sábado, 28 de julho de 2012

Mulher Gato em Teto de Zinco Quente (atualizado)

Quem é a Mulher Gato, afinal?

A personagem surgiu em 1940, na revista Batman # 1 (curiosamente, o Coringa também apareceu nessa edição), com o nome original "The Cat", e não usava nenhum uniforme especial. Desde as primeiras histórias, The Cat   já era uma ladra e Batman sempre demonstrou certa complacência em relação à felina: após recuperar os frutos do roubo de The Cat, Batman simplesmente deixa a mocinha escapar. Seria amor bandido à primeira vista?

Durante um bom tempo, Bob Kane (criador do Batman e de grande parte das personagens da série, juntamente com Bill Finger) tentou encontrar o visual (usando a própria namorada como modelo) e o nome ideais para a personagem. Depois de algumas aparições como The Cat, ela se transformou em Selina Kyle, uma dona de lojas de animais que simplesmente decidiu se tornar ladra e mudou o nome para Mulher Gato (Catwoman). Vestida com um esvoaçante vestido de seda e portando um chicote, ela se tornou uma das personagens mais sexies da história dos quadrinhos.



A maioria de seus crimes era relacionada com gatos e Selina nunca foi nada mais que uma ladra. Não era necessariamente uma personagem "má", mas sim uma aventureira que sentia um prazer especial em burlar a lei e trazer dor de cabeça para o Morcegão.

Desde o início também ficou subentendida certa tensão sexual e um atrativo romântico entre a Mulher Gato e o Batman. Talvez, na cabeça dos criadores da personagem, nada melhor para pegar um rato voador do que um gato, ou melhor, uma gata.

Com a onda de moralização que varreu os quadrinhos durante os anos 50, a personagem acabou ficando um pouco para escanteio, até que, graças à batmania deflagrada pela série de TV estrelada por Adam West (Batman) e Burt Ward (Robin), a Mulher Gato voltou ao auge.



Na série, ela era vivida primeiramente pela atriz Julie Newmar. Na imaginação da maioria dos fãs, nunca houve nem haverá uma Mulher Gato como Newmar. Sexy e divertida, a versão da Mulher Gato vivida por Newmar não tinha a dualidade moral da personagem dos quadrinhos. Ela era uma vilã, mas ainda assim sedutora e carismática. Um femme fatale vestida em látex e com orelhas de gato. Nem o Batman poderia resistir ao seu charme. O sucesso da personagem foi tanto que, nos quadrinhos, a Mulher Gato passou a ser retratada fisicamente de forma semelhante à personagem da série.

O sucesso do seriado do Batman também foi tamanho que decidiram fazer um longa metragem com as personagens. Como a série, o longa era nada mais nada menos que uma sátira exagerada ao universo dos Comics. No filme, um grupo de vilões, formado pelo Coringa (Cesar Romero), Charada (Frank Gorshin), Pingüim (Burgess Meredith) e Mulher Gato, decide atacar os líderes mundiais, cabendo à dupla dinâmica impedir esse vil intento. Na época, Julie Newmar não estava disponível, pois estava filmando O Ouro de MacKenna (famoso pela cena em que ela aparece "nua"), e foi substituída quase à altura por Lee Meriwether, uma ex-Miss América.



Na terceira temporada da série, saiu Julie Newmar e entrou a cantora Eartha Kitt em seu lugar. A explicação oficial foi a de que Julie Newmar estava com a agenda cheia no período. No entanto, segundo as más línguas, tudo não passou de uma manobra para não deslocar as atenções do público para a Batgirl como possível interesse romântico do Batman. Isso porque a Mulher Gato de Eartha Kitt é muito mais cômica e exagerada que a protagonizada por Newmar.



Pouco tempo depois, também foi lançado um desenho animado estrelado por Batman e Robin. Nele, o uniforme da Mulher Gato, apesar de verde, era inspirado no do seriado. Ela era uma vilã propriamente dita, cercada de capangas e dirigia um Gatomóvel e um Gatocóptero - todos com enormes orelhas de gato.

Nos quadrinhos, a personagem continuou sua vidinha básica de ladra charmosa... Com algumas ressalvas. Na década de 70, no universo conhecido como Terra 2 (uma cópia da Terra oficial da DC, no qual os heróis eram todos mais velhos), Selina Kyle abandonou o mundo do crime e se casou com Bruce Wayne. Os dois tiveram uma filha, Helena Wayne. Selina foi morta por um de seus ex-parceiros de crime, o que levou Helena a se tornar a heroína Caçadora. Tal história foi aproveitada anos depois na série de TV Birds of Prey (SBT e Warner), estrelada pelas personagens Caçadora (Helena Kyle), Oráculo (Bárbara Gordon) e Canário Negro (Dinah). Infelizmente, o seriado foi cancelado logo na primeira temporada.

