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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Um pouquinho do Japão...


O Catador de Batatas e o Filho da Costureira ou O Filho da Costureira e o Catador de Batatas.

Lançado pela JBC para comemorar os 100 anos da Imigração Japonesa e realizado pelo desenhista Bruno D’Angelo e pelo roteirista Ricardo Giassetti, “O Catador de Batatas e o Filho da Costureira ou O Filho da Costureira e o Catador de Batatas”.
conta a história de Ikemoto, um imigrante japonês, e Isidoro, um descendente de escravos:

O Catador de Batatas
IKEMOTO está em fuga de seu próprio passado. Sua família e toda a classe samurai se viu esquecida após a Reforma Meiji. Sem posses e sem futuro, Ikemoto vê o Brasil como um refúgio distante para curar as mágoas de seu passado. Veterano da guerra russo-japonesa (1904-05), foi prisioneiro de guerra no navio Kazan, agora de posse da frota japonesa sob o nome Kasato Maru.

O Filho da Costureira
ISIDORO não conheceu nem sua mãe nem seu pai. Foi criado por Dona Nâna, costureira de grande coração que acolhe crianças rejeitadas. Vivendo como colonos em uma fazenda de café, Isidoro destaca-se como um garoto esforçado e inteligente, o que o faz ser uma figura deslocada nesse ambiente rústico. Sem muitas perspectivas devido ao preconceito racial, Isidoro e Ikemoto acabam unindo forças e compartilhando problemas que os encaminham para um destino comum: a fuga para uma nova vida, com novos desafios e conquistas. 
(extraído do site da JBC)


A idéia da revista é sensacional. O título duplo é justificável porque na realidade são duas revistas em uma. Lendo-se da esquerda para a direita (o modo ocidental de se ler) vemos os fatos da perspectiva de Isidoro com os textos em português e legendas em japonês no rodapé; da direita para esquerda, a história de Ikemoto é contada no modo oriental de se ler, em japonês com notas em português.

As duas histórias convergem para um único final que se encontra no meio da revista, o que parece intencionalmente ser uma metáfora para os encontros das histórias e culturas que tornaram o Brasil o que ele é.


Contudo, apesar da premissa criativa e interessante, o resultado final é um pouco desanimador. 

Para começar, o resumo do site da JBC que eu coloquei aqui explica muito mais a história que o texto original. Quando nós lemos as trajetórias de Isidoro e Ikemoto, muitos fatos ficam obscuros ou são pouco explicados e explicitados. Muitas vezes me peguei perguntado sobre o que exatamente aconteceu, como se imensas lacunas tivessem sido deixadas no decorrer da narrativa.

Na realidade, essas lacunas realmente existem, vários fatos são mencionados porém não mostrados, como o modo pelo qual Ikemoto ajudou uma família de imigrantes com o racionamento de alguns alimentos (eu acho...). Aliás, não se sabe porque o menino da família auxiliada por Ikemoto deduz que o ex-militar era um catador de batatas, apesar de nunca ter sido um.

A suposta amizade entre Isidoro e Ikemoto é mal desenvolvida, e não se entende porque no fim das contas eles decidem se juntar e partir juntos do povoado que habitam. Parece algo completamente “deus ex machina” a amizade e aliança formada entre os dois.

Os desenhos deixam um pouco a desejar, muitas das cenas parecem  esboços de croqui, se tornando tão confusos quanto a história.

Uma pena, pois os personagens são potencialmente interessantes e a ideia para uma homenagem a dois povos que tanto contribuíram para a formação do Brasil era genial. 

Vale ler apenas como uma curiosidade... lamentando-se que o resultado final fique tão aquém do desejado.


Minhas Imagens do Japão


Em compensação, a editora CosacNaify publicou um tempo atrás  Minhas imagens do Japão, com texto e ilustrações de Etsuko Watanabe, traduzido por Cássia Silveira.

