quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Crimson: Confissões de um Vampiro Adolescente


Quando em 1998 a WildStorm lançou o selo Cliffhanger, ela contava com criações de dois desenhistas que podem ser considerados como "jovens estrelas" da indústria quadrinística : J. Scott Campbell, com sua Danger Girl, e Joe Madureira, com seu Battle Chasers. Embora não tão conhecido como os outros dois, pelo menos aqui no Brasil, Humberto Ramos era o terceiro integrante do selo, com o seu Crimson. E, ironicamente, sua criação é a mais interessante e elaborada das três.

Humberto Ramos é conhecido por aqui por seu trabalho na história "Um Mundo sem Adultos", que deu origem à série Young Justice, e saiu aqui no Brasil na Melhores do Mundo # 30. Assim como Madureira, o estilo de Ramos é notadamente influenciado pelos quadrinhos japoneses. Com roteiros de Brian Augustyn, Crimson conta a história de Alex Elder, um típico adolescente de 16 anos de Nova York, que, numa bela noite, ao sair com seus amigos, é atacado por uma gangue de vampiros, os Jelly-Bats. Enquanto os amigos de Alex são mortos, ele é transformado em vampiro pela líder do grupo, Rose, the Puppet.

Alex é, então, encontrado por Ekimus, um antigo Grigori (uma raça criada por Deus antes dos seres humanos). Agora, Alex precisa aprender a conviver com seus poderes de vampiro, ao mesmo tempo que tenta manter sua humanidade. Além de Ekimus, Alex se torna amigo de um vampiro meio mexicano, meio índio, chamado Joe. Quem acha que os Jelly-Bats são os grandes vilões da história, está completamente enganado. Após assassinarem Julie Ryde, a namorada de Alex, nosso herói resolve acertar as contas com a gangue e acaba por destruí-los.

Na realidade, as coisas são muito mais complicadas do que aparentam ser. Tudo tem origem na Criação: quando Deus criou o mundo, ele não criou os homens logo de cara: criou primeiro os dragões e os Grigori, só então criou os homens. Mas parece que as coisas não deram muito certo e houve uma grande guerra entre as criações de Deus. Os dragões foram confinados a uma região desconhecida da Terra, enquanto Ekimus se tornou o último dos Grigori. Além disso, havia uma linda (e ardilosa) mulher chamada Lisseth, que acabou se envolvendo com Ekimus, e dessa união surgiram todos os vampiros do mundo.

Alex, por outro lado, é muito mais que um vampiro. Ele é o Escolhido, aquele capaz de derrotar Lisseth, que quer destruir todos os seres vivos e refazer a criação à imagem e semelhança dela. Se não bastasse ter que se preocupar com a Mãe de Todos os Vampiros, Alex ainda é perseguido por uma organização chamada Red Hood, cuja origem está ligada à história de Chapeuzinho Vermelho, e é uma espécie de ramo "caça-monstros" da Ordem dos Cavaleiros Templários. Os membros da Red Hood são descendentes de Chapeuzinho Vermelho, que na realidade era uma prostituta que foi atacada por um lobisomem e salva por um caçador, com quem acabou se casando. Como resultado do ataque do lobo, Chapeuzinho deu a luz a um casal de gêmeos, os primeiros da linhagem de caçadores. Desses caçadores, uma se envolve mais diretamente com Alex: Scarlet, que tenta descobrir o porquê de Alex ter sido transformado em vampiro, além de ter um passado em comum com Joe.

Outros personagens são o policial negro George Davis, que descobre ser a reencarnação de São Jorge, o caçador de dragões; o Senador Van Fleet, patrão do pai de Alex, que na realidade se revela um vampiro, trabalhando para Lisseth (e que pode sair à luz do dia!); além deles, temos mais alguns anjos, monstros, tribos indígenas e o próprio Lúcifer. Assim como na série Preacher da linha Vertigo (recentemente lançada no Brasil pela Pixel), aparentemente Deus abandonou o Paraíso, deixando a sua administração a cargo dos Arcanjos, dentre os quais inclui uma versão feminina de Gabriel, Gabrielle. Uma das edições mais interessantes, inclusive, é a que conta o primeiro Natal de Alex como vampiro, no qual ele é julgado pelos Arcanjos, e em que ele é constantemente abordado por uma garotinha, que pode ou não ser Deus.

Outra personagem importante, mas que surgiu apenas em edições mais recentes, é a "anja" caída Zophiel, que foi expulsa do Paraíso e agora tem que viver na Terra, entre os mortais, tentando aprender a conviver como eles. Alex acaba por se tornar seu guia e mentor, e, com o tempo, algo mais.

E, bem como no mundo real, no universo de Crimson não é possível definir realmente o que é certo e o que é errado ou quem são os bandidos e quem são os mocinhos. Nem todos os monstros são realmente a encarnação do mal, como Alex e Joe, por exemplo, e a Ordem dos Templários não é tão nobre assim, não se importa de usar meios escusos para concretizar sua cruzada "santa". Até alguns anjos são um pouco assustadores, como o arcanjo da morte.

A narrativa e o clima de Crimson parecem ser uma mistura dos próprios quadrinhos japoneses que influenciaram os desenhos de Ramos com RPG, contos de fadas e sagas místicas. Isso sem falar das referências bíblicas e a ícones da mídia, como Arquivo X, Simpsons, Disney (os amigos de Alex que foram assassinados no primeiro número se chamavam Huey, Dewey e Loie, os nomes originais de Huguinho, Zezinho e Luisinho, sobrinhos do Pato Donald). Sem falar que os roteiros sabem equilibrar os problemas pessoais e emocionais de Alex e sua vida de vampiro com eventos de pura ação, coisa difícil de se encontrar atualmente nesse tipo de HQ.

Crimson chegou a ser publicado no Brasil pela Pandora Books.Clicando AQUI pode-se ver todas as capas de Crimson

Imagens
       

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O moderno Robin Hood



Para quem curte Arrow e quer conhecer um pouco mais sobre o personagem nos quadrinhos, nos debruçamos sobre a aclamada minissérie do Arqueiro Verde, escrita por Kevin Smith, figurinha carimbada do público cinematográfico (dirigiu, entre outros, Dogma e Procura-se Amy), e também nos quadrinhos com seu fenomenal arco de histórias estrelado pelo Demolidor e a minissérie Cacofonia, do Batman.