Mas eis que chegamos ao ano de 1985 e ocorre na DC Comics um mega evento chamado Crise nas Infinitas Terras. Para quem não sabe, esta saga escrita por Marv Wolfman e desenhada por George Perez teve como função arrumar o balaio de gatos que se tornou a cronologia da DC com suas centenas de Terras paralelas. As Terras foram fundidas numa só, e muitos personagens morreram ou foram alterados.

A maioria das personagens clássicas da DC passou por reformulações em suas origens, apesar de seus aspectos essenciais terem sido mantidos. Foi assim com o Superman de John Byrne, a Mulher Maravilha de George Perez e o Batman de Frank Miller.

Miller, que já havia escrito o aclamado Batman Cavaleiro das Trevas, escreve Batman Ano Um em parceira com David Mazzucchelli (desenhos, antigo parceiro de Miller em Demolidor) e Richard Lewis (cores). Batman Ano Um, como o próprio nome diz, narra os infortúnios do Cavaleiro das Trevas no seu primeiro ano de combate ao crime. Selina então é retratada como uma sexy prostituta que decide abandonar o ofício para se tornar a ladra mascarada Mulher Gato.

Logo em seguida foi lançado um especial intitulado Mulher Gato, que reconta a origem da personagem. Inicialmente, Frank Miller escreveria o especial, mas após um desentendimento do autor com a editora, Mulher Gato passou para as mãos de Mindy Newell.


Newell aproveita toda a caracterização criada por Miller em Batman Ano Um e elabora uma história paralela estrelada por Selina Kyle, aqui uma prostituta de rua violentamente abusada por seu cafetão. Após passar um tempo internada em um hospital, um policial a encaminha para o herói aposentado Pantera Negra. Ele ensina Selina a lutar e a se defender. Depois disso, ela decide abandonar a vida nas ruas, tornando-se a ladra conhecida como Mulher Gato.

Certos aspectos dessa versão da heroína foram aproveitados por Jeph Loeb nas suas séries O Longo Dia das Bruxas e Vitória Sombria que, se observadas com atenção, podem ser consideradas quase como continuações de Batman Ano Um.

Nos anos que se seguiram, o passado duvidoso de Selina Kyle como prostituta foi deixado um pouco de lado, praticamente esquecido. Até tentaram recontar sua origem após o evento Zero Hora (quase uma continuação da Crise), praticamente excluindo os eventos referentes à vida de Selina como prostituta.

Em 1992, Tim Burton dirige Batman - O Retorno, segundo filme da franquia do Cavaleiro das Trevas no cinema. Aqui, Selina (vivida por Michelle Pfeiffer, ao lado na foto) era secretária de Max Schreck (Christopher Walken). Após descobrir uma de suas falcatruas, ela foi assassinada por ele. Misteriosamente, é revivida por vários gatos, tornando-se a sexy vilã Mulher Gato. Aliada ao Pingüim (Danny DeVito), ela coloca em ação um plano para prejudicar Gotham City e Schreck, tendo o intento de se vingar do seu ex-chefe. Como nos quadrinhos, existe uma forte atração entre a Mulher Gato e o Batman (Michael Keaton), assim como entre seus alter-egos Selina Kyle e Bruce Wayne. A atuação de Michelle Pfeiffer é marcante e torna a Mulher Gato tão sexy, dual e carismática quanto à versão protagonizada por Newmar na série de TV. Ou talvez muito mais.



A versão Mulher Gato de Pfeiffer impressionou tanto que a personagem foi retratada loira no excelente desenho Batman The Animated Series (de Paul Dini e Bruce Timm), tal como a atriz, ao invés de morena, como nos quadrinhos. Somente depois de algumas temporadas é que a Mulher Gato passou a ter seu cabelo moreno clássico de volta. No desenho, a identidade de Selina como Mulher Gato é de conhecimento público e ela inclusive não é tão "vilã" como em suas outras versões, sendo até retratada como uma ativista de Direitos dos Animais. Na versão animada, ela era dublada por Adrienne Barbeau.


Enquanto isso, nos quadrinhos, a Mulher Gato começou a ganhar mais espaço dentro do universo do Morcego e passou a protagonizar sua própria revista. Escrita por Jo Duffy e desenhada por Jim Balent, a versão da Mulher Gato mostrada nessa série era muito mais aventuresca e bem humorada que a sombria versão recriada por Miller.

Pouco tempo depois, a série foi reformulada. Muitas das pontas soltas deixadas para trás, inclusive o passado de Selina Kyle como prostituta, foram retomadas e novamente explicadas. O uniforme da personagem mudou outra vez e a história enfatiza mais numa espécie de guerrilha urbana.