A autora traz aos leitores o dia a dia da pequena Yumi e de seu irmão caçula Takeshi em seu dia a dia no Japão.


Ela descreve todo o dia a dia daquelas crianças, a casa, o quarto de dormir, os apetrechos para se ir na escola, as refeições, a comida, a higiene pessoal, até mesmo o banho público. Assim como os festivais anuais e as tradições...

Tudo de um modo tão suave, inocente e natural que é nos é impossível não adentrarmos naquela cultura com olhos de aceitação, curiosidade e interesse.



Sei que usualmente não gosto de fazer isso, preferindo escrever minhas próprias observações, mas, encontrei uma resenha tão perfeita sobre esse livro que achei válido reproduzi-la aqui:

“Mais que uma crônica da vida urbana no Japão contemporâneo, esse livrinho guarda a chave para compreendermos um fato muitas vezes esquecido: que, apesar das diferenças, somos todos, essencialmente, seres humanos. Não é pouco. 

Quando os meios de comunicação e a Internet nos bombardeiam com toneladas de informações superficiais ou inúteis - em que podemos vislumbrar, quase sempre, generalizações injustas e perigosas -, as diferenças culturais passam mais a afastar do que aproximar as pessoas, transformando o outro, o estranho, no rival, no inimigo. 

Como vive uma menina de sete anos no Japão? Nesse lugar tão longínquo - não apenas em termos geográficos -, o que há de diferente e de semelhante em relação a nós? 

Para responder a essa pergunta, Etsuko Watanabe nos apresenta o Japão e seu povo: os utensílios do cotidiano, os objetos escolares, a vida em família. E como a mesa é posta, quais as vestimentas do dia-a-dia, algumas brincadeiras - as minúcias, enfim, que constroem uma civilização. Conhecemos também as palavras, com seus sons inesperados, às vezes surpreendentes, donas de uma eufonia para a qual precisamos reeducar nossos ouvidos. 

A beleza do estranho nos assalta em inúmeros trechos da obra. A autora, formada pela Musashino Art University e com mais de sete livros infantis publicados, não despreza sequer os aspectos da intimidade. A importância da hora do banho, os vasos sanitários - curiosos e eficazes - e os banhos públicos - uma característica dessa cultura que não submeteu a nudez humana ao arbítrio da absoluta privacidade: todo o engenho do conforto e da higiene de uma civilização está resumido nesse livrinho. 

De repente, percebemos que não estamos distantes do Japão dos samurais, e é como se pudéssemos vislumbrar, sob cada gesto - principalmente sob os hábitos e a disciplina escolares -, o código de honra desses antigos guerreiros. 

Nada é esquecido: das brincadeiras infantis às superstições, à busca da sorte e da ajuda dos deuses; as lendas e os costumes; as crenças pueris do povo e as festas que as materializam, comemorações que são marcos da passagem do tempo, cujas alegrias podem conceder uma nova força à vida banal, fragmentada entre o trabalho e as poucas horas de descanso. 

Introdução a um mundo diverso do nosso, a obra de Watanabe oferece possibilidades quase infinitas de se trabalhar com as crianças, não só para diverti-las, mas também para mostrar como as diferenças, se quisermos, podem mais unir do que separar as pessoas. Sob o olhar imparcial de uma menina capaz de se encantar com as menores coisas, Minhas imagens do Japão descreve um povo cujas tradições e história engrandecem a espécie humana”. 

(por Rodrigo Gurgel – “A beleza do diferente” em http://educacao.uol.com.br/resenhas/imagens-japao.jhtm)

Enfim, apesar de ser um livro infantil, é uma leitura indicada para qualquer que seja a sua idade. 

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O moderno Robin Hood



Para quem curte Arrow e quer conhecer um pouco mais sobre o personagem nos quadrinhos, nos debruçamos sobre a aclamada minissérie do Arqueiro Verde, escrita por Kevin Smith, figurinha carimbada do público cinematográfico (dirigiu, entre outros, Dogma e Procura-se Amy), e também nos quadrinhos com seu fenomenal arco de histórias estrelado pelo Demolidor e a minissérie Cacofonia, do Batman.

