de Mad Monster Party? são construídos de modo a darem aos espectadores a oportunidade de encontrarem nele um significado a mais, sem necessariamente fazer com quem não compreendeu esse sentido extra perca o desenrolar da trama.

    As melhores falas, sem dúvida, são ditas pelo espirituoso e, por vezes, sarcástico Conde Drácula. Abaixo, segue uma dos diálogos travados pelo vampiro. Na seqüência em questão, ele tenta seduzir Francesca, logo após o jantar.

    Drácula: Uma beijoca na orelha? Uma mordida no pescoço?
    Francesca: Conde, eu estou com medo. Andou bebendo.
    Drácula: Não o suficiente. Não a minha bebida favorita. Vamos, deixe-me beijá-la. Mulheres já morreram por um beijo meu.

    Em um primeiro nível a conversa pode ser compreendida apenas como a tentativa de um bêbado em beijar a moça, contudo, considerando quem é o bêbado em questão, o Conde Drácula, um notório vampiro, as falas "uma mordida no pescoço", "Mulheres já morreram por um beijo meu" ou a afirmação de que ele não bebeu o suficiente a bebida favorita dele (sangue) ganham um segundo sentido.

    Assim através dessa análise e de várias outras referências que poderiam ser mostradas aqui, comprovamos que Mad Monster Party? se configura como um entretenimento inteligente.

    Referências:

    ANDRADE A. L. Entretenimento inteligente: o cinema de Billy Wilder. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. 291 p.

    FESTA do Monstro Maluco
    (MAD Monster Party?, EUA, 1967)
    Direção: Jules Bass
    Produção: Joseph E. Levine, Arthur Rankin Jr. e Larry Roemer.
    Roteiro: Len Korobkin, Harvey Kurtzman e Arthur Rankin Jr.
    Interpretes (vozes): Boris Karloff; Allen Swift; Gale Garnett; Phyllis Diller; Ethel Ennis e outros.
    Works Filmes, DVD (94 min)

    Mad Monsters and Parties. Retrojunk. Sobre Mad Monster Party e sua continuação Mad, Mad Monsters. Disponível em http://www.retrojunk.com/details_articles/694/


    A Festa do Monstro Maluco. Boca do Inferno, sem data. Disponível em http://www.bocadoinferno.com/romepeige/artigos/madmonster.html

    A Festa do Monstro Maluco. Casa do Horror, 10 jan 2006. Disponível em http://www.casadohorror.t5.com.br/catalogo/a_festa_do_monstro_maluco_frame.htm

    Mad Monster Party? Internal Movie Database, sem data. Disponível em http://www.imdb.com/title/tt0061931/

    Mad Monster Party? Wikipedia, sem data. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Mad_Monster_Party

    Nostalgia: A Festa do Monstro Maluco em DVD. Universo HQ, 02 mai 2006. Disponível em http://www.universohq.com/quadrinhos/2006/n02052006_03.cfm


    [1] Existe uma versão cinematográfica dessa história chamada de Island of Lost Souls ( EUA, 1933) com Charles Laughton e Bela Lugosi.
    [2] Existe uma versão cinematográfica de 1925, estrelada por Lon Chaney Sr.

    terça-feira, 24 de outubro de 2017

    Mad Monster Party? (Parte 1)

     

    Uma das diversas possibilidades do cinema, e, possivelmente a mais utilizada e difundida de todas, é a arte de se contar uma história.


    Entretanto, existe um modo próprio e peculiar de se narrar uma história através do meio cinematográfico, calcado na relação entre imagem e texto para se criar um sentido. O verdadeiro significado do que se mostra, na maioria das vezes, não repousa apenas no texto ou apenas na imagem, mas na junção de ambos, criando um terceiro sentido, seja pelo reforço do texto sobre a imagem - e vice-versa- , seja por sua contraposição. O cinema, é claro, pode prescindir do texto, sendo apresentando através de imagens somente. Contudo, ainda assim, existe um texto primário, configurado pelo roteiro, que depois será convertido em imagens.
    No entanto, existem milhares de possibilidades de se contar uma história. Interessa-nos aqui o que a professora Ana Lúcia Andrade (2004) configura como entretenimento inteligente ou entretenimento de qualidade, compreendido como:

    Filmes narrados de forma a atingir tanto o espectador ingênuo, preocupado com o desenvolvimento da trama, num primeiro nível de leitura, quanto o espectador crítico, atento, principalmente, à forma como o discurso se constituí, e à possibilidade de uma segunda leitura nas entrelinhas da narrativa (p 22-23, grifo da autora)

    È com esse conceito em mente que nos propomos a analisar o filme A Festa do Monstro Maluco (Mad Monster Party?, EUA, 1969).