Loeb aproveitou bem essa "nova" Mulher Gato na sua mega saga Silêncio, publicada no Brasil pela Panini e desenhada por Jim Lee. Nela, Loeb tentou estreitar os laços entre a Mulher Gato e o Homem Morcego, tornando o romance entre os dois ainda mais explícito.



Houve também o fatídico filme da Mulher Gato, estrelado por Halle Berry. Nele, Patience Phillips é uma artista plástica frustrada que trabalha como designer em uma companhia de cosméticos. Certo dia, ela descobre que o novo produto a ser lançado pela empresa provoca, com o uso contínuo, a deformação do rosto de suas usuárias. Assim, ela é assassinada por seus patrões. Patience morre e é ressuscitada por vários gatos, meio que num ritual felino. Poderes semelhantes aos de um gato lhe são transmitidos por uma felina especial, mensageira da deusa dos gatos Bast, que lembra bastante a cena do filme do Burton. A partir daí, Patience se torna a Mulher Gato, que não é necessariamente uma heroína. E tenta desvendar o mistério envolvendo sua morte. O filme se mostrou como uma bomba completa, com inúmeros equívocos reunidos. Desde roteiro, passando por figurino, direção, edição, atuações, trilha sonora. A história é mal escrita, cheia de furos e explicações completamente forçadas.  Não por acaso, foi o ganhador do Framboesa de Ouro de 2004, prêmio concedido aos piores filme do ano.

Em 2004 também estreou a série The Batman, cujo principal idealizador foi Jeff Matsuda, responsável pelo consagrado desenho As aventuras de Jackie Chan. A série durou até 2008 com um total de 65 episódios. Seu propósito era alcançar o público infantil, e, para isso mostrava um Bruce Wayne mais jovem, de aproximadamente 20 anos, em seu começo de carreira. O clima é muito mais leve que das série anteriores, se aproximando muito mais do trabalho anterior de Matsuda que das animações anteriores do Morcego. O designer dos personagem foi muito criticado entre os fãs, especialmente o do Coringa.



Entretanto, apesar de bem mais morena que nas versões anteriores, a Mulher Gato passou incólume. Seu uniforme remetia aos quadrinhos, apesar das orelhas maiores que o usual. E sua caracterização era de uma aventureira que se divertia em burlar a lei.

Apesar das ressalvas do público, a série ganhou seis vezes o prêmio Daytime Emmy Awards.

Em 2008, foi lançada a série Batman: The Brave and  The Bold (Batman: O Bravos e Destemidos), também voltada para o público infantil. Baseada na clássica revista de mesmo nome, suas histórias remetiam às aventuras exageradas e, por vezes nonsense, que o herói vivia no fim dos anos 40 e nos anos 50, muitas vezes magistralmente desenhadas por Dick Sprang. Aliás, o traço do artista inspirou o design da série.  E a Mulher Gato, como a versão daquela época, encarna novamente a ladra de vestido esvoaçante e chicote.


Nos quadrinhos, depois da gravidez de Selina Kyle e nascimento de sua filha, nas histórias escritas por Ed Brubaker, Holly Robinson assumiu o manto da ladra felina.

Robinson surgiu em Batman Ano Um. Ela era uma jovem prostituta – aparentando ser menor de idade – que morava com Selina Kyle. Depois de vários problemas, Selina precisou deixar Holly com sua irmã, Maggie Kyle, uma freira.

Holly não se adaptou à vida no convento e acabou voltando para as ruas.

Em uma das versões da história, ela se casou com um milionário, sendo assassinada por ele, fazendo com que Selina buscasse vingança pela morte da amiga.

Ignorando esse fato – algo justificado, considerando-se os constantes reboots da cronologia da DC, Brubaker fez de Holly uma viciada que reencontra Selina em sua velha vizinhança, ganhando uma segunda chance.

Para explicar a ressurreição da moça, o autor se aproveitou de um dos mencionados reboots, o Zero Hora, criando uma história extra que explicou o retorno de Holly.



Durante um tempo, Holly teve um bom desempenho em sua vida de anti-heroína até ser injustamente acusada de assassinato e ter se tornado uma fugitiva.

Em 2004, a série da Mulher Gato ganhou o GLAAD Media Award, prêmio da
Gay & Lesbian Alliance Against Defamation (GLAAD), por mostrar Holly como lésbica de forma positiva e aberta.

Depois do relaunch realizado pela DC Comics, reiniciando sua cronologia através dos títulos conhecidos como os Novos 52, Selina Kyle se consolidou novamente como Mulher Gato, e protagonizou uma das cenas mais polêmicas desse recomeço, onde ela e Batman fazem sexo, ambos usando seus uniformes.



Agora é a vez de Anne Hathaway  assumir a personagem nos cinemas, em Dark Knight Rises, filme que fecha a série iniciada por  Christopher Nolan com Batman Begins em 2005.