Kevin Smith - que também pode ser chamado de "homem bombril", pois tem mil e uma utilidades, embora ultimamente tenha errado um pouco a mão nos filmes - trouxe de volta dos mortos o Arqueiro Verde original e transformou o seu título em um dos mais vendidos no período de lançamento. Antes de analisarmos a série escrita por Smith, vale a pena darmos uma retrospectiva na personagem.

A origem clássica do Arqueiro comumente aceita é a de que o milionário entediado Oliver Queen um dia caiu de seu iate durante uma viagem e ficou preso em uma ilha, dependendo de um rústico arco para sobreviver. Depois de certo tempo, pessoas estranhas chegaram nessa mesma ilha. Queen, descobrindo que elas na verdade eram traficantes de drogas, consegue prende-las, sendo depois resgatado pela guarda costeira. Ao voltar à civilização, vestido de Robin Hood, salva de um assalto os participantes de uma festa à fantasia. Após esse evento, associado com a grande crítica social que desenvolveu em seu exílio forçado, resolve se tornar um herói. Depois de um tempo, adota o jovem Roy Harper (atual Arsenal) e transforma-o em seu parceiro.


O Arqueiro Verde, como a maioria das personagens da DC, é originário da Era de Ouro. Criado em 1941 por Mort Weisinger (roteiro) e George Papp (desenho), era publicado inicialmente na revista More Fun Comics. O Arqueiro nada mais era, nessa época, que uma versão do Batman vestida de Robin Hood. Como ele, tinha um parceiro mirim Ricardito (Speedy), além de outros apetrechos similares aos que Batman usava nessa época, como um carro-flecha, um flechacóptero e até mesmo (em alguns números) habitava numa caverna. Suas flechas de mil e uma utilidades nos remetiam aos badulaques do cinto do Homem-Morcego. Como Bruce Wayne, Oliver também era um milionário. Mas, apesar de ser praticamente um xerox do Batman, fazia um relativo sucesso no período.



Foi nos anos 70 que as coisas realmente começaram a mudar para a personagem. Em uma de suas melhores e mais badaladas fases (desenhado por Neal Adams, responsável também pelo cavanhaque que se tornou marca característica de Ollie), ele se juntou ao Lanterna Verde/Hal Jordan e à sua amada Canário Negro para uma road trippin' através dos Estados Unidos, na qual enfrentavam traficantes e lidavam de frente com questões sociais, algumas relativamente polêmicas para a época. Vale ressaltar também que, nesse período, seu ex-pupilo Ricardito tornou-se viciado em heroína - tal história mostrou-se revolucionária quando de sua publicação.

Outra obra de destaque lançada com a personagem foi a minissérie Caçadores, publicada aqui pela Abril. Nela, temos um Oliver Queen mais envelhecido, não mais um milionário, residindo em Seattle (sua base original de operações era Star City, e durante um tempo atuou em Boston) com Dinah Lance, a Canário Negro. O tom é pesado (nessa série, Canário foi torturada e violentada por traficantes), mais próximo do estilo Vertigo que dos quadrinhos de heróis tradicionais.

Após a morte de Queen em uma explosão, seu filho Connor Hawke assume seu manto mas, não tendo a mesma empatia do pai, não chega a fazer muito sucesso. É aí que entrou Kevin Smith e sua série. Nela, Oliver Queen aparece desmemoriado em sua cidade natal, Star City. Após salvar a vida de Stanley, um velho milionário excêntrico, este passa a ajuda-lo para que volte a combater o crime. Entretanto, nada é o que parece.

Se os desenhos de Phillip Hester causam estranhamento nos fãs de estilo mais clássico, o roteiro e os diálogos de Smith empolgam. Mais experiente e menos prolixo que no Demolidor, ele mostra aqui porque era apontado, na época, como um dos mais proeminentes roteiristas do momento. Sendo um fã e respeitando a inteligência dos demais fãs, Kevin não só tentou amarrar toda a cronologia da personagem, como também buscou nos seus momentos mais gloriosos (artisticamente falando) a inspiração para o seu retorno. Falar demais vai estragar a surpresa da história de quem ainda, depois de todos esses anos ainda não leu a série, mas só para dar uma canja, já no primeiro número algumas importantes pistas são lançadas sobre quem está envolvido no retorno de Queen.

Outra façanha de Smith foi construir a história do retorno do Arqueiro ao mundo dos vivos de um modo original e sem parecer estúpido, como as milhares de ressurreições ocorridas na Marvel (que já viraram motivo de chacota para os fãs) ou o esdrúxulo retorno do Super-Homem. E mais um aspecto fascinante da história é essa amnésia de Queen. Oliver é um cara preso ao passado, aproximadamente nos anos 80, e é hilariante ver sua inaptidão com a tecnologia de nossos dias.

Depois que Kevin Smith encerrou com sucesso sua participação no título, Brad Meltzer, autor de livros de grande sucesso nos Estados Unidos, assumiu a publicação, e também estar alcançou um bom êxito com a personagem.

Sem sombra de dúvidas, essa série é recomendável para todos aqueles que gostam de quadrinhos, mesmo não sendo fãs do Arqueiro.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Nem todos os anjos pertencem ao Céu




Estrada para Perdição foi publicada em 1998 pela DC Comics, através do selo Paradox Press, e seu autor é Max Allan Collins. Além de escritor de quadrinhos, Collins é autor de diversas histórias de detetive, tendo inclusive ganhado duas vezes o Prêmio Shamus de Escritores de Histórias de Detetive por seus romances True Detective e Stolen Away. A arte ficou a cargo do talentoso e também premiado ilustrador Richard Piers Rayner, que já trabalhou nas seguintes publicações: Hellblazer, Monstro do Pântano, L.E.G.I.Ã.O. e Doutor Destino. Aqui no Brasil a graphic novel foi publicada pela editora Via Lettera, em três edições encadernadas. 

O espaço entre a concepção da história e sua publicação foi de aproximadamente cinco anos. Todo esse tempo se deveu principalmente ao trabalho do ilustrador, que demorou em média seis meses para ilustrar cerca 25 a 30 páginas (num total de mais de 300). Mas toda essa demora valeu a pena, pois tanto o trabalho de Collins no roteiro quanto o de Rayner nas ilustrações são magníficos, refletindo a extensa pesquisa de que são frutos. A obra pode ser considerada como uma das mais detalhadas, fidedignas e realistas reconstituições dos anos 30. 

