quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Triste Herói



Relembrar é viver, assim, nada melhor que trazer uma das histórias que melhor trabalhou a relação de Gwen-Peter-Mary Jane: Homem-Aranha Azul.

 Homem-Aranha Azul é a segunda parte de uma "trilogia" sobre os primórdios de alguns heróis da Marvel. A primeira foi a já lançada minissérie Demolidor Amarelo, a terceira investida é  Hulk Cinza.

Jeff Loeb e Tim Sale parecem ter se especializado em mostrar os heróis mais famosos dos quadrinhos no começo de suas carreiras, quando eram quase amadores - mesmo que esse não seja o enfoque principal da história em alguns casos, como em Batman Longo Dia das Bruxas, na sua continuação Dark Victory e nas já citadas séries da Marvel, quando é exatamente sobre isso que eles queriam tratar, como na minissérie sobre o Homem de Aço intitulada As Quatro Estações.

Suas histórias têm um certo ar de saudosismo, seja na estrutura dos roteiros, sejam nos cenários e vestuários, que acabam por nos remeter ao passado, enquanto paradoxalmente sempre acrescentam um novo elemento. O mesmo pode ser visto em Homem Aranha Azul, que retrata um dos melhores períodos da história do Aracnídeo, quando ele estava na faculdade morando com Harry Osbourne, apaixonando-se por Gwen Stacy, mas ainda assim sentindo-se um pouco atraído pela bela e audaciosa Mary Jane.



Foi exatamente nessa época (durante a década de 70) que a áurea de herói trágico e ao mesmo tempo humano do Aranha se consolidou. Se na sua origem a morte do Tio Ben e a culpa indireta de Peter no ocorrido já nos forneciam uma carga dramática poderosa, nas histórias da década de 70 (desenhadas magistralmente, em sua maioria, por John Romita Sr.) a trajetória do herói ganha um status de tragédia quase grega.

Peter se apaixona por Gwen e se torna amigo de Harry, que por sua vez namora Mary Jane, que tem uma queda por Peter. Mas não se resume apenas a isso: Harry, o melhor amigo de Peter, é na verdade filho do Duende Verde/Norman Osbourne, arquiinimigo do herói. Como se isso ainda não fosse o suficiente, as histórias dessa época ainda lidavam com temas polêmicos como discriminação racial, política e drogas, tornando-se um marco não apenas na trajetória de Peter Parker, mas na história das HQ's. A importância desse período ainda pode ser notada na grande influência que essas histórias tiveram na elaboração do roteiro dos filmes do Aranha, tanto os dois primeiros realizados por Sam Raimi (desconsidero o terceiro), mas principalmente nos filmes estrelados por Andrew Garfield e Emma Stone.



Como eu já havia dito, a história toda pode ser classificada como uma tragédia, pois Gwen morre nas mãos do Duende, talvez por culpa de Peter, e Harry assume o legado do pai, passando a odiar seu ex-melhor amigo. Muita água rolou depois disso: Peter casou-se com Mary Jane, Harry também morreu... Mas isso não vem ao caso, voltemos à série. Nela, temos o Peter de agora relembrando seu passado, uma época em que era feliz e não tinha noção da tormenta que o aguardava. Um Peter nostálgico, blue (triste), como nos lembra o título. Ele narra à sua amada Gwen seu passado em comum, ao qual não podem mais voltar, numa mistura de diário e "carta" de despedida.

 Se levássemos em conta a minissérie isoladamente, ela seria uma excelente história sobre um excelente herói. Entretanto, depois de começarmos a ler, ficamos com a ligeira impressão de que já vimos aquilo em algum lugar. E realmente vimos: na minissérie Demolidor Amarelo. Nela, Matt Murdock também se volta para o passado e para a sua amada e falecida Karen Page. Só que Matt escreve uma carta para desabafar, enquanto Peter utiliza um gravador. Se não fosse o triângulo amoroso Gwen-Peter-MJ, poderíamos pensar que não passa da mesma história com outros personagens.

Por que tantas similaridades entre as minisséries? Pura intencionalidade, pois a trilogia das cores traz a importância de suas mulheres na vida desses heróis.