    A trama, aparentemente simples, trata do dilema do Doutor - e Barão - Boris von Frankenstein (voz de Boris Karloff). Chefe da Organização Mundial dos Monstros, ele descobre uma fórmula capaz de destruir a matéria, assim, acreditando estar no ponto alto de sua carreira, Frankenstein decide se aposentar, e, convoca todos os monstros para uma reunião, na qual, nomeará seu sucessor.

    Realizado através da técnica de animação em stop motion, em uma primeira leitura, Mad Monster Party? aparenta ser apenas um filme infantil, estrelado por monstros clássicos. Entretanto, observando-se com mais atenção, percebemos que estamos diante de, não apenas uma comédia espirituosa com diálogos que permitem mais de uma interpretação, mas também de uma homenagem a vários gêneros do cinema americano, tanto do período mudo, quanto do período clássico ou dos filmes B dos anos 50 ou a comédia camp dos anos 60.

    Dirigido por Jules Bass, que também realizou Rudolph, a Rena do Nariz Vermelho (EUA, 1964), a animação teve também sua equipe Harvey Kurtzman, no roteiro, e Jack Davis como character designer.

    Os nomes desses dois profissionais no projeto merecem certo destaque pela contribuição de ambos em outra mídia cuja narrativa está também calcada na interação texto-imagem : as histórias em quadrinhos.

    Kurtzman era escritor da revista Mad, famosa por seu humor ácido, e Davis fazia ilustrações para a Mad e para a revista de terror Tales from the Crypt, ambas publicadas pela EC Comics.

    Quem sabe a presença dos dois seja totalmente proposital. Assim como a indústria de cinema, o mercado de quadrinhos passou pelo crivo da censura. O Comics Code Authority, criado em 1954, era o Código Hayes dos quadrinhos. A EC Comics foi famosa por não se submeter a esse código. Talvez, por isso, nada mais apropriado para homenagear o cinema clássico, onde driblar a censura se tornou uma arte sutil e inteligente, que dois artistas que também lidaram com a censura, ainda que nos quadrinhos. Soma-se a isso, o fato de que tanto a Mad e, principalmente, Tales from Crypt possuírem estreitas relações com os filmes de terror B dos anos 50, também homenageados em Mad Monster Party?.

    O duplo sentido já começa no nome do filme em inglês, Mad Monster Party?, cuja expressão pode remeter tanto ao fato de se tratar de uma festa onde estarão monstros, mas também pode ser traduzido como "uma festa de arromba", dando a proporção da celebração que será mostrada no filme.

    Antes de se começar a tratar especificamente do filme, deve-se ressaltar a presença de Boris Karloff como dublador do Dr. Frankestein, cujo primeiro nome no filme é Boris, em uma correlação direta com o ator. Karloff se tornou famoso por sua atuação como o Monstro de Frankenstein no filme de 1931, dos estúdios Universal, dirigido por James Whale. Dessa forma, Boris Karloff surge - e é homenageado - triplamente no filme: através de sua voz, através da caracterização do cientista, que nada mais é que uma versão puppet do ator, e através da caracterização do boneco do Monstro, praticamente uma cópia da versão de 1931.



    O filme inicia-se como muitos dos filmes do período clássico hollywoodiano, especialmente os realizados por Alfred Hitchcock. A seqüência inicial mostra, em plano geral, uma ilha - talvez uma referência à Ilha do Doutor Moreau (1), na qual um cientista recluso criava monstros. Gradativamente somos apresentados ao ambiente: a selva, o cemitério que lá existe, o castelo, uma das janelas do castelo - mais especificamente a janela do laboratório, até que, finalmente, o Dr Frankestein é mostrado realizando uma experiência. Ou seja, vamos do geral para o particular, de modo a mostrar ao espectador não apenas a ambientação da história, mas também o tom do filme.

    Ainda nesse começo, tem-se uma citação de outra obra importante na literatura de terror.

    Dr. Frankenstein: Há-há-há. Como disse o Corvo: nunca mais...nunca mais...

    A fala do cientista refere-se ao corvo em que usara a fórmula de destruição da matéria e que acabara de explodir, mas também está relacionada ao poema O Corvo, escritor por Edgar Allan Poe, que por sua vez foi adaptado para o cinema em 1935, em um filme estrelado por Boris Karloff e Bela Lugosi - cujo papel mais famoso é o Conde Drácula, no clássico da Universal, de 1931.