Kevin Smith - que também pode ser chamado de "homem bombril", pois tem mil e uma utilidades, embora ultimamente tenha errado um pouco a mão nos filmes - trouxe de volta dos mortos o Arqueiro Verde original e transformou o seu título em um dos mais vendidos no período de lançamento. Antes de analisarmos a série escrita por Smith, vale a pena darmos uma retrospectiva na personagem.

A origem clássica do Arqueiro comumente aceita é a de que o milionário entediado Oliver Queen um dia caiu de seu iate durante uma viagem e ficou preso em uma ilha, dependendo de um rústico arco para sobreviver. Depois de certo tempo, pessoas estranhas chegaram nessa mesma ilha. Queen, descobrindo que elas na verdade eram traficantes de drogas, consegue prende-las, sendo depois resgatado pela guarda costeira. Ao voltar à civilização, vestido de Robin Hood, salva de um assalto os participantes de uma festa à fantasia. Após esse evento, associado com a grande crítica social que desenvolveu em seu exílio forçado, resolve se tornar um herói. Depois de um tempo, adota o jovem Roy Harper (atual Arsenal) e transforma-o em seu parceiro.


O Arqueiro Verde, como a maioria das personagens da DC, é originário da Era de Ouro. Criado em 1941 por Mort Weisinger (roteiro) e George Papp (desenho), era publicado inicialmente na revista More Fun Comics. O Arqueiro nada mais era, nessa época, que uma versão do Batman vestida de Robin Hood. Como ele, tinha um parceiro mirim Ricardito (Speedy), além de outros apetrechos similares aos que Batman usava nessa época, como um carro-flecha, um flechacóptero e até mesmo (em alguns números) habitava numa caverna. Suas flechas de mil e uma utilidades nos remetiam aos badulaques do cinto do Homem-Morcego. Como Bruce Wayne, Oliver também era um milionário. Mas, apesar de ser praticamente um xerox do Batman, fazia um relativo sucesso no período.



Foi nos anos 70 que as coisas realmente começaram a mudar para a personagem. Em uma de suas melhores e mais badaladas fases (desenhado por Neal Adams, responsável também pelo cavanhaque que se tornou marca característica de Ollie), ele se juntou ao Lanterna Verde/Hal Jordan e à sua amada Canário Negro para uma road trippin' através dos Estados Unidos, na qual enfrentavam traficantes e lidavam de frente com questões sociais, algumas relativamente polêmicas para a época. Vale ressaltar também que, nesse período, seu ex-pupilo Ricardito tornou-se viciado em heroína - tal história mostrou-se revolucionária quando de sua publicação.

Outra obra de destaque lançada com a personagem foi a minissérie Caçadores, publicada aqui pela Abril. Nela, temos um Oliver Queen mais envelhecido, não mais um milionário, residindo em Seattle (sua base original de operações era Star City, e durante um tempo atuou em Boston) com Dinah Lance, a Canário Negro. O tom é pesado (nessa série, Canário foi torturada e violentada por traficantes), mais próximo do estilo Vertigo que dos quadrinhos de heróis tradicionais.

Após a morte de Queen em uma explosão, seu filho Connor Hawke assume seu manto mas, não tendo a mesma empatia do pai, não chega a fazer muito sucesso. É aí que entrou Kevin Smith e sua série. Nela, Oliver Queen aparece desmemoriado em sua cidade natal, Star City. Após salvar a vida de Stanley, um velho milionário excêntrico, este passa a ajuda-lo para que volte a combater o crime. Entretanto, nada é o que parece.