No caso do Demolidor e do Aranha, já existiam, de antemão, outras confluências. Como muitos leitores já devem ter percebido, Matt e Peter têm muito em comum: a importância das figuras paternas em suas vidas (Ben Parker e Jack Murdock), a tragédia em suas vidas amorosas (as mortes de Gwen e Karen), seus romances com badgirls (Elektra e Gata Negra), alguns inimigos em comum (o Rei do Crime, por exemplo, arquiinimigo do Demolidor, surgiu nas histórias do Aranha), entre outros detalhes... Mas dizer que o Demolidor é uma versão mais cult do Aranha ou que o Aranha é uma versão mais comercial do Demolidor é esvaziar ambas as personagens. Afinal de contas, tanto Demolidor e Aranha possuem características próprias, fortes e marcantes. Talvez o ideal não seja negar essas semelhanças, mas explora-las. Loeb e Sale fizeram isso, assim como Kevin Smith fez (soberbamente, diga-se de passagem) em sua série sobre o Homem sem Medo. É fácil pensar em Murdock quase como um irmão mais velho e mais maduro de Peter, que já se fixou na vida adulta, enquanto Peter ainda começa a dar seus primeiros passos nesse sentindo.

Pensando assim, Homem Aranha Azul e Demolidor Amarelo são séries que se complementam, mesmo que não seja obrigatório ler uma para entender a outra.


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Colocando as Cartas na Mesa

Em 2017, Sakura Card Captors completou 21 anos no lançamento do mangá original..

O primeiro mangá, que é de criação do grupo Clamp, foi publicado originalmente entre 1996 e 2000, na revista Nakayoshi, da editora Kodansha (na qual também foi publicada, por exemplo, a saga das guerreiras lunares Sailormoon). O anime foi ao ar entre 1998 e 2000, e gerou dois filmes.

O sucesso foi tamanho que as autoras retornaram (mais ou menos) aos personagens no inicialmente promossor Tsubasa Resevoir Chronicles, mas constantes universos paralelos, clones, identidades trocadas, tornaram o mangá demasiadamente confuso e muito aquém de Sakura Card Captors ou de outras obras do Clamp.

As meninas do Clamp são conhecidas como as rainhas do Shoujo (embora tenham feito diversos outros estilos de quadrinhos japoneses). Shoujo, para quem não sabe, é um estilo de mangá voltado principalmente para o público feminino, com características marcantes tais como traços dos desenhos mais finos, leves e estilizados, valorizando, principalmente, as características psicológicas das personagens, seus sentimentos, conflitos pessoais e relações amorosas. É muito comum nesse tipo de mangá garotos com uma aparência andrógina, relacionamentos amorosos entre personagens do mesmo sexo e romances meio impossíveis.

Sakura Card Captors é considerado, juntamente com Guerreiras Mágicas de Rayearth e X 1999, um dos melhores trabalhos do Clamp.

A arte é primorosa e, como a maioria das artes de mangás shoujo, é delicada. A delicadeza desses traços, associada com um cuidado com os detalhes de caracterização de cada personagem (acessórios, cabelos, olhos, etc., que acabam por refletir as personalidades dos mesmos), além de uma grande exploração da linguagem de mangás (as “gotinhas”, o diálogo integrado às cenas e por aí vai), fazem de Sakura um trabalho belíssimo de se ler e se ver. Entretanto, em algumas cenas de batalha, devido ao traço fino e a uma arte-finalização mais limpa os quadros se mostram um pouco confusos.

Além disso, a caracterização psicológica das personagens também é fantástica, pois elas se apresentam como seres complexos e cheios de nuances e sutilezas. Os relacionamentos amorosos, no mangá, são bem mais explícitos e intrincados que no anime. É bem mais evidente no mangá que no anime que Shoran é apaixonado por Yukito, ou que o que Tomoyo sente por Sakura é realmente bem mais que amizade, formando uma rede amorosa capaz de dar dor de cabeça no fã mais fiel. Também são notáveis as diferenças cronológicas ou o modo como algumas cartas foram capturadas no anime e no mangá, mas sem que isso torne um inferior ao outro. E diferente da maioria dos quadrinhos com os quais estamos acostumados, nos quais existem sempre heróis e vilões, mesmo que esses vilões sejam ambíguos, em Sakura Card Captors não temos nenhum vilão de verdade.

Meu unico por
ém sobre a obra é o relacionamento entre Rika, amiga de Sakura, e o professor delas, sutil no anime e mais escancarado no mangá, e que daria para ser discutido e debatido infinitamente.

Quem  já viu o anime  ou leu o mangá deve se lembrar (e quem não conhece, convido a conhecer), a história de Sakura é mais ou menos a seguinte: Sakura é uma menina de 10 anos que, ao abrir um estranho livro que encontrou na biblioteca de seu pai, liberta as cartas Clow, criadas pelo poderoso mago Clow. Agora, com a ajuda de Kerberus/Kero-chan, antigo guardião do lacre do livro, e de sua melhor amiga Tomoyo, Sakura deverá juntar todas as cartas ou uma grande desgraça se abaterá sobre a Terra.