    Após constatar seu sucesso, o Doutor envia, através de morcegos-corujas, convites para os mais renomados monstros da literatura e do cinema. Acompanhamos o vôos dos morcegos e as respectivas entregas de convites: Conde Drácula, o Lobisomem, Dr. Jekyll e Sr. Hyde, a Múmia, o Homem Invisível, o Corcunda de Notre Dame, o Monstro da Lagoa Negra. Entre os convivas também estarão a Criatura de Frankenstein e sua Noiva.

    Cada um desses monstros apareceu em clássicos filmes de terror, quase em sua maioria, produzidos pelo estúdio da Universal: Dracula (EUA ,1931), The Wolf Man (EUA, 1941), The Hunchback of Notre Dame (EUA, 1923), The Invisible Man (EUA,1933),Dr. Jekyll and Mr Hyde (EUA,1931), The Mummy (EUA, 1932). Grande parte deles estrelados pelos atores-ícones do gênero no período: Bela Lugosi, Boris Karloff, Lon Chaney Sr. e Lon Chaney Jr.
    Mesmo o misterioso It - que o Doutor se recusa a convidar por ser selvagem demais - pertence a um filme desse período, como mencionaremos mais adiante.

    Creature from the Black Lagoon (EUA,1954), também foi produzido pela Universal, mas é tido como representante dos filmes de Horror B que fizeram fama nos anos 50.

    A composição visual das personagens refere-se diretamente a cada um desses filmes, pois, são, praticamente uma reprodução da caracterização deles nessas obras. Drácula, por exemplo, notadamente possui todos os trejeitos de Lugosi: a sobrancelha arqueada, o ato de colocar a capa diante de si, tampando parcialmente o rosto.


    No caso do Lobisomem, vale acrescentar que, ao invés de representar Larry Talbot (Lon Chaney Jr), seu visual cigano é referência ao papel de Bela Lugosi, o lobisomem cigano que mordeu Talbot, o que acaba tornando até mais divertido o fato de que, em Mad Monster Party?, serem Drácula e Lobisomem grandes amigos.

    Outras referências marcantes aos filmes de terror, estão na presença dos garçons-zumbis e do mordomo-zumbi Yetch, uma menção a White Zombie (EUA,1932), dirigido por Victor Halperin e estrelado por Bela Lugosi; na seqüência em que o Doutor Frankestein toca um órgão - remetendo indiretamente ao Fantasma da Ópera (2) - e a menção a Mefistófeles, na música de abertura. Mefistófeles é o demônio presente na história de Fausto, cuja adaptação feita em 1926, por Murnau, foi um dos marcos do Expressionismo Alemão, cuja influência no cinema de horror americano dos anos 30 é inegável.

    As onomatopéias são referência tanto à linguagem dos quadrinhos quanto às comédias camp dos anos 60, estilo estético calcado no mal-gosto e na ironia, cujo maior representante, é a série de TV Batman (EUA ,1966-68), que também teve uma versão cinematográfica. Alguns enquadramentos, inclusive, especialmente na apresentação da banda de esqueletos, são típicos do estilo camp, forçosamente inclinados, causando uma certa estranheza no espectador.

    Outros gêneros são explicitamente homenageados, como as seqüências de música e dança, notadamente inspiradas nos antigos musicais. A comédia pastelão do cinema mudo pode ser vista retratada na guerra de comidas e tortas durante o jantar dos monstros. E, o cozinheiro do castelo, genialmente chamado de Máfia Machiavelli - referência tanto à máfia propriamente dita quanto ao escritor Maquiavel, cujo mote mais famoso é "os fins justificam os meios" e cujo nome deu origem ao termo "maquiavélico"-, é caracterizado como um italiano mal-encarado, careca, semi-barbado, com uma cicatriz no rosto - talvez uma referência a Scarface (EUA ,1932), de Howard Haws. Máfia Machiavelli é a perfeita caracterização do personagem típico de filmes de gangster dos anos 30. Inclusive, a especialidade do chef é fazer pratos literalmente mortais. A seqüência em que o Conde Drácula tenta, em vão, matar o herdeiro do Barão Frankenstein parece ser inspirada nos cartoons como Papa-Leguas, Tom e Jerry, Pernalonga ou Droopy.

    Depois da apresentação de cada um dos monstros que estarão presente na reunião são introduzidos aos espectadores, inclusive com direito a algumas discretas piadas visuais como o convite do Homem-Invisível ser escrito com tinta invisível, o herói da história é apresentado.