Sam Mendes (Beleza Americana, Soldado Anônimo) dirigiu a versão cinemoatográfica estrelada por Tom Hanks, Jude Law e Paul Newman. 

Estrada para Perdição é um bom filme, com atuações impecáveis, direção de primeira, além de uma reconstituição de época primorosa (a história se passa nos anos 30). Talvez o grande porém seja o seu final, por demais óbvio ao espectador, o que pode gerar uma espécie de anticlímax para os mais críticos. 

A história do filme e da revista é mais ou menos a seguinte: Sullivan (Tom Hanks) é um assassino profissional que trabalha para Rooney (Paul Newman), gângster que controla a região das "Três Cidades" e é subordinado a Al Capone. Certa noite, o filho mais velho de Sullivan, Michael Jr. (Tyler Hoechlin), presencia um assassinato cometido por Connor, filho de Rooney. Connor resolve matar o menino, não apenas por este ter visto o crime, mas também por nutrir um certo sentimento de ciúmes contra Sullivan, já que o matador é alvo de afeto especial por parte de Rooney, que o considera como um filho. Entretanto, Connor acaba matando por engano o filho mais novo e a esposa de Sullivan, que acaba fugindo com o filho mais velho, Michael. Juntos, pai e filho percorrem, literal e metaforicamente, uma estrada para Perdição - o nome de uma cidade onde Sullivan pretende esconder Michael. Além de tudo, ele ainda busca vingança pela morte de sua família. 

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Como em qualquer adaptação, existem diferenças substanciais entre a graphic novel e o filme. Primeiramente, é possível apontar certas diferenças de nomes. Na revista, Michael Sullivan é chamado de Michael O´Sullivan e recebe a alcunha de Anjo da Morte (the Archangel of Death, no original), nem ao menos citada no filme. Já Mr. Rooney, nos quadrinhos, é chamado de Looney, um personagem real. Além disso, o tempo que O´Sullivan e seu filho passam na estrada também é diferente. No filme, são gastas seis semanas para se chegar à Perdição, enquanto na revista são necessários seis meses. 

Se no cinema temos a presença de Frank Nitti, um dos mais proeminentes auxiliares de Capone, na HQ, além dele, somos brindados também com a participação do famoso intocável Eliot Ness. No filme, Michael Junior escapa da morte por ter ficado de castigo depois da aula devido a uma briga, enquanto na revista ele havia saído para uma festa de aniversário. Também é fato digno de nota que tanto o início quanto o final da HQ são bastante diferentes do que vemos no filme. 



A mudança mais óbvia, no entanto, diz respeito à criação do excêntrico assassino de aluguel Harlen Maguire (Jude Law), em substituição às dezenas de gangsters que perseguem Sullivan e seu filho na história impressa. Mas a principal diferença entre as duas obras está no tom escolhido por seus realizadores para narrar a história. Ironicamente, a história em quadrinhos é muito mais movimentada que o filme, com diversas e elaboradas seqüências de ação e tiroteios - talvez uma espécie de reflexo da experiência de Collins em histórias policiais. Já o filme de Sam Mendes procura ser mais intimista, concentrando-se mais nos conflitos pessoais das personagens, especialmente nas relações entre pais e filhos, estabelecendo um paralelo entre Rooney/Connor e Sullivan/Michael Jr. De qualquer maneira, as diferenças apontadas não diminuem em nada as qualidades de ambas as obras.

Em relação à história em quadrinhos, não é possível deixar de assinalar a estreita relação de Estrada para Perdição com outra obra da arte seqüencial: Lobo Solitário

Criado por Kazuo Koike e Goseki Kojima e publicado no Japão na década de 70, Lobo Solitário conta a história de Ito Ogami, o executor oficial do Shogun que, acusado injustamente de traição, passa a vagar pelo Japão ao lado de seu filho Daigoro. Quem conhece a obra de Koike e Kojima reconhece imediatamente que Collins usou-a deliberadamente como fonte de inspiração para a sua história. Ele transpôs o Japão Feudal e seus rígidos códigos de honra para os anos da Lei Seca nos Estados Unidos: os clãs japoneses encontram correspondência nas famílias de mafiosos, e O´Sullivan faz as vezes de Ito Ogami, enquanto seu filho Michael ocupa o lugar de Daigoro. 

Assim como Ogami, O´Sullivan é um reconhecido e eficiente assassino a serviço de seu "senhor"; de repente, se vê caindo em desgraça, traído e perseguido por aqueles em quem um dia confiou, além de ter sua família assassinada no desenrolar dos acontecimentos. Resta-lhe apenas o filho como companheiro de travessia. 

O próprio título da HQ americana já é uma referência ao mangá. Quem já leu Lobo Solitário, mesmo em português, se lembra da escolha que Ito Ogami fez após a tragédia que se abateu sobre sua vida: ele escolheu seguir a trilha do assassino, um caminho de sangue e morte no qual não existe nenhuma misericórdia e que, no fim das contas, acaba o conduzindo ao meifumado, o inferno japonês. Nada muito diferente da escolha de O´Sullivan. Tanto ele quanto Ogami caminham para o inferno ou, em outras palavras, percorrem uma estrada para a perdição. 


Apesar de beber em fonte japonesa, Collins consegue construir uma obra marcante, de qualidade tão extraordinária quanto sua correspondente oriental. Mais que isso: consegue que seu trabalho seja apreciado por suas próprias qualidades, sem ser ofuscado ou reduzido pela sua inspiração. 

Collins escreveu duas outras continuações, em prosa, da história: Road to Purgatory (2004) e Road to Paradise (2005), contando a trajetória de Michael Jr. 

Em resumo, a graphic novel Estrada para Perdição pode ser considerada um dos mais formidáveis trabalhos de quadrinhos adultos realizados nos últimos anos. Merecer ser conferido, não apenas por quem gostou do filme ou é fã de Lobo Solitário, mas por todos aqueles que querem ler uma história empolgante, de qualidade, magnificamente escrita e ilustrada. 


terça-feira, 3 de outubro de 2017

As 3 faces de Coraline.



Coraline nasceu como um livro do autor inglês Neil Gaiman e ilustrado pelo genial Dave MacKean. 