Se os desenhos de Phillip Hester causam estranhamento nos fãs de estilo mais clássico, o roteiro e os diálogos de Smith empolgam. Mais experiente e menos prolixo que no Demolidor, ele mostra aqui porque era apontado, na época, como um dos mais proeminentes roteiristas do momento. Sendo um fã e respeitando a inteligência dos demais fãs, Kevin não só tentou amarrar toda a cronologia da personagem, como também buscou nos seus momentos mais gloriosos (artisticamente falando) a inspiração para o seu retorno. Falar demais vai estragar a surpresa da história de quem ainda, depois de todos esses anos ainda não leu a série, mas só para dar uma canja, já no primeiro número algumas importantes pistas são lançadas sobre quem está envolvido no retorno de Queen.

Outra façanha de Smith foi construir a história do retorno do Arqueiro ao mundo dos vivos de um modo original e sem parecer estúpido, como as milhares de ressurreições ocorridas na Marvel (que já viraram motivo de chacota para os fãs) ou o esdrúxulo retorno do Super-Homem. E mais um aspecto fascinante da história é essa amnésia de Queen. Oliver é um cara preso ao passado, aproximadamente nos anos 80, e é hilariante ver sua inaptidão com a tecnologia de nossos dias.

Depois que Kevin Smith encerrou com sucesso sua participação no título, Brad Meltzer, autor de livros de grande sucesso nos Estados Unidos, assumiu a publicação, e também estar alcançou um bom êxito com a personagem.

Sem sombra de dúvidas, essa série é recomendável para todos aqueles que gostam de quadrinhos, mesmo não sendo fãs do Arqueiro.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Nem todos os anjos pertencem ao Céu




Estrada para Perdição foi publicada em 1998 pela DC Comics, através do selo Paradox Press, e seu autor é Max Allan Collins. Além de escritor de quadrinhos, Collins é autor de diversas histórias de detetive, tendo inclusive ganhado duas vezes o Prêmio Shamus de Escritores de Histórias de Detetive por seus romances True Detective e Stolen Away. A arte ficou a cargo do talentoso e também premiado ilustrador Richard Piers Rayner, que já trabalhou nas seguintes publicações: Hellblazer, Monstro do Pântano, L.E.G.I.Ã.O. e Doutor Destino. Aqui no Brasil a graphic novel foi publicada pela editora Via Lettera, em três edições encadernadas. 

O espaço entre a concepção da história e sua publicação foi de aproximadamente cinco anos. Todo esse tempo se deveu principalmente ao trabalho do ilustrador, que demorou em média seis meses para ilustrar cerca 25 a 30 páginas (num total de mais de 300). Mas toda essa demora valeu a pena, pois tanto o trabalho de Collins no roteiro quanto o de Rayner nas ilustrações são magníficos, refletindo a extensa pesquisa de que são frutos. A obra pode ser considerada como uma das mais detalhadas, fidedignas e realistas reconstituições dos anos 30. 

Sam Mendes (Beleza Americana, Soldado Anônimo) dirigiu a versão cinemoatográfica estrelada por Tom Hanks, Jude Law e Paul Newman. 

Estrada para Perdição é um bom filme, com atuações impecáveis, direção de primeira, além de uma reconstituição de época primorosa (a história se passa nos anos 30). Talvez o grande porém seja o seu final, por demais óbvio ao espectador, o que pode gerar uma espécie de anticlímax para os mais críticos. 

A história do filme e da revista é mais ou menos a seguinte: Sullivan (Tom Hanks) é um assassino profissional que trabalha para Rooney (Paul Newman), gângster que controla a região das "Três Cidades" e é subordinado a Al Capone. Certa noite, o filho mais velho de Sullivan, Michael Jr. (Tyler Hoechlin), presencia um assassinato cometido por Connor, filho de Rooney. Connor resolve matar o menino, não apenas por este ter visto o crime, mas também por nutrir um certo sentimento de ciúmes contra Sullivan, já que o matador é alvo de afeto especial por parte de Rooney, que o considera como um filho. Entretanto, Connor acaba matando por engano o filho mais novo e a esposa de Sullivan, que acaba fugindo com o filho mais velho, Michael. Juntos, pai e filho percorrem, literal e metaforicamente, uma estrada para Perdição - o nome de uma cidade onde Sullivan pretende esconder Michael. Além de tudo, ele ainda busca vingança pela morte de sua família. 