    Através de uma fusão entre as bolhas do Lagoa Negra e as bolhas do remédio que o protagonista prepara para si somos apresentados a ele, Felix Flanken. Tal passagem não é aleatória. Ela não mostra apenas uma mudança de local, mas já cria um ligação entre o rapaz e os monstros, que, dado os aspectos de Felix, aparentemente não possuíriam nenhuma relação entre si.


    O destaque para o remédio é importante por outra razão, pois, por se assemelhar à poção da destruição criada por Frankenstein, ela será confundida com a mesma e salvará a vida de Felix mais adiante no filme. Esse e vários outros elementos são colocados de forma discreta na trama, mas não acidental, pois, no decorrer do filme se revelam cruciais para a narrativa - como, por exemplo, os aeroplanos do Barão, ou o porta-retrato da personagem feminina principal, cuja importância falaremos mais adiante.

    Felix Flanken, cujo nome foneticamente duplo pode ser considerado referência a uma tradição dos quadrinhos vista em diversos personagens como Clark Kent (Superman), Peter Parker (Spiderman) ou Bruce Banner (Hulk), é apresentado como rapaz de aparência frágil, desastrado, ingênuo e de bom coração. Um farmacêutico que trabalha - de graça - em uma loja de conveniência, e que passa mais tempo na farmácia, fazendo experiências e se ocupando em lidar com suas alergias, que cuidando do lugar e atendendo os clientes.



    Se por um lado, a aparência dele remete a um herói frágil, o entusiasmo com que ele recebe o convite para a festa de Frankenstein, acreditando ser um convite para a apresentação de uma experiência cientifica, mostra que existe mais que mera timidez em Flanken, fazendo com que o tomemos como nosso herói de fato.

    Flanken é o sobrinho de Frankenstein, filho da irmã dele, a "ovelha branca da família", herdeiro por direito do Barão, embora nem todos concordem. Em especial, Francesca, a secretária do Frankenstein. Em oposição a Flanken, ela é ruiva, curvilínea e sexy, fazendo o tipo femme fatale, que remete aos filmes noir dos anos 40. Entretanto, o casal formado pelo rapaz tímido e comum e a mocinha voluptuosa também é típico dos filmes B de monstros dos anos 50.

    A fala do Doutor Frankenstein já dá a entender que, apesar de todas as diferenças, existirá uma aproximação entre os dois.

    Dr. Frankenstein: Quero que os dois sejam amigos.[(ele diz e saí]
    Francesca replica: Gostar dele? Eu vou amá-lo a ponto de despedaçá-lo.

    Apesar das intenções explícitas de Francesca em eliminar Felix, já que ela, por razões plausíveis e posteriormente reveladas, se considera a verdadeira herdeira, a fala do doutor já induz os espectadores a verem os dois como um provável casal. Além disso, o fato de ambos serem, aparentemente, os únicos humanos jovens do lugar também leva a essa dedução.

    A seqüência em que eles se beijam é completamente cinematográfica. Imagens de elementos da natureza como ondas quebrando contra rochas, raios, uma árvore caindo, são usadas para externalizar o turbilhão emocional que o beijo ocasionou em ambos.
    Da cena do beijo propriamente dita, a câmera se movimenta, e, com uma pequena e discreta fusão, enquadra a lua cheia - reconhecido símbolo de romance. Logo depois, temos um corte seco para o casal na selva. Francesca faz uma serenata para Felix. Como em muitos filmes dos anos 30 e 40, especialmente nas screwball comedies, é ela - a mulher - quem comanda a ação.
    A cena logo posterior à serenata, em que os dois namoram na selva parece decalcada de um filme dirigido por Ernst Lubitsch. Francesca beija Felix em cima do galho de uma árvore, os dois caem para trás, no meio dos arbustos. Não vemos absolutamente mais nada do casal, apenas a paisagem, a luz gradativamente diminui, quase em um fade in, indicando uma passagem de tempo. O que exatamente os dois fizeram escondidos sob os arbustos fica a cargo da imaginação do espectador.

    Convém abrir, no próximo artigo, um parêntesis sobre os dois mistérios que surgem na trama. Um implícito e outro explícito.


    quinta-feira, 19 de outubro de 2017

    Por que Harry Potter é um Herói Universal? - Parte 02


    Dentre os perigos enfrentados por Harry Potter no decorrer da série, dois merecem destaque: os dementadores e Voldemort.