Neil Gaiman pode ser considerado um dos mais importantes escritores de fantasia da atualidade. Entretanto, ele começou sua carreira como jornalista. 

Um dos seus primeiros trabalhos foi Violent Cases, no qual ele traçava um paralelo entre a brincadeira infantil da dança das cadeiras e o massacre de São Valentino cometido por Al Capone. Essa foi a primeira vez em que ele e Dave McKean trabalharam juntos.


Graças a essa obra, ele e McKean conseguiram uma vaga na DC e realizaram a minissérie Orquídea Negra - que está sendo relançada no Brasil. Essa minissérie falava sobre uma obscura super-heroína da editora e possibilitou que eles alcançassem vôos maiores. Gaiman passou a escrever a série mensal Sandman e McKean, além de ser o capista oficial de Sandman e de Hellblazer, também realizou o especial Asilo Arkham, escrito por Grant Morisson e estrelado pelo Batman.


Sandman, que é considerada como a maior obra de Gaiman para os quadrinhos, é uma das mais fascinantes histórias já publicadas pela DC Comics, e foi, juntamente com o Monstro do Pântano de Alan Moore, um dos catalisadores que possibilitou a criação da linha de quadrinhos adultos da DC: a Vertigo. Além de Sandman, Gaiman também escreveu para os quadrinhos: Livros da Magia (estrelado por um jovem mago de 12 anos, dono de uma coruja e que usa óculos, muito antes de Harry Potter aparecer), Miraclemen, Angela, algumas minisséries estreladas pelos Perpétuos (personagens de Sandman), entre outras coisas.


Mas Gaiman não se contentou em escrever apenas para os quadrinhos. Graças ao seu talento, se saiu bem em praticamente tudo o que fez. Ele já escreveu livros de contos e poesias (Fumaças e Espelhos), séries de TV (Neverwhere), romances de fantasia (o premiado Deuses Americanos e o divertido Bela Maldições, a quatro mãos com o saudoso Terry Pratchett), fábulas para adultos (Stardust), livros infantis (The day I swapped my dad for 2 goldfishes e Wolves in the Walls) e cinema, o roteiro de Beowulf é dele e a adaptação de Princess Mononoke para o inglês também. Também ganhou diversos prêmios importantes, como o Eisner, World Fantasy Award, Brain Stocker Award, American Library Association's Alex Award e o Nebula.

Como já disse, a parceria entre Gaiman e McKean é antiga e começou em Violent Cases. Mais que parceiros profissionais, Gaiman e McKean se tornaram grandes amigos e juntos realizaram Mr. PunchThe day I swapped my dad for 2 goldfishesSandman(a série) e Sandman Noites sem Fim (McKean era o capista), Wolves in the Walls, entre outros. Os dois trabalharam juntos em Mirror Mask, um filme ao estilo de Labirinto, clássico dos anos 80, em que Gaiman foi o roteirista e McKean foi o diretor, além de ser também responsável pelo designer das personagens e cenários. E há, é claro, Coraline.

Coraline é uma obra especial para Gaiman. Ele começou a escrevê-la cerca de 15  a 20 anos atrás para sua filha mais velha, Holly. No livro, somos apresentados a Coraline Jones, uma garotinha que vive em uma velha mansão com seus pais. Como muitas casas antigas da Inglaterra, o casarão onde Coraline vive foi dividido em pequenos apartamentos. Em um deles moram as senhoritas Forcible e Spink, duas velhinhas simpáticas que já foram atrizes de teatro. No sótão vive um estranho senhor que diz treinar uma banda de música composta por ratos brancos.

Coraline é uma menina comum, um pouco mimada (não gosta de experimentar comidas diferentes), e que detesta que falem o seu nome errado ou que não prestem atenção no que ela diz (o que acontece praticamente o tempo todo, pois os adultos insistem em chamá-la de Caroline). Mas, antes de tudo, Coraline é uma exploradora.

Em um dia de chuva, sem nada para fazer, seu pai sugere que ela explore o apartamento, anotando, entre outras coisas, o número de portas da casa. Coraline descobre que, das 14 portas do apartamento, uma não se abre. Depois que sua mãe abre a porta com uma velha chave negra, primeiro a menina acredita que a porta dá apenas em uma parede de tijolos.

Mas, ao destrancar a porta, a mãe de Coraline abriu passagem para um mal antigo, que está atrás da menina. Certa noite, Coraline abre novamente a porta, que agora revela um longo corredor. Do outro lado, ela encontra uma outra versão de sua casa, com uma outra mãe, um outro pai, outros vizinhos, praticamente tudo igual, tirando o fato de que lá todos sabem o seu nome, tudo é como ela mais gosta e as pessoas que ela conhece têm reluzentes botões negros no lugar dos olhos(!?).

Como diz o velho ditado, quando a esmola é muita, o santo desconfia. As coisas não são o que parecem e Coraline vai passar por grandes apertos para sair daquele lugar, contando apenas com sua coragem, sua habilidade de exploradora e a ajuda de um gato preto.

O livro traz de volta elementos clássicos da literatura infantil inglesa, presente em obras de autores como Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas e Alice no País dos Espelhos) ou C.S. Lewis (Crônicas de Nárnia) ou J.M. Barrie (Peter Pan). Tem em comum com esses trabalhos o tema da criança que, através de um portal (um buraco ou um espelho no caso de Alice, um guarda-roupa nas Crônicas de Nárnia) ou de um artefato mágico (o pó mágico de Peter Pan), encontra um lugar mágico e fantástico, a princípio bastante agradável, mas que se revela cheio de segredos sombrios e obscuros - especialmente no caso de Alice e Peter Pan.

Gaiman não é como muitos autores atuais, que pintam em suas obras um mundo politicamente correto, florido e cor-de-rosa. Os tons empregados em Coraline são negros e cinzentos. Há passagens que certamente nos fazem estremecer de medo, mas também não faziam isso os velhos contos infantis de outrora? 
Lembro-me muito bem do meu horror ao saber que, na história do Pequeno Polegar, o gigante decapitou suas sete filhas achando que era o Polegar e seus irmãos, e ainda assim eu adorava essa história. Ler Coraline me trouxe essa velha sensação perdida em minha infância, um misto de medo e atração. Por isso, só posso brindar à ousadia de Gaiman.