Embora as cartas dêem muito trabalho para serem capturadas, ou por vezes acabem por prejudicar uma ou outra pessoa, não há porque classifica-las como malignas. As cartas ou estão confusas diante dessa nova situação de liberdade, ou não querem abrir mão dela - ou ainda querem testar se a nova card captor é digna de ser sua nova dona.

Quanto a Shoran Li, o rival de Sakura na captura das cartas (e no amor de Yukito), o único motivo de sua implicância inicial com Sakura se deve ao fato de ele não achar que ela seja forte suficiente para capturar as cartas. Ele acredita que reunir as cartas seja uma obrigação familiar, já que é descendente da família de Clow. O próprio Eriol, reencarnação do mago Clow que aparece na fase final da história, não pode ser classificado como vilão. Suas manipulações míticas visam mais a testar Sakura e auxilia-la no desenvolvimento de seus poderes que a qualquer intento perverso.

Sakura Card Captors não é uma história sobre a eterna luta entre o bem e o mal, mas uma metáfora sobre a passagem da infância para a adolescência, seus conflitos. Sobre questões como amadurecimento e aquisição de responsabilidades. É uma história sobre relações humanas. E é aí que reside seu charme. Quando Sakura abre o livro das Cartas, é como se ela se abrisse às infinitas possibilidades que a adolescência nos oferece. A captura das cartas representa as responsabilidades que essa nova fase de nossa vida nos impõe, mas ao mesmo tempo que adquirimos novas responsabilidades também nos tornamos mais experientes e mais sábios. A cada carta Clow que Sakura capturava, ela se tornava misticamente mais forte: tornava-se mais experiente e menos criança (mas sem perder as características que a faziam únicas). Ou seja, ela estava mudando como todos nós mudamos durante esse período de nossas vidas.

As dificuldades que ela passou para prender as cartas e o julgamento de Yue não são nada mais que a representação de todos os obstáculos e problemas que enfrentamos durante toda a vida. E a transformação das cartas Clow, que eram as cartas de outra pessoa, experiência vinda do meio externo, em cartas Sakura, está relacionada a um processo de reflexão no qual pegamos as experiências que o meio nos ofereceu e delas extraímos lições para nossa vida. Só depois de passar por essas transformações e por este amadurecimento é que Sakura pode se perceber não mais como uma criança, mas quase uma adulta e se permitir a amar.

Metáforas à parte, Sakura Card Captors é um dos melhores e mais poéticos mangás do Clamp e merece ser conferido (ou relembrado)

Sakura 2016

Dica de site:
Clamp Files: Um Guia sobre a obra das mangakás mais famosas do Japão
 

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Hey Arnold!!!


Muitos são os desenhos animados estrelados por crianças que, juntamente com seus amigos mais próximos, vivem as mais incríveis aventuras. Como exemplos, podemos citar Os Anjinhos (Rugrats), Angela Anaconda, Doug, Punk-A Levada da Breca (derivado da série de tv), A Turminha da Sala 402, Sorriso Metálico, Rocket Power, Jimmy Neutron, Hora do Recreio, Phineas e Ferb, só para mencionar alguns exemplos...

Mas realmente poucos são como Hey Arnold!, estrelado pelo “cabeça de bigorna” mais simpático do mundo dos cartoons.

Talvez eu não seja a pessoa mais indicada para falar desse desenho, pois sou completamente apaixonada pela série e dificilmente conseguirei fazer um artigo isento de minha paixão.

Hey Arnold! é uma série animada criada por Craig Bartlett, que estreou na Nickelodeon norte-americana em 1996. No Brasil, ela chegou a passar na Globo pelas manhãs, no extinto programa infantil da Angélica, e também no Band Kids. Nos Estados Unidos, além da série de TV, Hey Arnold! se tornou uma série em quadrinhos publicada pela Bongo Comics - mesma editora dos quadrinhos de Os Simpsons. Aliás, Craig Bartlett é cunhado de Matt Groening, o criador da família amarela. E na dublagem original, Dan Castellaneta, o Homer americano, dubla o avô de Arnold. Em 2002, Arnold estrelou um longa animado, que na realidade era um episódio duplo para a TV, infelizmente, precariamente convertido para a mídia de cinema.


Hey Arnold! tem como personagem principal o Arnold do título, um garoto loirinho de nove anos criado pelos avós paternos. Os pais de Arnold, um arqueólogo e uma médica, desapareceram durante um vôo na América do Sul, quando realizavam uma missão humanitária. Hey Arnold! foi um dos primeiros desenhos da Nick americana a tratar do tema da morte, mesmo que de forma indireta, quando isso ainda era tabu na emissora.