    Os dementadores são uma criação pessoal da própria Rowling.São criaturas mágicas que não possuem rosto e vestem mantos longos, que cobrem inteiramente seu corpo “cinzento, de aparência viscosa e coberto de feridas”. Dementadores “esgotam a paz, a esperança e a felicidade do ar à sua volta”, enfim se alimentam de tudo que é bom nas pessoas, tornando-as tristes e vazias. De acordo com a própria autora, tais criaturas são uma personificação de uma doença psíquica grave: a depressão. Se o sofrimento e a tristeza podem levar a uma maturidade, a depressão seria caracterizada por uma paralisação no viver. 

    Estar deprimido poderia corresponder a estar no Tártaro, um dos três níveis dos Mundos Inferiores ou Hades (os outros dois seriam os Campos Elísios, espécie de Paraíso, e o Érebo, uma espécie de purgatório). O Tártaro propriamente dito seria o local de suplício eterno, o que nos remete a pessoas que se acham em situações de desespero que aparentemente não tem volta, tal qual pode ser caracterizada a depressão. Enfrentar os dementadores é enfrentar a si próprio, é encontrar uma saída do Tártaro, e superar essa paralisação no viver. 

    Também os dementadores-depressão podem ser comparados ao Caos. A um caos interno da pessoa. Na mitologia, Caos é a personificação de um vazio primordial, “quando a ordem ainda não havia sido imposta aos elementos do mundo”, enfim, é aquele espaço no qual os elementos do universo ainda estariam confusos e pouco claros, e que após uma certa organização, dariam origem a um novo universo. A sensação de caos faria parte da depressão: nesse momento, a pessoa se encontra em um estado confuso, se sente perdida e descentrada, contudo, diferente do caos mitológico e da sensação de caos dissociada da depressão, aqui, os elementos negativos estão evidenciados. Para enfrentar a depressão, a pessoa necessitaria perceber que seu micro-universo interno está desestabilizado, e que, ao conseguir superar sua paralisação, seria como se recriasse a si própria (um novo “micro-universo”). 

    Mas, o grande inimigo de Harry Potter se encontra na figura de Voldemort. Assim como Harry contém em si características presentes nos mais diversos heróis das mais diversas mitologias, Aquele-que-não-deve-ser-nomeado possui características dos mais diversos vilões, enfim, Voldemort é a personificação do clássico Senhor das Trevas (como também é chamado pelos bruxos). O vilão deseja se tornar o Príncipe deste mundo, é representado como uma “força abstrata”, menos carne e sangue e mais energia sobrenatural, simboliza uma “degradação” (um colapso moral), pratica o mal por inveja e, principalmente tenta perverter as leis naturais, submete-las a seus desígnios (retratado em sua busca por imortalidade). 

    O sonho maior de Voldemort não é dominar o mundo todo, tanto o dos trouxas quanto o dos bruxos, mas sim vencer a Morte. Ele sempre busca realizar tal intento das mais diversas formas possíveis, seja na tentativa de possuir a Pedra Filosofal, capaz de produzir o Elixir da Longa Vida, seja através da profanação do túmulo de seu pai, em O Cálice de Fogo, ou ainda através da maculação de uma criatura pura como um unicórnio, ao mata-lo e alimentar-se de seu sangue, como visto em A Pedra Filosofal.

    Essa busca de imortalidade empreendida por Voldemort remete-nos a um antigo mito grego: a história de Sísifo. Sísifo era um rei de Corinto, que por duas vezes tentou enganar a morte. Em uma das vezes, ele aprisionou a própria Morte (em algumas versões consta que ele aprisionou Hades), em seu castelo. 

    Enquanto a Morte (ou Hades) estivesse aprisionada, ninguém morreria. Por fim, ela foi libertada e Sísifo foi condenado à morte. Entretanto, o esperto rei pediu à sua esposa que o enterrasse sem os ritos funerários usuais. Chegando no Mundo Inferior, reclamou a Hades do procedimento da esposa, e este permitiu que o rei retornasse para punir a esposa. Contudo, o rei permaneceu na Terra até que foi capturado por Hermes e forçado a empurrar uma pedra para o topo de uma colina, mas, toda vez que alcança o topo, a pedra cai de novo, e ele novamente é obrigado a empurra-la para cima. 

    Essa obsessão pela vida eterna é a essência da depravação do Senhor das Trevas. Tanto Sísifo quanto Voldemort desafiam a ordem natural das coisas e ambos são punidos por essa violação, um com seu castigo eterno no Tártaro, outro ao ser transformado em um bom tempo num ser menos que humano, tendo que habitar cobras e outras bestas similares para continuar vivo. 