Com seu texto inteligente, ágil e envolvente, Gaiman não subestima a capacidade dos seus leitores infantis, criando uma obra que pode ser apreciada prazerosamente por platéias de qualquer idade.

Quanto às ilustrações de Dave McKean, não poderia deixar de dizer que elas foram uma agradável surpresa. Apesar de conhecer a obra desse artista há anos, a maior parte de seu trabalho que eu conhecia era feito através das técnicas de pintura ou uma mescla entre pintura e fotografia. Em Coraline, McKean trabalha basicamente com desenhos em preto, cinza e branco, feitos em nanquim e tinta, se eu não me engano. Fiquei surpresa exatamente por ele dominar tão bem técnicas tão distintas e ainda colocar sua marca pessoal nas obras. Você vê uma capa de Sandman ou uma página de Orquídea Negra, e depois olha uma ilustração de Coraline, sabe imediatamente que é Dave McKean, e o melhor, adora o que vê. As ilustrações em preto e branco remetem, em sua distorção a ambientação dos filmes do Expressionismo Alemão, que exploravam o mundo interior e perturbado dos personagens.

Os desenhos em Coraline conseguem passar simultaneamente o clima de conto infantil e de história de terror que os textos de Gaiman demandam. Também gostaria de cumprimentar a tradutora do livro, Regina de Barros Carvalho, pelo excelente trabalho feito, ao respeitar a obra original e, ao contrário de certos tradutores, não ficar trocando nomes próprios de personagens ou abrasileirando coisas que não tem a mínima necessidade de serem abrasileiradas, dada a universalidade do tema.


Na animação stopmotion, Coraline se tornou uma garotinha de cabelos azuis e capa de chuva amarela. Os traços e o estilo, não por acaso, lembravam algo de “James e o Pêssego Gigante” ou mesmo de “O Estranho Mundo de Jack”



Não por acaso exatamente pelo fato de serem todos esses três filmes dirigidos pelo sensacional Henry Selick. Pouca gente sabem, mas, apesar de Jack ser uma criação do Tim Burton (Noiva Cadáver) foi Selick quem dirigiu a película. 

Produzido pelo fenomenal estudio Laika (Noiva Cadáver, Paranorman, Boxtrolls), o filme mantém exatamente as mesmas linhas narrativas do livro, contudo, ser permite à mudanças de ritmo e a introdução de novos personagens: Wybie Lovat, vizinho da mesma idade de Coraline, e sua avô. Também altera a ocupação dos pais da protagonista e explicita alguns elementos sobre a mansão onde a garotinha se mudou com os pais

Eu, particularmente, não sou uma fã purista daquelas que se ressente porque determinado trecho do livro não foi literalmente transposto para a tela de cinema. Exatamente porque, da minha perspectiva, por mais que possam existir aproximações entre cinema e literatura (e muitos movimentos de vanguarda inclusive reforçam essa aproximação, mas discorrer sobre isso aqui é fugir do nosso tema), cinema e literatura são efetivamente meios diferentes. Cada um com recursos e gramáticas próprias, portanto, muitas são as vezes em que aquilo que fica maravilhosamente bem nos livros, pode ser tornar enfadonho e sem graça na telona.

E, no caso de Coraline, acredito que até o mais radical fã de Gaiman vai se render à forma meticulosa e bem amarrada que Selick adaptou a história, afinal, todas essas mudanças são exatamente para tornar visuais algumas explicações e situações que podem ser descritas formidavelmente em palavras, mas se tornariam enigmáticas visualmente.

O filme respeita a premissa e o clima do livro, mas as caracteriza
ções dos personagens puxam para o cartoon, se distanciando da concepção original de Dave McKean, em uma forma de expressar fisicamente a personalidade dos personagens e tornar o processo de animação mais fluido.

No caso da O
utra Mãe e da Mãe real, por exemplo, sutilezas de detalhes na aparencia delas são importantes e evidenciam suas diferenças. Um cabelo arrumado, postura ereta, maquiagem e um sorriso tornam da Outra Mãe, em comparação com os ombros caidos, cabelos desgrenhados e palidez da verdadeira Mãe, a tornam bem mais atraente, pelo menos no começo, para a sonhadora Coraline.



A presença de Wybie Lovat se mostra  como um recurso narrativo eficiente para substituir os monologos internos de Coraline em conversas, trazendo dinamica a filme.

O filme foi adaptado como game  para o X-Box 360, Playstation 3, Nintendo 3DS e PSP.




Existe uma versão em quadrinhos para o livro, escrita e desenhada por P. Craig Russell, que trabalhou com Gaiman em Sandman. Lançado aqui pela editora Rocco, a HQ tenta ser bem fiel ao livro, inclusive usando trechos do livro. Contudo a caracterização se distancia bastante tanto do trabalho original de McKean quanto da interpretação dada pela Laika. O visual da menina lembra muito mais uma Alice Moderna que suas contrapartes, a paleta de cor mais clara e vibrante que no filme reforça o quanto o livro de Lewis Carrol influenciou na HQ de Coraline.




Enfim, Coraline é um livro para ser lido e relido diversas vezes, sejam vocês adultos ou crianças Coraline também é um filme que merece ser visto várias e várias vezes pelas mesmas razões. . Se nenhum dos motivos que eu dei for suficiente para te convencerem disso, basta lembrar que Coraline é na verdade um conto de fadas e, colocando aqui uma citação feita por Gaiman na introdução do livro, vocês não poderiam achar motivo maior, afinal:


“Contos de Fadas são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos. (G. K. Chesterton)”



Imagens do filme - Clique para ampliar
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Nota A título de curiosidade, existe também um curta-metragem italiano, maravilhoso, inspirado em Coraline 

 

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O dia que o Homem sem Medo amarelou



Em geral, não sou muito fã do trabalho de Jeff Loeb nos quadrinhos, mas, quando ele se junta com Tim Sale, algo mágico parece acontecer, pois usualmente somos brindados com séries de excelente qualidade.  Uma das minhas séries favoritas é a trilogia das cores.

A primeira, que vou mencionar hoje, é o Demolidor Amarelo, lançado no Brasil pela Panini Comics.

Para quem não conhece a trajetória conjunta da dupla, eis o resumo:

Tim Sale e Jeff Loeb já trabalharam juntos em outras séries, como Batman Longo Dia das Bruxas e sua continuação Vitória Sombria, além da minissérie sobre o Homem de Aço intitulada As Quatro Estações. Claro, uma dobradinha na série de TV Heroes...