Apesar de estar sempre pronto para ajudar seus amigos, através de conselhos ou de outras formas, Arnold não é aquele típico personagem irritantemente bonzinho, sabe-tudo e perfeito que geralmente estrelam esse tipo de desenho. Arnold possui vários defeitos. É capaz de cabular aulas para se divertir em um parque de diversões, pregar peças no primeiro de abril, marcar encontro com duas garotas diferentes no dia dos namorados e tirar sarro da cara do professor novato junto com os demais alunos. 

Juntamente com Arnold, os outros personagens que podem ser quase considerados como co-principais da série são Gerald, o melhor amigo de Arnold, e Helga G. Pataki.




Gerald tem uma família comum (pai, mãe, irmão mais velho e irmã caçula). Em um desenho mais tradicional, provavelmente ele seria o personagem principal. Mas aqui, ele se torna um divertido coadjuvante, com suas tiradas sarcásticas e piadas constantes. Gerald é o guardião das lendas urbanas do bairro. Quem quiser saber mais sobre qualquer história de fantasma ou bizarrice do gênero que tenha acontecido na região, basta perguntar a ele.


Já Helga Geraldine Pataki é a personificação da anti-heroína. Ela não é necessariamente bonita (está mais para um Patinho Feio que no futuro se revelará), não é popular, nem é um doce de garota. Helga é mandona, briguenta, sarcástica e falastrona. Mas ainda assim não há como não se apaixonar por Helga. Certamente é uma das personagens mais fascinantes da série (e minha favorita). Apesar de toda essa máscara de maldade, Helga tem um coração de ouro, que bate acelerado por Arnold. Mas como na realidade é tímida e insegura, Helga esconde sua paixão, destratando Arnold e chamando-o de cabeça de bigorna (football head no original, o pior de tudo é que esse é mesmo o formato exato da cabeça do Arnold!). Helga é uma das alunas mais inteligentes da escola, além de poetisa nata.





Mas afinal, o que diferenciava Hey Arnold! das demais séries estreladas por crianças da época? Bem, muitas coisas... Hey Arnold! não é uma série infantil convencional... Aliás, convencional é tudo o que esse desenho não é.

Para começar, seu personagem principal não é membro de uma família tradicional (pai, mãe, irmãos, etc). O que já começa a denotar certa diferenciação dessa série para muitos desenhos do gênero. A família de Arnold é seus avós, Phil e Gertie, e os demais moradores da pensão Sunset Arms, de propriedade dos avós do cabeça de bigorna. O avô de Arnold é uma figura, adora inventar lorotas e contar vantagens dos seus feitos de juventude. A avó é completamente maluca, vive fantasiando a realidade, esquecendo coisas, mas quando é preciso, do seu modo completamente estranho, sabe dizer as coisas mais sensatas no mundo. Os pensionistas são: Ernie, um anão irritado especialista em demolições; o Sr. Hyunh, um refugiado vietnamita que veio para os Estado Unidos em busca de sua filha, enviada para a América ainda bebê durante a guerra; e o casal Oskar e Suzie. Oskar nunca trabalhou na vida. Jogador compulsivo, ele vive às custas de sua pobre esposa Suzie.

A “heroína” da série, Helga, também não possui uma família padrão, mas não no mesmo sentido do Arnold. Ela é a desmistificação da infância feliz em pessoa. Helga é a filha caçula de Bob e Miriam. Bob é um empresário do comércio de bips e celulares. Ganancioso e viciado em trabalho, ele passa pouco tempo com a família. Miriam é uma dona de casa desmotivada, que certamente sofre de algum tipo de depressão. A filha mais velha, Olga é a combinação ideal entre beleza e inteligência (e chatice). Estudante de faculdade, Olga nunca tirou menos que A na escola. Por mais que Helga seja inteligente e talentosa, nunca conseguiu sair da sombra de Olga. E sempre foi deixada para segundo plano. Por todos esses motivos, Helga é, de certo modo, uma menina abandonada à própria sorte. E muito de sua agressividade é reflexo de sua enorme carência. Não que os Pataki sejam pessoas ruins e tratem Helga mal intencionalmente, são apenas humanos, cheios de defeitos e problemas.