    Apesar do comportamento de Sísifo e Voldemort parecer imoral e insano, é muito mais comum do que imaginamos, especialmente em uma sociedade como a nossa em que a beleza (dentro de certos padrões estabelecidos), a juventude e o poder são, por muitos, os aspectos mais valorizados nas pessoas. Quantos não submeteram seus corpos às mais terríveis torturas e deformações (cirurgias plásticas) para tentar alcançar esse ideal, numa tentativa de enganar o tempo e atrasar a chegada da velhice e, fantasiosamente, da Morte? 

    Mas, não apenas no aspecto estético tal comportamento pode ser observado. Voldemort é a personificação da deturpação da magia que, no nosso mundo, é nada mais nada menos que a Ciência. Enfim, ele representa uma evolução da ciência sem ética ou reflexão, em que o conhecimento é válido por si só e não por suas conseqüências. Mas, será que vale a pena construir um conhecimento sem sabedoria, que no fim mais prejudica que ajuda? Uma coisa é pesquisar a cura de doenças para tentar salvar vidas, outra é estudar bactérias para se criar armas químicas. Sem falar na polêmica envolvida nas pesquisas genéticas, em especial na possível criação de clones humanos. Muitas pessoas acreditam que tais clones poderiam ser uma forma de garantir sua imortalidade, esquecendo, contudo que uma pessoa é mais que suas características biológicas, sendo que os meios ambientes, culturais e históricos, além de outros fatores, interferem na constituição do sujeito. Uma cópia genética não é de modo algum uma cópia psicológica de alguém. 

    O que Rowling parece questionar não é a evolução da tecnologia e da ciência, ela não prega a estagnação desses meios, a questão está em se refletir sobre eles, ter um olhar mais crítico sobre o assunto. Não é negar ou virar as costas para a ciência (ou magia), afinal, em seus livros tanto os heróis quanto os vilões utilizam mágica, a questão está em usar tanto a magia quanto a ciência com ética e responsabilidade. 

    Enfim, por todas as razões apontadas neste trabalho, podemos afirmar que a saga de Harry Potter possui em si temas simultaneamente antigos e atuais, pois os mitos se constituem em algo eterno uma vez que dizem respeito à vivência humana, apenas mudam de roupagem, mas continuam presentes em nossas vidas, mesmo que não tenhamos consciência disso. 

    Referências Bibliográficas

    BRANDÃO, Junito Souza Mitologia Grega volume 1. 

    __________ Mitologia Grega volume 3. 

    CAMPBELL, Joseph O Herói de mil faces Rio de Janeiro: Ediouro, 2001. 

    COLBERT, David . O Mundos Mágico de Harry Potter Rio de Janeiro: Sextante, 2002.

    FREUD, Sigmund “Romances Familiares” In: Edição Eletrônica das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud IMAGO ELETRÔNICA. 

    ROWLING, J. K. Harry Potter e a Pedra Filosofal Rio de Janeiro: Rocco, 2000. 

    __________ Harry Potter e a Câmara Secreta Rio de Janeiro: Rocco, 2000. 

    __________Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban Rio de Janeiro: Rocco, 2001. 

    __________Harry Potter e o Cálice de Fogo Rio de Janeiro: Rocco, 2001. 

    __________Harry Potter e a Ordem da Fênix Rio de Janeiro: Rocco, 2003. 

    __________Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Rio de Janeiro: Rocco, 2005. 

    __________Harry Potter e as Relíquias Mortais. Rio de Janeiro: Rocco, 2007. 

    HarryPotter.com - http://harrypotter.warnerbros.com/

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    Nota da Autora:

    Este trabalho é apenas uma pequena parte das muitas referências existentes no texto da JK. Foi feito como trabalho final de um curso que fiz. Queria ter citado mais coisas, mas por falta de tempo e por limitação de tamanho precisei tirar algumas coisas.Recomendo que leiam os livros que usei como base, especialmente O Herói de Mil faces de Campbell.Outro livro que recomendo é "Fadas no Divã", de Diana e Mário Corso, que trazem relatos e análises de vários contos de fadas clássicos e modernos, incluindo Harry Potter. Nesse link, é possível perceber o ritmo das análises feita pela dupla Corso em torno das diferentes histórias de contos de fadas.

    A imagem usada para ilustrar a página é da desenhista Mary Grandpre, ilustradora oficial de Harry Potter nos Estados Unidos.