Assim como nas minisséries já citadas, Demolidor Amarelo trata dos primórdios da carreira de um herói, no caso, óbvio, o Demolidor. Entretanto, a série não tem como proposta recontar a origem do herói, mas sim abordar certos aspectos dos seus primeiros anos de carreira como vigilante mascarado sob uma nova perspectiva, do mesmo modo como foi feito com Batman e Super-Homem em suas respectivas séries.


Para quem não conhece o Demolidor ou teve pouco contato com o herói (assina logo a Netflix!), sua historia é mais ou menos a seguinte: o Demolidor, criado nos anos 60 por Stan Lee e originalmente desenhado por Wally Wood, tem um diferencial importante em relação à maioria dos outros heróis - ele é cego.

Não que um personagem cego fosse novidade no mundo dos quadrinhos: o doutor Meia-Noite (Doctor Midnight),  herói da Era de Ouro, era cego; entretanto, podia enxergar durante a noite com o auxilio de óculos especiais. Já Matt Murdock, o alter ego do Demolidor, não se utiliza desse tipo de artefato para lutar contra o crime. Na realidade, apesar de ser cego, ele "enxerga" as coisas ao seu redor através de uma espécie de radar, como o dos morcegos, além de ter todos os outros sentidos ampliados devido a um produto químico que atingiu seu rosto enquanto tentava salvar um velho cego de ser atropelado.

Matt foi criado pelo pai, um boxeador chamado Jack Murdock, homem desejoso de que seu filho se tornasse "alguém importante, não um lutador" como ele. Obedecendo aos desejos do pai, Matt se formou em direito, mas treinava boxe escondido. Tudo ia bem até que seu pai foi assassinado e ele resolveu assumir a identidade do Demolidor.


Apesar de ser um herói do segundo escalão da Marvel, não tão popular quanto o Homem-Aranha e os X-Men por exemplo, ele é um dos personagens mais importantes da editora. Talvez exatamente por ser do segundo escalão ele pôde alcançar essa importância. Afinal de contas, com o Demolidor foi possível fazer um tratamento mais adulto de um super-herói, especialmente durante a fase escrita por Frank Miller, o que acabaria por repercutir nas histórias mais comerciais, ou na fase escrita por Brian Michael Bendis, desenhada magnificamente por Alex Maleev.

(Para quem não leu os quadrinhos e apenas viu o seriado do Netflix, vai rolar spoilers)

Durante a fase de Miller, não apenas somos apresentados a novas e importantes personagens como a ninja Elektra, ex-paixão do herói, ou a irmã Maggie, que na realidade é a mãe de Matt que ele acreditava estar morta. Também estão presentes temas polêmicos, como prostituição e drogas, principalmente através da figura de Karen Page - que já tinha sido secretária no escritório de advocacia de Matt e seu amigo Foggy Nelson, além de namorada do herói. Karen havia largado o emprego de secretária para tentar a carreira de atriz, mas acabou de tornando atriz pornô, prostituta e usuária de drogas.



Outra fase de destaque foi feita pelo cineasta Kevin Smith,que escreveu um consagrado arco de histórias para a personagem, homenageando a fase de Miller no qual Karen Page, já "regenerada", acaba sendo assassinada por um dos inimigos do Demolidor, o Mercenário. É exatamente neste ponto que a minissérie de Loeb e Sale se inicia: o Demolidor de agora começa a história escrevendo uma carta para a sua amada e falecida Karen. Aparentemente, a situação atual está intolerável e "conversar com Karen, ao mesmo tempo fazendo uma retrospectiva do seu começo de carreira, quando ainda usava o uniforme amarelo, foi a melhor solução que encontrou". Portanto, em Demolidor Amarelo temos um homem maduro relembrando uma época aparentemente mais feliz e inocente.

Assim como nos outros trabalhos dos autores, a arte nos remete à época em que o herói surgiu pela primeira vez, principalmente pelos figurinos e cortes de cabelo - Batman e Super-Homem aos anos 30 e 40, e Demolidor aos anos 60. O traço de Sale é bastante expressivo e a colorização da minissérie, toda pintada, é um show à parte. Também o texto de Loeb, seja nos trechos das cartas ou seja nos diálogos, é cativante, aproximando-nos fortemente dos aspectos humanos do herói, provocando-nos uma identificação com ele.

Mais uma vez essa dupla não nos decepciona, proporcionando aos leitores uma obra fenomenal, tanto do ponto de vista visual quanto literário. Junto com os trabalhos de Miller, Bendis e Smith, Demolidor Amarelo pode ser considerado como um dos melhores trabalhos já realizados com a personagem.

Além de Demolidor Amarelo, a dupla realizou para a Marvel a minissérie Homem-Aranha Azul (que ainda vou relembrar) e também Hulk Cinza (que infelizmente não li).

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Go Speed Go!

Poucos são os animes que depois de 41 anos ainda são reconhecidos pelo grande público ou cujas reprises ainda são bastante freqüentes. Ou mesmo são capazes de levar a produção de um blockbuster de dimensões astronômicas. 

Quando se pergunta ao pessoal mais jovens sobre algum "anime das antigas", invariavelmente, é o corredor do Mach 5 que cruza a linha de chegada nas lembranças das pessoas. 

Para quem não sabe, Speed Racer é o nome americano da série de anime japonesa chamada Mach Go Go Go, baseada em uma série de mangás do início dos anos 60, criada por Tatsuo Yoshida. A animação foi realizada pela Tatsunoko Productions, e lançada pela primeira vez em 1967. 

A título de curiosidade, vale ressaltar as inspirações que levaram à criação de Speed Racer, no original, Mifune Gō. O sobrenome do rapaz foi uma homenagem nada discreta ao grande Toshiro Mifune, um dos maiores atores japoneses daquela época, astro de muitos dos filmes do diretor Akira Kurosawa (Rashomon, Os sete samurais e Yojimbo), o visual com o lencinho no pescoço e topete veio do rei, Elvis Presley, em especial do filme Viva Las Vegas, onde Presley vive o piloto de corridas Lucky Jackson, cujo sonho é ganhar o Grand Prix de Las Vegas. E, para finalizar, o gosto pelas aventuras ao redor do mundo, com toques de espionagem em alguns episódios, e as parafernálias do carrão Mach 5 viram de ninguém menos que James Bond. 