Também, diferentemente de muitos desenhos, as personagens secundárias não são apenas acessórios dos personagens principais. Cada um dos colegas de escola de Arnold, por exemplo, possuí uma personalidade tão única e distinta que os torna tão interessantes como Arnold ou Helga. E são tantos que fica até difícil descreve-los aqui. Aliás, apesar de o desenho se chamar Hey Arnold!, muitos dos episódios são exatamente estrelados pelos amigos de Arnold. A grande maioria deles teve pelo menos um episódio de destaque durante as cinco temporadas do desenho.




Arnold também é um dos poucos desenhos infantis que nunca teve pudor de lidar com temas um pouco mais sérios e polêmicos (para os americanos e levando-se em conta seu público alvo) como morte, guerra do Vietnã, velhice, casamentos fracassados, Segunda Guerra Mundial, pobreza, psicoterapia, só para citar alguns. Sem falar de outros muito mais polêmicos, que ficam bem subentendidos nos episódios, mas que podem ser percebidos pelos telespectadores adultos mais atentos.

E apesar de seu anticonvencionalismo, Hey Arnold não beira ao bizarro, pois seu criador e realizadores tratam com respeito suas personagens, mesmo as mais esquisitas. Além disso, as situações são mostradas de um modo tão natural que não causam choque ou estranhamento nos telespectadores. Aliás, outra grande qualidade da série é certo equilíbrio que ela mantém entre um realismo fantástico (especialmente nos episódios das lendas urbanas) e certo naturalismo, quase como se um retrato da vida como ela é. Ou seja, sempre com um pezinho na fantasia e outro na realidade.

Sinceramente, é uma pena que essa série não tenha tido mais destaque na TV aberta como outras séries da Nickelodeon, do tipo Rugrats ou Bob Esponja. Mais triste ainda é saber que a série foi cancelada nos Estados Unidos, não por falta de audiência ou popularidade, mas por picuinhas jurídicas entre a Nickelodeon e o criador da série, Craig Bartlett.

Os fãs fizeram uma petição pra desengavetar o filme que encerra a história, com isso a Nickelodeon se juntou novamente com o criador da série, Craig Bartlett, e um novo filme chamado Hey Arnold!: The Jungle Movie está previsto para 2017.  Ele irá retomar de onde a série parou em 2004, finalmente revelando o que aconteceu com os pais desaparecidos de Arnold. A maioria dos dubladores originais está confirmada no elenco.

Para quem não conhece Hey Arnold! vale muito a pena conferir o desenho. Afinal, esse é um dos desenhos mais inteligentes e divertidos da TV. Não é difícil de achar. :)


No Mundo Nick tem alguns vídeos da série:

http://mundonick.uol.com.br/programas/hey-arnold/pdvhrt

terça-feira, 5 de setembro de 2017

De volta aos anos 80

Momento nostalgia para quem foi criança nos idos de 80. 

Para quem não viveu esse periodo,   e só os conhece apenas de nome, de tanto ouvir de seu irmão/irmã mais velho, contar o quanto eram legais, preparei um pequeno guia sobre essas pérolas da animação. Mas se você era fã dessas séries, nada melhor que ler esta coluna  para matar a saudade.


He-Man e os Mestres do Universo

No mundo de Etérnia, o jovem príncipe Adam, filho do rei Randor e da rainha Marlena, é escolhido pela Feiticeira, guardiã de castelo de Greyskull, para se tornar o protetor e campeão do planeta. Empunhando uma espada mágica e proferindo as palavras "pelos poderes de Greyskull", ele se transforma no poderoso He-Man, o homem mais forte do Universo, e seu covarde amigo Pacato se transforma no Gato Guerreiro. Além da Feiticeira, só duas pessoas sabiam de seu segredo: o Mentor, cientista oficial do rei, e Gorpo, o mágico e atrapalhado bobo da corte. A filha adotiva de Mentor, Teela, que na realidade era filha da Feiticeira, era a chefe da guarda e interesse amoroso de Adam/He-Man. Todos eles e mais alguns aliados, juntos, combatiam as forças do mal que assolavam Etérnia, comandas pelo perverso Esqueleto, cujos principais subordinados eram a bruxa Maligna, o Homem-Fera, Mandíbula e Aquático.

O que pouco gente não sabe é que se não fosse o filme do Conan, He-Man nunca teria sido criado. Quando Conan ganhou sua versão cinematográfica, criou-se uma linha de brinquedos do filme para serem comercializadas depois de seu lançamento. Mas como o filme tinha conteúdos fortes e muita violência para o público infantil padrão da época, adaptaram os brinquedos e os lançaram com o nome de "Masters of Universe". As vendas iniciais foram relativamente boas, daí resolveram investir mais na linha de brinquedos e decidiram que a melhor maneira de promover o produto era criar um desenho baseado no mesmo. E foi assim que surgiu He-Man and the Masters of Universe.