Seu uniforme é claramente uma homenagem ao visual de Julie Newmar na série dos anos 60, adaptado para o universo pretensamente realista criado por Nolan.

Muitos fãs duvidavam da capacidade da atriz em conseguir encarnar a personagem. Depois da estreia do filme, público e crítica, em sua maioria, não poupam elogios à moça, e os mais entusiasmados, cogitam uma indicação ao Oscar pelo papel.


Só vendo o filme para ver conferir se esse alvoroço é justificável.

Contudo, é inegável que em quase todas as suas encarnações a Mulher Gato sempre fascinou seus fãs não apenas por seu jeito sexy e um pouco selvagem, mas pela sua força, carisma e dualidade moral. Enfim, uma personagem intrigante e sedutora, essencial na Mitologia do Homem Morcego.

Também publicado no site Terra Zero: http://www.terrazero.com.br/2012/08/mulher-gato-em-teto-de-zinco-quente/

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Exposição Diamond Mall

Este é site do Diamond Mall sobre a exposição, onde tem meu texto sobre quadrinhos, desde os primórdios até hoje em dia com a influência nos filmes, jogos e etc. Com ilustrações de vários artistas mineiros, como Brão, Guilherme Balbi, Julio Ferreira, Juliana Simões e o premiado Eduardo Damasceno.

http://www.diamondmall.com.br/blog/wp-content/uploads/2012/07/pdf_HEROIS_site.pdf

Abaixo, fotos do evento.

















segunda-feira, 9 de julho de 2012

Sobre o Espetacular Homem Aranha...

Participação minha, do quadrinista Vitor Cafaggi e da escritora Cleide Fernandes no jornal Estado de Minas sobre novo filme do Homem-Aranha.
Super-herói na BerlindaFãs especializados em quadrinhos se dividem em relação ao novo filme do Homem-Aranha. Só os atores Andrew Garfield e Emma Stone conseguem escapar da crítica rigorosa dos aficionados


Carolina Braga

Publicação: 09/07/2012 04:00



Ainda que os números da estreia de O espetacular Homem-Aranha sejam expressivos – lucro de US$ 140 milhões em seis dias –, o chamado reboot da trama de Peter Parker, dirigido por Marc Webb, não tem impactado tanto quanto a primeira trilogia do super-herói protagonizada por Tobey Maguire. Na verdade, o que marca a produção estrelada por Andrew Garfield e Emma Stone é o racha na opinião de fãs, principalmente aqueles especializados em quadrinhos.

“Achei mediano. O filme tem menos detalhes para atrair os fãs e mais para o grande público”, observa Ana Carolina Cunha, mestre em HQ pela Universidade Federal de Minas Gerais, funcionária e aluna da Casa dos Quadrinhos de Belo Horizonte. “Tentaram fazer uma história mais densa, pautada nos dramas psicológicos do personagem, mas não funcionou”, completa a bibliotecária Cleide Fernandes, também colaboradora da escola especializada mineira.

Como quase tudo o que envolve personagens do naipe de Homem-Aranha, as adaptações misturam tantos elementos dos quadrinhos que, de fato, nunca alcançam unanimidade. Se isso já se dava com a trilogia, agora a tendência se reforça com novos atores e a volta da trama às origens. “Gostei bastante. O filme tem estrutura de roteiro muito parecida com a do primeiro da série, além de elementos do segundo longa. Mas a grande vantagem é o elenco. Andrew está espetacular: ele é o Peter Parker. Emma também está bem, essa caracterização conta muito”, analisa o desenhista Vitor Cafaggi.

Há um ponto em comum nas opiniões de gente especializada em HQ: a caracterização de Emma Stone como Gwen Stacy. “Parece que a tiraram dos quadrinhos e levaram para a tela. O visual é muito parecido, até os figurinos”, surpreende-se Cafaggi.

Para o quadrinista, o Peter Parker de Andrew Garfield também é muito parecido com a caracterização dada pelo desenhista Steve Ditko, em 1962. “Ele era bem magrelinho, com o cabelo arrepiado, sobrancelha grossa. Na primeira trilogia, toda vez em que ele tirava a máscara eu me incomodava. No novo filme isso não ocorreu, pois o Andrew é muito parecido com o personagem”, diz Vitor.

Está aí uma diferença fundamental entre a HQ e o filme: na tela, a todo momento Peter Parker mostra sua identidade. “Isso me irritou, porque a questão do herói é justamente esconder quem é. Nesse filme, ele revela para todo mundo que é o Homem-Aranha. Isso esvazia um pouco”, critica Cleide Fernandes. “Esse recurso do cinema permite ao ator aparecer mais. Dizem que a máscara limita muito a visibilidade deles. Acho que a personalidade do novo Peter Parker também é mais fiel, ele não ficou tão bobão. Está mais destemido”, observa Caffagi. Eis outra controvérsia na guerra HQ versus cinema.