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Como em qualquer adaptação, existem diferenças substanciais entre a graphic novel e o filme. Primeiramente, é possível apontar certas diferenças de nomes. Na revista, Michael Sullivan é chamado de Michael O´Sullivan e recebe a alcunha de Anjo da Morte (the Archangel of Death, no original), nem ao menos citada no filme. Já Mr. Rooney, nos quadrinhos, é chamado de Looney, um personagem real. Além disso, o tempo que O´Sullivan e seu filho passam na estrada também é diferente. No filme, são gastas seis semanas para se chegar à Perdição, enquanto na revista são necessários seis meses. 

Se no cinema temos a presença de Frank Nitti, um dos mais proeminentes auxiliares de Capone, na HQ, além dele, somos brindados também com a participação do famoso intocável Eliot Ness. No filme, Michael Junior escapa da morte por ter ficado de castigo depois da aula devido a uma briga, enquanto na revista ele havia saído para uma festa de aniversário. Também é fato digno de nota que tanto o início quanto o final da HQ são bastante diferentes do que vemos no filme. 



A mudança mais óbvia, no entanto, diz respeito à criação do excêntrico assassino de aluguel Harlen Maguire (Jude Law), em substituição às dezenas de gangsters que perseguem Sullivan e seu filho na história impressa. Mas a principal diferença entre as duas obras está no tom escolhido por seus realizadores para narrar a história. Ironicamente, a história em quadrinhos é muito mais movimentada que o filme, com diversas e elaboradas seqüências de ação e tiroteios - talvez uma espécie de reflexo da experiência de Collins em histórias policiais. Já o filme de Sam Mendes procura ser mais intimista, concentrando-se mais nos conflitos pessoais das personagens, especialmente nas relações entre pais e filhos, estabelecendo um paralelo entre Rooney/Connor e Sullivan/Michael Jr. De qualquer maneira, as diferenças apontadas não diminuem em nada as qualidades de ambas as obras.

Em relação à história em quadrinhos, não é possível deixar de assinalar a estreita relação de Estrada para Perdição com outra obra da arte seqüencial: Lobo Solitário

Criado por Kazuo Koike e Goseki Kojima e publicado no Japão na década de 70, Lobo Solitário conta a história de Ito Ogami, o executor oficial do Shogun que, acusado injustamente de traição, passa a vagar pelo Japão ao lado de seu filho Daigoro. Quem conhece a obra de Koike e Kojima reconhece imediatamente que Collins usou-a deliberadamente como fonte de inspiração para a sua história. Ele transpôs o Japão Feudal e seus rígidos códigos de honra para os anos da Lei Seca nos Estados Unidos: os clãs japoneses encontram correspondência nas famílias de mafiosos, e O´Sullivan faz as vezes de Ito Ogami, enquanto seu filho Michael ocupa o lugar de Daigoro. 

Assim como Ogami, O´Sullivan é um reconhecido e eficiente assassino a serviço de seu "senhor"; de repente, se vê caindo em desgraça, traído e perseguido por aqueles em quem um dia confiou, além de ter sua família assassinada no desenrolar dos acontecimentos. Resta-lhe apenas o filho como companheiro de travessia. 

O próprio título da HQ americana já é uma referência ao mangá. Quem já leu Lobo Solitário, mesmo em português, se lembra da escolha que Ito Ogami fez após a tragédia que se abateu sobre sua vida: ele escolheu seguir a trilha do assassino, um caminho de sangue e morte no qual não existe nenhuma misericórdia e que, no fim das contas, acaba o conduzindo ao meifumado, o inferno japonês. Nada muito diferente da escolha de O´Sullivan. Tanto ele quanto Ogami caminham para o inferno ou, em outras palavras, percorrem uma estrada para a perdição. 