Entretanto, o sucesso do desenho foi muito além das expectativas dos fabricantes das bugigangas. He-Manvirou uma coqueluche entre os pimpolhos dos anos 80, não só nos Estados Unidos como em outros países também, entre eles o Brasil. As personagens eram carismáticas e algumas histórias bastante interessantes (alguém se lembra daquele episódio em que Adam decide deixar de ser He-Man depois de aparentemente ter matado acidentalmente uma pessoa?), ingredientes perfeitos para o sucesso.
A animação original ficou a cargo do estúdio Filmation, responsável também pelas séries Brave Star e Caça-Fantasmas (que não era baseada no filme homônimo, mas em uma antiga serie de tv). 

Adepta da prática "poupar é preciso" e do processo de reciclagem muito antes de virar moda (reutilizando a mesma cena diversas vezes), a animação do estúdio deixava um pouco a desejar, mas em compensação a presença de grandes roteiristas como Paul Dini e J. Michael Stracinki (mais tarde famosos por seus trabalhos com Batman-Superman-Liga da Justiça e Homem-Aranha, respectivamente) era a garantia de algumas excelentes histórias. Bruce Timm, parceiro de Paul Dini no universo DC na TV, começou escrevendo as mini hqs que vinham com os bonecos.

O sucesso foi tanto que surgiu uma série derivada, She-Ra, a Princesa do Poder, estrelada pela desaparecida irmã gêmea de Adam, Adora. Ao brandir sua espada, ela se transformava em She-Ra e defendia o povo do planeta Etéria da terrível Horda do Mal. A fórmula era praticamente a mesma de He-Man, mas com um toque "girlie". 

Também foi feito aquele filme tenebroso estrelado pelo Dulph Lugren e pela Coutney Cox pré-Friends, que de parecido com o desenho só tinha mesmo o nome. No início dos anos 90, outra série animada foi feita, mas era tão ruim que nem passou da primeira temporada.


Outra série foi realizada em 2002. Co-produção coreana e americana, o este desenho do homem mais forte do universo não era uma continuação do original, mas uma releitura do mesmo. Todos os personagens originais estão lá, como um novo visual, mais condizente com os a epoca. Os traços das personagens são típicos das animações americanas, mas o estilo de animação é totalmente calcado no anime japonês. O primeiro episódio contou a até então inédita origem de He-Man. Adam foi transformado em um jovem franzino de uns 16/17 anos, enquanto He-Man é um homem mais velho, mais alto e musculoso (o que é ótimo, pois aquela coisa de He-Man e Adam terem a mesma cara e corpo só mudando a cor de pele e do cabelo conseguia ser pior que o lance dos óculos de Clark Kent/Super-Homem). Teela também é adolescente como Adam, e muito mais esquentada que sua encarnação anterior. As únicas coisas que realmente continuam as mesmas são o jeitão atrapalhado do Gorpo e as lições de moral no final das histórias. Além do desenho animado, essa nova versão do He-Man ganhou uma série de quadrinhos nos Estados Unidos.
 Infelizmente ela não caiu tão bem no gosto do publico e foi cancelada em 2004.


Volta e meia aparecem noticias sobre um novo filme do He Man sendo produzido pela Sony. Mas onde o personagem sobreviveu melhor foi na internet, com seus diversos mesmes, em especial os maravilhosos Conselhos do He Man.

Quem quiser matar saudades ou conhecer o seriado animado original, tem na grade do Netflix.





   
Thundercats: Co-produção japonesa e americana, Thundercatscontava as aventuras de um grupo de uma raça de guerreiros felinos humanóides no inóspito Terceiro Mundo. Sobreviventes do mundo de Thundera, o qual acreditavam que havia sido destruído por um cataclisma, os Thundercats fugiram em uma nave espacial procurando um novo lar. Quando a nave entrou em pane, Jaga, o mais velho dos Thundercats, obrigou os outros integrantes da equipe a entrarem em câmaras de êxtase e as lançou no planeta mais próximo, ficando para trás e perecendo com a nave. Entretanto, uma das câmaras, a que continha Lion-O, o filho do rei de Thundera e futuro líder por direito dos Thundercats, falhou e quando todos acordaram Lion-O já era um homem feito.

Os Thundercats eram: Panthro, o engenheiro de plantão, cuja arma era um nunchako; Tygra, o arquiteto do grupo que manejava uma boleadeira chicote; Cheetara, a única fêmea adulta sobrevivente, que além da supervelocidade possuía um cajado como arma; e os pirralhos Wily-Katt e Wily-Kitt. É claro que não podemos nos esquecer de Snarf, ser de uma raça distinta e que era babá de Lion-O desde criança.