 “O Peter Parker é nerd, mas isso ficou falho. É mais um adolescente normal, incompreendido, que está aquém da imagem clássica do personagem”, afirma Ana Carolina Cunha. Para ela, mais grave que Peter Parker, a mancada de O espetacular Homem-Aranha é a caracterização do vilão Doutor Connors/ Lagarto. “Nos quadrinhos, ele só fica mau quando vira Lagarto. Essa dualidade não está clara no filme. Virou um personagem obcecado por ciência, por melhorar a espécie humana”, reclama a fã.

REPETECO Autor das tirinhas Puny Parker, inspiradas na infância do herói, Vitor Cafaggi é tão aficionado em Homem-Aranha que já viu o novo filme duas vezes – em 3D e na versão convencional. A tecnologia, um dos diferenciais do longa recém-lançado, não o empolgou. “Gostei mais do 2D. As cores ficaram mais vivas e dá para você entender os movimentos do Homem-Aranha”, compara Vitor.

Para Ana Carolina, o formato 3D não conseguiu agregar emoção à ação. “Achei as cenas fracas. Não dá empolgação vê-lo pulando de prédio em prédio. Não gostei dos momentos em que parecemos estar nos olhos dele. Tive a sensação de jogar videogame com o filme”, criticou ela.


CONFIRA
Pegando carona na estreia de O espetacular Homem-Aranha, ficará em cartaz, entre os dias 12 e 30, a exposição Heróis dos quadrinhos, parceria da Casa dos Quadrinhos com o Diamond Mall. Estarão à mostra esculturas e ilustrações de artistas mineiros em homenagem a seus heróis prediletos. O público que for ao shopping também poderá conferir revistas raras de colecionadores e o acervo da Casa dos Quadrinhos. Serão oferecidas oficinas gratuitas de quadrinhos para crianças de 7 a 12 anos. Informações: (31) 3330-8633. 


RESUMO DA OBRA


As tirinhas Puny Parker, sobre a infância de Peter Parker, projetaram a carreira do desenhista mineiro Vitor Cafaggi. “Fiz como brincadeira, um treino para os quadrinhos. Hoje, desenho para grandes publicações”, conta ele. Em 140 tiras, Vitor conta uma história inteira reunindo vários elementos das tramas originais desenhadas por Stan Lee, Steve Ditko e John Romita. O trabalho está disponível em www.punyparker.blogspot.com.
Fonte: Jornal Estado de Minas em 09/07/2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Em palpos de Aranha (ou: como a Marvel descobriu que qualidade faz bem ao bolso, e evita que uma horda de fãs raivosos se volte contra ela)


Com a estréia de O Espetacular Homem-Aranha, nada melhor que dar uma voltinha no Túnel do Tempo e lembrar como dez anos atrás, Homem-Aranha (2002) deu, junto com os X-Men de Bryan Singer, o pontapé inicial para a era de ouro de adaptações de super-heróis para o cinema (claro que com vários tropeções no meio do caminho).


Durante anos, a Marvel amargou diversas adaptações live action de seus heróis, sejam filmes ou seriados de TV, que pouco ou nada tinham a ver com o original, além de serem de qualidade extremamente duvidosa, haja vista o filme do Dr. Estranho, o Quarteto do Roger Corman.  Com X-Men - O Filme, o tabu finalmente foi quebrado. Mas, apesar de todas as qualidades do filme dos mutantes, o filme primeiro do Aranha conseguiu ser ainda melhor.


Criado por Stan Lee e Steve Ditko em 1962, Peter Parker, alter ego do herói, surgiu primeiramente no último número da revista Amazing Fantasy. A história fez tanto sucesso que logo depois a personagem ganhou título próprio. Parker, sem sombra de dúvida, revolucionou o conceito de super-herói. Não tanto pelo tipo de poder que possuía, mas por ser caracterizado como uma pessoa comum, com problemas, qualidades e defeitos como qualquer um de nós, apesar de suas habilidades sobre-humanas.


Peter é um típico nerd, "10 nos estudos/zero na vida", rejeitado por todos, mas amado pelos tios, que o criam desde a morte dos pais. Quando é picado por uma aranha radioativa - no filme, ela é geneticamente alterada - e ganha seus poderes, qual a primeira idéia do rapaz? Usar seus poderes em prol da humanidade? De forma alguma: como um mero e imperfeito mortal, ele resolve usar os novos e recém adquiridos poderes para conseguir uma graninha. E se não fosse por um ato impensado e egoísta de Peter, que resultou na morte de seu Tio Bem, ele nunca teria se tornado um herói nem seguiria o famoso lema "com grandes poderes vem grandes responsabilidades".