Apesar de beber em fonte japonesa, Collins consegue construir uma obra marcante, de qualidade tão extraordinária quanto sua correspondente oriental. Mais que isso: consegue que seu trabalho seja apreciado por suas próprias qualidades, sem ser ofuscado ou reduzido pela sua inspiração. 

Collins escreveu duas outras continuações, em prosa, da história: Road to Purgatory (2004) e Road to Paradise (2005), contando a trajetória de Michael Jr. 

Em resumo, a graphic novel Estrada para Perdição pode ser considerada um dos mais formidáveis trabalhos de quadrinhos adultos realizados nos últimos anos. Merecer ser conferido, não apenas por quem gostou do filme ou é fã de Lobo Solitário, mas por todos aqueles que querem ler uma história empolgante, de qualidade, magnificamente escrita e ilustrada. 


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

O dia que o Homem sem Medo amarelou



Em geral, não sou muito fã do trabalho de Jeff Loeb nos quadrinhos, mas, quando ele se junta com Tim Sale, algo mágico parece acontecer, pois usualmente somos brindados com séries de excelente qualidade.  Uma das minhas séries favoritas é a trilogia das cores.

A primeira, que vou mencionar hoje, é o Demolidor Amarelo, lançado no Brasil pela Panini Comics.

Para quem não conhece a trajetória conjunta da dupla, eis o resumo:

Tim Sale e Jeff Loeb já trabalharam juntos em outras séries, como Batman Longo Dia das Bruxas e sua continuação Vitória Sombria, além da minissérie sobre o Homem de Aço intitulada As Quatro Estações. Claro, uma dobradinha na série de TV Heroes...


Assim como nas minisséries já citadas, Demolidor Amarelo trata dos primórdios da carreira de um herói, no caso, óbvio, o Demolidor. Entretanto, a série não tem como proposta recontar a origem do herói, mas sim abordar certos aspectos dos seus primeiros anos de carreira como vigilante mascarado sob uma nova perspectiva, do mesmo modo como foi feito com Batman e Super-Homem em suas respectivas séries.


Para quem não conhece o Demolidor ou teve pouco contato com o herói (assina logo a Netflix!), sua historia é mais ou menos a seguinte: o Demolidor, criado nos anos 60 por Stan Lee e originalmente desenhado por Wally Wood, tem um diferencial importante em relação à maioria dos outros heróis - ele é cego.

Não que um personagem cego fosse novidade no mundo dos quadrinhos: o doutor Meia-Noite (Doctor Midnight),  herói da Era de Ouro, era cego; entretanto, podia enxergar durante a noite com o auxilio de óculos especiais. Já Matt Murdock, o alter ego do Demolidor, não se utiliza desse tipo de artefato para lutar contra o crime. Na realidade, apesar de ser cego, ele "enxerga" as coisas ao seu redor através de uma espécie de radar, como o dos morcegos, além de ter todos os outros sentidos ampliados devido a um produto químico que atingiu seu rosto enquanto tentava salvar um velho cego de ser atropelado.

Matt foi criado pelo pai, um boxeador chamado Jack Murdock, homem desejoso de que seu filho se tornasse "alguém importante, não um lutador" como ele. Obedecendo aos desejos do pai, Matt se formou em direito, mas treinava boxe escondido. Tudo ia bem até que seu pai foi assassinado e ele resolveu assumir a identidade do Demolidor.


Apesar de ser um herói do segundo escalão da Marvel, não tão popular quanto o Homem-Aranha e os X-Men por exemplo, ele é um dos personagens mais importantes da editora. Talvez exatamente por ser do segundo escalão ele pôde alcançar essa importância. Afinal de contas, com o Demolidor foi possível fazer um tratamento mais adulto de um super-herói, especialmente durante a fase escrita por Frank Miller, o que acabaria por repercutir nas histórias mais comerciais, ou na fase escrita por Brian Michael Bendis, desenhada magnificamente por Alex Maleev.