Lion-O possuía a Espada Justiceira, que só podia ser empunhada por membros da família real de Thundera. A Espada podia dar a ele a "visão além do alcance" e também convocar os outros Thundercats ao emitir um "thunder-sinal" no céu depois que Lion-O gritava "Thunder, thunder, Thundercats. Roooow!!!!".

Perdidos num planeta estranho, eles tentaram se adaptar construindo um lar: a famosa Toca dos Gatos, projetada por Tygra e Panthro. Conheceram muitos aliados e amigos no novo planeta, mas também fizeram um grande inimigo, Mumm-Ra, o antigo mal que dominava o Terceiro Mundo, despertado após a chegada dos felinos. Mumm-Ra tinha duas formas distintas: aparecia ora como uma múmia decrépita, fraca e nojenta, ora como uma múmia poderosa, forte e ainda mais nojenta. E para piorar a situação de nossos heróis, seus antigos inimigos, os Mutantes Escamosos Chacal, Simiano e Abutre, também foram parar no planeta e se aliaram a Mumm-Ra.

Na primeira temporada, Lion-O está aprendendo a ser o líder dos Thundercats e é auxiliado pelo fantasma de Jaga. Depois que Lion-O consegue adquirir experiência, o espírito de Jaga parte para o descanso eterno. Em compensação, três novos Thundercats e Snarfinho, sobrinho de Snarf, acabam aportando no planeta e se juntando ao grupo. Também surgem novos vilões, os Lunataks.
Depois de um tempo, nossos heróis descobrem que Thundera não explodiu, se mantém intacta graças a um aparato mecânico. Parte do grupo parte para seu planeta natal, com o intuito de reerguê-lo e fundar o reino de Nova Thundera, enquanto a outra metade permanece no Terceiro Mundo.

Na época em que passava, a série foi tão famosa quanto He-Man e apesar de se inspirar em outras produções famosas como Superman (sobreviventes de um planeta moribundo, além da semelhança entre o metal thundrillium e a kriptonita), Batman (o Bat-sinal e o "Thunder-sinal") eStar Wars (o fantasma de Jaga como mentor de Lion-O do mesmo modo como o fantasma de Ben Kenobi era mentor de Luke), possuía algumas histórias interessantes e criativas comparadas com as de outras produções do período.


A franquia foi retomada nos quadrinhos. Publicada pela Image Comics, com capas de J. Scott Campbell (Gen 13, Danger Girl), a história começa exatamente do ponto em que o desenho animado terminou, com nossos heróis em Nova Thundera. Entretanto, o retorno do vingativo Mumm-Ra vai tornar ainda mais difícil o trabalho de nossos heróis de reconstruírem seu planeta.  A Panini publicou parte dessas revistas aqui no Brasil.




Em 2011 foi lançada uma nova série criada pela parceria entre a Warner Bros e o Studio 4° C do Japão.

Nela, Lion O é o herdeiro de um reino de felinos com características medievais, embora alguns aterfatos de alta tecnologia estivessem espalhados pelo terceiro mundo. 

Depois que seu reino foi atacado pelos acólitos de Mumm-Ra, ele, sei irmão Tygra, juntamente com Cheetara, o General Panthro, e os irmãos Willykat e Willykit, tentam descobrir um modo de derrotar Mumm-Ra com a ajuda do misterioso  Livro dos Presságios e recuperar o reino.

Apesar de ter um início empolgante e promissor, a qualidade e a audiência da série foram caindo, e, ela foi encerrada com apenas 26 episódios.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Realmente, o melhor da Disney




Criado em 1934 por Walt Disney, Pato Donald apareceu pela primeira vez no curta animado A Galinha Sábia. O pato esquentado, originalmente dublado por um ex-entregador de leite que fazia imitações para atrair a freguesia chamado Clarence Nash, foi sucesso imediato. E a partir daí estrelou milhares de histórias em tiras de jornais, revistas em quadrinhos, cinema e tv. Foi a principal estrela dos longas animados Alô Amigos (1943) e Você Já Foi à Bahia? (1945), co-estrelados pelo simpático papagaio brasileiro Zé Carioca.


Em 1950 a editora Abril lançou no Brasil a revista do Pato Donald (que dividia a capa com Zé Carioca). A revista mensal continua sendo publicada até hoje pela mesma editora Abril. A título de curiosidade, um exemplar original da Pato Donald nº 01 foi trocado por um fusca usado no início de 1990.