As histórias das revistas do Homem-Aranha sempre foram sobre Peter Parker, seus problemas, dúvidas e inseguranças, sobre sua culpa e busca de redenção. A empatia e identificação do leitor com a personagem eram/são imediatas e profundas. O primeiro grande acerto do filme foi exatamente compreender isso e contar a história de Peter Parker, concebendo o Homem-Aranha não como o aspecto principal de sua vida, mas como uma característica complementar, embora importante.


A começar pela narração em off feita por Peter no início e no fim da película, passando pela primeira cena em que vemos nosso herói correndo desesperado atrás do ônibus da escola, sem falar nas cenas em que começa a descobrir seus poderes, tudo é apresentado de modo que criemos um laço com a personagem. Não muito diferente do que ocorre nas HQs. E sem perceber, o espectador se vê irremediavelmente preso na teia de Parker.


Outro acerto foi a fidelidade com a essência da história do herói. Embora muitos fatos tenham sido modificados, como por exemplo Mary Jane e Peter se conhecerem desde crianças, ou Harry ser seu amigo desde o colégio (nas revistas, Parker conhece os dois na faculdade), ou a mais polêmica, a famosa teia orgânica, tudo o que vimos nos quadrinhos está lá: Tio Ben, Tia May, a paixão de Peter por M.J., a amizade de Peter e Harry e a insinuação do trágico futuro que os espera, a dualidade do Duende Verde/Norman Osbourne.


Resumir os quase quarenta anos da vida quadrinística do Homem-Aranha não seria fácil, e a solução do roteirista não poderia ter sido melhor: concentrar-se na história de sua origem e nas histórias de uma de suas melhores e mais importantes fases, durante a década de 70, com seus conflitos contra o Duende Verde que culminaram na morte da namorada de Peter, Gwen Stacy.


Tobey Maguire está perfeito como Peter Parker. Não poderiam ter escolhido um ator melhor, pois Maguire não é nenhum galã, mas não é nenhum "monstro do pântano", além de ser um ótimo ator. Ele expressa toda a densidade da personagem - consegue nos convencer de que é o Caxias rejeitado, o rapaz apaixonado, o sobrinho dedicado e o herói atrevido e bem-humorado, muitas vezes apenas com um único olhar. Ele não atua como Peter Parker, ele é Peter Parker.


Kirsten Dunst também está maravilhosa como Mary Jane. Embora na revista original ela não seja a primeira namorada de Peter (antes dela vieram Betty Brant e Gwen Stacy), é a escolha ideal para ser o par romântico do Aranha nas telas. Mary Jane é tão complexa e interessante quanto Parker: se por um lado é a garota mais popular da escola, sonha em ser atriz e está sempre pronta para um agito, por outro é uma garota carente e infeliz, fruto de um lar desestruturado. Sem falar no seu anterior envolvimento amoroso com Harry, que acrescenta um tempero mais dramático à trama. Tudo isso foi transposto de forma incrível para o filme, e Dunst caiu como uma luva para o papel.


A representação do Duende Verde feita por Willem Dafoe também merece elogios, assim como a retratação da personagem como um portador de distúrbio de dupla personalidade (Norman/Duende); ao mesmo tempo, essas personalidades se antagonizam e se completam. A armadura do Duende, dado o contexto como é apresentada no filme, é até aceitável, embora a máscara e o capuz das HQs tornem o vilão bem mais sinistro.


As cenas de ação parecem uma revista em movimento e são de tirar o fôlego. E talvez a sorte do aracnídeo tenha sido justamente aquilo que durante muito tempo acreditava-se ser sua maldição, pois se não fossem os rolos judiciais que atrasaram o projeto, o filme do Aranha não poderia ter acesso à tecnologia que na época já  permitiu que as cenas do herói entre os prédios de Nova York parecessem tão convincentes.


Para os fãs de HQs também foi emocionante ver personagens secundárias como Flash Thompson, Betty Brant, Joe Robertson, e principalmente J. Jonah Jamenson (que parecia decalcado diretamente das revistas) no filme. Entretanto, o que custava manter o nome original do lutador que Peter enfrenta, o Crusher Hogan, que no filme é chamado de "Serra Ossos" Shaw?


Mas para não dizer que só elogiei o filme, é claro que houve certos aspectos que me desagradaram. Primeiro, aquela história meio Darth Vader do Duende - "Oh Aranha, junte-se a mim, pense no que poderíamos fazer juntos"... Por favor... Ele ainda nem sabia que o Aranha era Peter, o rapaz que ele considerava quase como um filho. Perdeu uma excelente oportunidade de se livrar do herói que lhe incomodava.