Outro fato interessante se refere ao nome original do protagonista. Foneticamente, Gō se refere tanto ao inglês Go (Vai!) quando ao japonês Go (Cinco). Não por acaso, o número do carro do Speed é o cinco (Um parêntesis nada a ver, mas, pulando para outro mangá, também não é por acaso que, em Bleach, Ichigo tem o número 15 na porta do quarto dele, ou é mostrado com roupas com o 15 estampado. Ichi é um em japonês, e Go, vocês já sabem.) 

Em linhas gerais, a trama do anime se foca no jovem piloto Speed Racer (Mifune Gō) que viaja pelo mundo competindo em corridas e rallies perigosos, cujos corredores podem até mesmo jogar sujo, e muitas são as explosões e acidentes durante esses percursos. 



Speed é sempre acompanhado por sua família: Pops (Daisuke Mifune), o pai do rapaz, responsável pela criação do fantástico Mach 5, antes engenheiro de uma grande coorporação, a qual abandonou para fundar a Racer Motors (Mifune Motors); Mamãe (Mom/Aya Mifune), o irmão caçula Gorducho (Spritle/Kurio Mifune) sempre acompanhado do macaco Zequinha (Chim-Chim/Senpei), que além de serem o alívio cômico da história, quebra-galhos ocasionais, sempre conseguiam a incrível façanha de se esconderem no porta-malas do Mach 5 (mesmo que a família inteira ficasse de olho nos dois).

Mamãe Gorducho e Zequinha
Para completar a família - que também é a equipe de corrida de Speed - temos o mecânico Sparky (Sabu) e Trixie (Michi Shimura), namorada do herói, que ás vezes se fazia de co-piloto ou auxiliava Speed observando a corrida em um helicóptero. 

SpeedTrixie
Em relação a Trixie, vale destacar que, juntamente com Safiri, de A Princesa e o Cavaleiro, é uma das precursoras das heroínas (japonesas) que se encontram em pé de igualdade com o mocinho da história. Trixie dirige bem, luta, pilota, sabe usar disfarces, é inteligente, sem deixar de ser feminina, tornando-se uma espécie de modelo para as garotas da época. 

Também não podemos nos esquecer, é claro, daquele que é considerado por muito como o personagem mais cool dos animes, o misterioso Corredor X (Racer X/ Fukumen (Masked) Racer), que, na realidade, parafraseando o narrador do desenho é "Rex Racer, o irmão desaparecido de Speed ", cujo nome original é Ken'ichi Mifune. 

Na versão original, Rex saiu de casa depois de uma briga séria com o pai. Anos depois, surge o Corredor X, cujo talento nas pistas lembra o do mais velho dos irmãos Racer. Aparentemente, tanto Speed quanto Pops desconfiam da real identidade de X. Rex se tornou agente da Interpol, e viaja pelo mundo, enfrentando criminosos e investigando falcatruas, sabotagens e vários outros delitos que se escondem no circuito internacional de corridas. Em mais de uma ocasião, o Corredor X ajudou Speed nas pistas, muitas vezes sacrificando sua vitória para auxiliar o caçula. 

Corredor XRex Racer
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Embora tenha durado apenas uma temporada (entre 1967 e 1968), o anime foi reprisado diversas vezes, obtendo sempre o mesmo retorno inicial. No Brasil, as últimas reprises foram feitas pela Rede Record, pelo Cartoon Network e posteriormente pelo Boomerang. O tema do anime é possivelmente um dos mais marcantes da história da animação (tanto a versão americana quanto a nipônica) e já dava, desde a abertura, o tom de "adrenalina" (na medida certa) do que viria a seguir. 

Além da séries dos anos 60, outras séries derivadas, tanto continuações, quanto remakes, foram realizadas. A primeira delas foi a americana The New Adventures of Speed Racer, produzida em 1993 pela Fred Wolf Filmes. Com uma animação sofrível, um tema de abertura pior ainda, uma completa descaracterização dos personagens, merece ser conhecido apenas como curiosidade ou como exemplo do que não se deve fazer com um personagem clássico (ou melhor, com qualquer personagem). 

The New Adventures of Speed Racer
Em 1997, em comemoração aos 30 anos da série original, foi lançado um remake também pela Tatsunoko Productions, Mach Go Go Go ou Speed Racer X trazia basicamente os mesmos elementos da história clássica, com uma roupagem moderna. Nesta versão, Rex Racer finge-se de morto para a família, plot que seria reutilizado no filme de 2008. O visual do desenho é interessante, não muito diferente do que era produzido nos anos 90, a animação tem qualidade, o ritmo por vezes fica aquém do esperado, mas vale a pena uma conferida. Ele chegou a ser exibido nos Estados Unidos em 2002 pela Nickelodeon, e, posteriormente, no Brasil, pelo Cartoon Network.

Speed Racer X
Em 2008, iniciou-se a produção de Speed Racer: The Next Generation, focada na história dos filhos de Speed e Trixie (?). Produzido pelos criadores da série cômica Kappa Mickey, traz, como protagonista, Speed Jr., um órfão que vai para uma escola de corridas (?!), dirigida pelo Gorducho (o único personagem da série original que aparece). Lá Speed Jr conhece X Racer, o filho mais velho do Speed original, com quem começa uma relação de rivalidade, até descobrirem que são irmãos. Speed Jr. foi mandando para um orfanato para ser protegido.

A premissa, os traços e o estilo da animação não empolgam.

Speed Racer: The Next GenerationSpeed Racer: The Next Generation 2

Contudo, apesar de não ter sido completamente feliz em suas continuações e remakes, Speed Racer se tornou parte importante da história da televisão mundial. O TV Guide (a "bíblia" da TV norte-americana) aponta o episódio em que o Corredor X revela sua identidade à Speed como um dos momentos mais memoráveis da história da TV. 