Contudo, quem conseguiu explorar todo o potencial do Pato e sua familia foi o ,talvez,  melhor artista que já trabalhou para a Disney: Carl Barks.
Respeitado e admirado até mesmo por quem não é fã dos personagens dos estúdios Disney, Barks é considerado por muitos como um dos maiores e mais inventivos quadrinistas do século passado, ao lado de pesos pesados como Will Eisner (Spirit) e Hal Foster (Príncipe Valente).

Antes de iniciar sua carreira nos Estúdios Disney, Carl Barks trabalhou como chargista para a revista Calgary Eye-Opener, de Minneapolis. No fim dos anos 30, Barks começou a trabalhar para a Disney como animador, mas foi a partir de 1942, quando resolveu abandonar o estúdio de animação e se voltar para os quadrinhos da empresa, que o artista encontrou a obra de sua vida nas histórias do Pato Donald.

Numa época em que a Disney americana não dava crédito aos desenhistas e autores de suas histórias, Barks, com seu estilo de escrever e desenhar dinâmico e ao mesmo tempo detalhista, chamou a atenção dos leitores, que queriam saber quem era aquele artista. E acabou por quebrar o tabu da empresa de manter incógnitos seus colaboradores.


Barks é responsável pelo mais complexo e interessante microuniverso dentro do mundo Disney: Patópolis. Suas histórias inicialmente enfocavam as aventuras do Pato Donald e seus sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luizinho. Aos poucos, Barks foi criando outros personagens para acrescentar mais tempero às histórias. São criações suas: Gastão, o primo sortudo e chato do Donald, que também tenta conquistar a Margarida; a bruxa Maga Patalógika, arquiinimiga do Tio Patinhas; o Professor Pardal, o cientista maluco de plantão, entre outros. Mas sua criação mais famosa é, sem dúvida, o sovina Tio Patinhas (Uncle Scrooge, no original), baseado na clássica personagem do Conto de Natal, de Charles Dickens (aquele dos três fantasmas do Natal).

Talvez uma das melhores características de Barks esteja no fato de que ele não se contentou em escrever histórias engraçadinhas mas, num lance de ousadia e criatividade, colocou Donald e família para viajar através do mundo, vivendo aventuras fantásticas em lugares exóticos, meticulosamente retratadas através de pesquisas na National Geographic. Barks era um daqueles poucos autores que sabia dosar momentos de humor, aventura e suspense na medida certa. Suas histórias inspiraram artistas do porte de Spielberg, que utilizou várias referências das criações de Barks para desenvolver parte das aventuras do arqueólogo Indiana Jones.

Em 1966 Barks abandonou os quadrinhos, mas não suas personagens. Em 1971 a Walt Disney Company concedeu-lhe uma inédita permissão de pintar telas a óleo da família Pato e demais personagens criadas por ele. Ele continuou pintando até 1976, quando a Disney revogou a autorização, devido à alta especulação em torno dos quadros.


Em 1987 a Disney lançou na tv um dos seus maiores sucessos: a série Ducktales, totalmente inspirada no trabalho de Barks.Ducktales contava as aventuras do Tio Patinhas e seus sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luizinho, que foram deixados sob seus cuidados depois que Donald resolveu virar marinheiro de verdade. Além das carismáticas personagens criadas por Barks, outras não menos simpáticas foram integradas no elenco, como a governanta Madame Patilda e sua neta Patrícia, e o desastrado piloto capitão Boing. Um longa metragem da série, Ducktales: The Movie, Treasure of the Lost Lamp chegou aos cinemas em 1990. E uma série derivada, com participação do capitão Boing, DarkingDuck, que narrava as aventuras de um super-herói mascarado ao estilo do Batman, foi criada.
A família Pato chegou a estrear outra série animada anos depois, TV Quack Pack, na qual Donald deixa a marinha e vai trabalhar na TV junto com Margarida. Huguinho, Zezinho e Luizinho passam a ser adolescentes encrenqueiros, que adoram pegar no pé do tio. Mas, em termos de sucesso e qualidade, TV Quack Pack nunca consegui superar ou se aproximar de Ducktales.

 Em 1991 Carl Barks recebeu o prêmio "Disney Legends", em reconhecimento à importância de sua obra. Barks faleceu em agosto de 2000, aos 99 anos, deixando ainda uma última história do Pato Donald: Somewhere in Nowhere, escrita em 1997.

A Disney lançou um reboot de Ducktales agora em 2017, inspirado tanto no desenho original quanto na obra de Barks, que eu recomendo demais!