Outra foi a cena em que o Duende, agora já sabendo que Peter Parker e o Homem-Aranha são a mesma pessoa, ataca a Tia May, enquanto ela reza. Foi uma cena extremamente forçada e artificial. Olhem só que coisa "tosca": Tia May está rezando o "Pai Nosso", e quando chega no trecho "livrai-nos do mal", o Duende aparece, estourando o quarto dela, e grita "continue!" Então Tia May berra: "do maaaaaaaal!" Se o roteirista queria tornar a cena mais dramática, o que consegue mesmo é nos deixar constrangido com esse disparate. Aliás, que vilão mais frouxo! Só vai lá, assusta a velhinha, não faz mais nada e vai embora. Perdeu outra oportunidade de ouro de destruir o herói, caso tivesse matado Tia May.


A declaração de amor de M.J. para Peter também deixou a desejar. Não que seja difícil acreditar que ela seja apaixonada por ele, isso é óbvio desde o início do filme, menos para ela. A questão é que a declaração em si soou artificial, diretamente extraída das páginas de um exemplar de Sabrina. Poderia ter sido mais natural sem deixar de ser apaixonada. E para completar, não dá para deixar de citar a dispensável participação especial de Macy Gray, que participa da trilha sonora do filme: digna de Carlinhos Brown em Velocidade Máxima 2 e Caetano Veloso em Orfeu.

Mas apesar dos pesares, o Homem-Aranha ganhou uma adaptação cinematográfica que só pode ser descrita em uma única palavra: AMAZING!

O ápice da trilogia, sem sombra de dúvidas, é o segundo filme, com uma trama mais complexa que a do primeiro, cenas de ação mescladas com momentos de puro terror como o acidente que criou o Dr. Octopus, e uma das cenas mais emocionantes de uma adaptação de quadrinhos, quando Peter tenta parar o metrô e exaurido de cansaço, desmaia, sendo protegido pelos ocupantes do metrô.


Uma pena que no terceiro filme todos os ganhos dos anteriores se percam em um roteiro confuso, mal-amarrado, e personagens de tanto potencial como Mary Jane se esvaziem, o mesmo acontecendo com o próprio Peter, desdenhosamente chamado por todos nós de"Emo-Aranha"nessa última parte de uma franquia que tinha tanto potencial para se encerrar de forma épica.


Agora só nos resta saber se Andrew Garfield fará jus a Tobey Maguire, se O Espetacular Homem-Aranha será um filme digno de nota ou uma decepção para os fãs dos quadrinhos e do filme original.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Spiderman versus Superman









Nos últimos anos, uma avalanche de adaptações cinematográficas baseadas em histórias em quadrinhos vem invadindo as salas de projeção de todo o mundo. Algumas com mais sucesso e mais competência que outras. Dentre esses grandes sucessos, podemos destacar os filmes protagonizados pelo Homem-Aranha: o primeiro, de 2002, e sua continuação, de 2004 (o terceiro não conta aqui por ser considerado quase por unanimidade uma desastre cinematográfico).




Aproveitando a deixa da nova versão que estréia na próxima sexta-feira, voltamos no tempo para rever alguns pontos interessantes desses  filmes.




Não querendo desmerecer os filmes dirigidos por Sam Raimi (Evil Dead), que podem ser considerados duas das melhores adaptações de super-heróis para a tela grande, após uma análise mais acurada pode-se perceber que existem muitas similaridades estruturais entre os dois filmes estrelados pelo amigo da vizinhança e os dois primeiros filmes estrelados pelo Superman.


Talvez seja um pouco estranho para os não-fãs de quadrinhos comparar o Superman e o Homem-Aranha. Aparentemente, ambos teriam muito pouco em comum, além do fato de serem os principais heróis de suas respectivas editoras - a DC e a Marvel Comics.


Mas as semelhanças entre eles são bem maiores do que imaginamos. Ambos trabalham na imprensa: Peter Parker no "Clarim Diário" (embora nas histórias recentes ele tenha se tornado professor) e Clark Kent no "Planeta Diário". Suas famílias (os pais de Clark e os tios de Peter) têm uma influência muito forte na vida dos super-heróis. Além disso, suas amadas, Lois Lane e Mary Jane, além de possuírem personalidade forte, também exercem um papel extremamente significativo na história desses heróis.


É claro que em termos de personalidade Peter Parker/Homem-Aranha e Clark Kent/Superman são bastante diferentes. Quando pensamos no aracnídeo, sempre nos vem à cabeça a imagem daquele herói descolado e engraçado, mas ao mesmo tempo cheio de problemas, conflitos e insegurança. Já o Superman nos passa a sensação de uma imponência e infalibilidade quase infinitas - apesar de os roteiristas das aventuras do Homem de Aço tentarem, nos últimos tempos, amenizar essas características.


Contudo, as semelhanças entre os filmes do Aranha e os filmes do Superman não estão calcadas nas similaridades das personagens que eu acabei de apontar, mas sim em uma estruturação narrativa “de fundo” que guia as histórias dos filmes.