Speed também é referenciado em vários outras animações, como Harvey , o Advogado (onde ele é um dos clientes do ex-Homem-Pássaro) ou Family Guy ou Frango Robot. Vale destacar o episódio do Laboratório de Dexter em que os personagens praticamente encarnam o jeito "speed racer" de ser. Dexter faz as vezes de Speed, Dee Dee alterna entre Gorducho e Corredor X, o Pai do Dexter age exatamente como Pops. Outro que também merece ser visto é o episódio da série Os Padrinhos Mágicos, chamado A Caçada dos Padrinhos Mágicos, em que Timmy Turner, Cosmo e Wanda (os padrinhos) entram no mundo da televisão revisitando vários clássicos animados, inclusive Speed Racer. 

Se não bastasse todas essas referências e homenagens, em 1996, Speed e sua família foram "garotos-propaganda" de um comercial da Volkswagen. 

Depois de tudo isso, acredito que só nos resta uma coisa a dizer: Go Speed Go! 


Minha resenha do filme - http://www.freewebs.com/mahouamaterasu/tsuru/numero5/speedmovie.htm

Veja também algumas das aberturashttp://www.freewebs.com/mahouamaterasu/tsuru/numero5/speedvideos.htm

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Triste Herói



Relembrar é viver, assim, nada melhor que trazer uma das histórias que melhor trabalhou a relação de Gwen-Peter-Mary Jane: Homem-Aranha Azul.

 Homem-Aranha Azul é a segunda parte de uma "trilogia" sobre os primórdios de alguns heróis da Marvel. A primeira foi a já lançada minissérie Demolidor Amarelo, a terceira investida é  Hulk Cinza.

Jeff Loeb e Tim Sale parecem ter se especializado em mostrar os heróis mais famosos dos quadrinhos no começo de suas carreiras, quando eram quase amadores - mesmo que esse não seja o enfoque principal da história em alguns casos, como em Batman Longo Dia das Bruxas, na sua continuação Dark Victory e nas já citadas séries da Marvel, quando é exatamente sobre isso que eles queriam tratar, como na minissérie sobre o Homem de Aço intitulada As Quatro Estações.

Suas histórias têm um certo ar de saudosismo, seja na estrutura dos roteiros, sejam nos cenários e vestuários, que acabam por nos remeter ao passado, enquanto paradoxalmente sempre acrescentam um novo elemento. O mesmo pode ser visto em Homem Aranha Azul, que retrata um dos melhores períodos da história do Aracnídeo, quando ele estava na faculdade morando com Harry Osbourne, apaixonando-se por Gwen Stacy, mas ainda assim sentindo-se um pouco atraído pela bela e audaciosa Mary Jane.



Foi exatamente nessa época (durante a década de 70) que a áurea de herói trágico e ao mesmo tempo humano do Aranha se consolidou. Se na sua origem a morte do Tio Ben e a culpa indireta de Peter no ocorrido já nos forneciam uma carga dramática poderosa, nas histórias da década de 70 (desenhadas magistralmente, em sua maioria, por John Romita Sr.) a trajetória do herói ganha um status de tragédia quase grega.

Peter se apaixona por Gwen e se torna amigo de Harry, que por sua vez namora Mary Jane, que tem uma queda por Peter. Mas não se resume apenas a isso: Harry, o melhor amigo de Peter, é na verdade filho do Duende Verde/Norman Osbourne, arquiinimigo do herói. Como se isso ainda não fosse o suficiente, as histórias dessa época ainda lidavam com temas polêmicos como discriminação racial, política e drogas, tornando-se um marco não apenas na trajetória de Peter Parker, mas na história das HQ's. A importância desse período ainda pode ser notada na grande influência que essas histórias tiveram na elaboração do roteiro dos filmes do Aranha, tanto os dois primeiros realizados por Sam Raimi (desconsidero o terceiro), mas principalmente nos filmes estrelados por Andrew Garfield e Emma Stone.



Como eu já havia dito, a história toda pode ser classificada como uma tragédia, pois Gwen morre nas mãos do Duende, talvez por culpa de Peter, e Harry assume o legado do pai, passando a odiar seu ex-melhor amigo. Muita água rolou depois disso: Peter casou-se com Mary Jane, Harry também morreu... Mas isso não vem ao caso, voltemos à série. Nela, temos o Peter de agora relembrando seu passado, uma época em que era feliz e não tinha noção da tormenta que o aguardava. Um Peter nostálgico, blue (triste), como nos lembra o título. Ele narra à sua amada Gwen seu passado em comum, ao qual não podem mais voltar, numa mistura de diário e "carta" de despedida.

 Se levássemos em conta a minissérie isoladamente, ela seria uma excelente história sobre um excelente herói. Entretanto, depois de começarmos a ler, ficamos com a ligeira impressão de que já vimos aquilo em algum lugar. E realmente vimos: na minissérie Demolidor Amarelo. Nela, Matt Murdock também se volta para o passado e para a sua amada e falecida Karen Page. Só que Matt escreve uma carta para desabafar, enquanto Peter utiliza um gravador. Se não fosse o triângulo amoroso Gwen-Peter-MJ, poderíamos pensar que não passa da mesma história com outros personagens.

Por que tantas similaridades entre as minisséries? Pura intencionalidade, pois a trilogia das cores traz a importância de suas mulheres na vida desses heróis.

No caso do Demolidor e do Aranha, já existiam, de antemão, outras confluências. Como muitos leitores já devem ter percebido, Matt e Peter têm muito em comum: a importância das figuras paternas em suas vidas (Ben Parker e Jack Murdock), a tragédia em suas vidas amorosas (as mortes de Gwen e Karen), seus romances com badgirls (Elektra e Gata Negra), alguns inimigos em comum (o Rei do Crime, por exemplo, arquiinimigo do Demolidor, surgiu nas histórias do Aranha), entre outros detalhes... Mas dizer que o Demolidor é uma versão mais cult do Aranha ou que o Aranha é uma versão mais comercial do Demolidor é esvaziar ambas as personagens. Afinal de contas, tanto Demolidor e Aranha possuem características próprias, fortes e marcantes. Talvez o ideal não seja negar essas semelhanças, mas explora-las. Loeb e Sale fizeram isso, assim como Kevin Smith fez (soberbamente, diga-se de passagem) em sua série sobre o Homem sem Medo. É fácil pensar em Murdock quase como um irmão mais velho e mais maduro de Peter, que já se fixou na vida adulta, enquanto Peter ainda começa a dar seus primeiros passos nesse sentindo.

Pensando assim, Homem Aranha Azul e Demolidor Amarelo são séries que se complementam, mesmo que não seja obrigatório ler uma para entender a outra.