Dirigido por Richard Donner e lançado em 1978, o primeiro filme do Superman foi um marco nas adaptações de quadrinhos de super-heróis e é considerado por muitos como um dos melhores filmes do gênero. A este filme se seguiram outras três continuações, sendo que apenas a segunda merece algum destaque em termos de qualidade.


Tanto em Superman (1978) quanto em Homem-Aranha(2002), somos inicialmente apresentados aos heróis durante sua adolescência, fase de mudanças e descobertas. Nem Peter nem Clark são necessariamente os “caras mais populares do pedaço”, muito pelo contrário, são os “esquisitões” e tudo o que querem é achar seu lugar no mundo e conquistar o coração da garota mais bonita da escola (Lana Lang, no caso de Clark, e Mary Jane, no caso de Peter). A origem dos poderes desses heróis também é mostrada: a herança alienígena do Superman e a picada da aranha geneticamente alterada no Homem-Aranha. A perda trágica da figura paterna (o pai adotivo de Clark em um ataque cardíaco, e a morte do tio de Peter em um assalto) marca tanto a saída das personagens da casa em que cresceram como a passagem para a vida adulta. A transição das descobertas dos poderes até a aceitação deles como uma ferramenta em prol da humanidade seria o mote principal de ambos os filmes. 


Outro ponto em comum nas películas é o papel de destaque dos interesses românticos dos heróis, Lois Lane e Mary Jane, assim como a impossibilidade da realização do amor entre os heróis e suas respectivas amadas.


Algumas cenas específicas também fazem uma aproximação entre as obras:


(1) a cena em que o Superman salva Lois, que cai de um prédio, em paralelo com a seqüência em que o Homem-Aranha salva MJ, que também cai de um prédio após um ataque do Duende Verde;


(2) o passeio romântico do herói e da mocinha pela cidade - voando, no caso do Superman e Lois, ou se balançando de prédio em prédio, no caso de Mary Jane e do Homem-Aranha.

Em Homem-Aranha 2 (2004) as similaridades comSuperman 2 (1980) também estão presentes. Em linhas bastante gerais, as histórias de ambos os filmes podem ser resumidas do seguinte modo: o personagem principal, já estabelecido em seu papel de super-herói, começa a perceber que seus poderes podem não ser necessariamente uma benção, mas talvez uma maldição que o afasta daquela que mais ama. Portanto, ele decide abrir mão desses poderes para viver ao lado de seu amor. Entretanto, uma grande ameaça surge, fazendo com que o herói perceba que não pode fugir da responsabilidade que seus poderes lhe conferem e decida retomar seu papel de super-herói.





Em Superman 2, Clark decide ficar com Lois e se tornar um homem comum perdendo seus poderes graças a um artefato kriptoniano. A ameaça que faz com que ele decida se tornar novamente um herói são três criminosos de Kripton, inimigos de seu pai biológico, que se soltaram de uma prisão conhecida como Zona Fantasma e agora ameaçam a Terra. Em Homem-Aranha 2, Peter decide largar o manto de Homem-Aranha devido a uma série de fatores (inclusive a perda de seus poderes, causada por uma espécie de bloqueio psíquico), aproveitando a oportunidade para reconquistar o amor de sua vida, Mary Jane. Mas antes que isso seja possível, Peter reconhece que deve voltar a ser o Homem-Aranha para defender a cidade de Nova York da ameaça do Doutor Octopus.

Contudo, o desfecho romântico das histórias é completamente distinto, pois em Superman 2 Clark decide abrir mão de seu amor por Lois, mas não deixa que ela realmente decida o que quer. Já em Homem-Aranha, embora Peter também abdique de viver ao lado de MJ, a decisão final cabe a ela.


Também é digno de nota que, embora os filmes do Superman e do Aranha tenham uma estrutura bastante semelhante, ainda assim eles são diferentes entre si em aspectos de ritmo, tom e situações secundárias, afinal refletem tanto aspectos únicos das personalidades dos heróis mostrados na tela quanto o período em que foram realizados.


Não digo que os realizadores do Homem-Aranha tenham construído de forma consciente essas semelhanças entre as histórias de seus filmes e as dos dois primeiros filmes do Superman. E ainda que o tenham feito, de modo algum isso diminui as grandes qualidades dos filmes do amigão da vizinhança. Só acho que, como essas semelhanças existem, não poderia deixar de apontá-las, nem que seja como curiosidade.


Aliás, falando como nerd apaixonada, depois de ler tudo isso o que eu realmente recomendaria era que vocês aproveitassem a deixa e alugassem Superman 1 e 2,Homem-Aranha 1 e 2e depois dessem uma esticadinha no cinema para conferir O espetacular Homem-Aranha. Essa sim é uma idéia bastante divertida.