(Para quem não leu os quadrinhos e apenas viu o seriado do Netflix, vai rolar spoilers)

Durante a fase de Miller, não apenas somos apresentados a novas e importantes personagens como a ninja Elektra, ex-paixão do herói, ou a irmã Maggie, que na realidade é a mãe de Matt que ele acreditava estar morta. Também estão presentes temas polêmicos, como prostituição e drogas, principalmente através da figura de Karen Page - que já tinha sido secretária no escritório de advocacia de Matt e seu amigo Foggy Nelson, além de namorada do herói. Karen havia largado o emprego de secretária para tentar a carreira de atriz, mas acabou de tornando atriz pornô, prostituta e usuária de drogas.



Outra fase de destaque foi feita pelo cineasta Kevin Smith,que escreveu um consagrado arco de histórias para a personagem, homenageando a fase de Miller no qual Karen Page, já "regenerada", acaba sendo assassinada por um dos inimigos do Demolidor, o Mercenário. É exatamente neste ponto que a minissérie de Loeb e Sale se inicia: o Demolidor de agora começa a história escrevendo uma carta para a sua amada e falecida Karen. Aparentemente, a situação atual está intolerável e "conversar com Karen, ao mesmo tempo fazendo uma retrospectiva do seu começo de carreira, quando ainda usava o uniforme amarelo, foi a melhor solução que encontrou". Portanto, em Demolidor Amarelo temos um homem maduro relembrando uma época aparentemente mais feliz e inocente.

Assim como nos outros trabalhos dos autores, a arte nos remete à época em que o herói surgiu pela primeira vez, principalmente pelos figurinos e cortes de cabelo - Batman e Super-Homem aos anos 30 e 40, e Demolidor aos anos 60. O traço de Sale é bastante expressivo e a colorização da minissérie, toda pintada, é um show à parte. Também o texto de Loeb, seja nos trechos das cartas ou seja nos diálogos, é cativante, aproximando-nos fortemente dos aspectos humanos do herói, provocando-nos uma identificação com ele.

Mais uma vez essa dupla não nos decepciona, proporcionando aos leitores uma obra fenomenal, tanto do ponto de vista visual quanto literário. Junto com os trabalhos de Miller, Bendis e Smith, Demolidor Amarelo pode ser considerado como um dos melhores trabalhos já realizados com a personagem.

Além de Demolidor Amarelo, a dupla realizou para a Marvel a minissérie Homem-Aranha Azul (que ainda vou relembrar) e também Hulk Cinza (que infelizmente não li).

terça-feira, 5 de setembro de 2017

De volta aos anos 80

Momento nostalgia para quem foi criança nos idos de 80. 

Para quem não viveu esse periodo,   e só os conhece apenas de nome, de tanto ouvir de seu irmão/irmã mais velho, contar o quanto eram legais, preparei um pequeno guia sobre essas pérolas da animação. Mas se você era fã dessas séries, nada melhor que ler esta coluna  para matar a saudade.


He-Man e os Mestres do Universo

No mundo de Etérnia, o jovem príncipe Adam, filho do rei Randor e da rainha Marlena, é escolhido pela Feiticeira, guardiã de castelo de Greyskull, para se tornar o protetor e campeão do planeta. Empunhando uma espada mágica e proferindo as palavras "pelos poderes de Greyskull", ele se transforma no poderoso He-Man, o homem mais forte do Universo, e seu covarde amigo Pacato se transforma no Gato Guerreiro. Além da Feiticeira, só duas pessoas sabiam de seu segredo: o Mentor, cientista oficial do rei, e Gorpo, o mágico e atrapalhado bobo da corte. A filha adotiva de Mentor, Teela, que na realidade era filha da Feiticeira, era a chefe da guarda e interesse amoroso de Adam/He-Man. Todos eles e mais alguns aliados, juntos, combatiam as forças do mal que assolavam Etérnia, comandas pelo perverso Esqueleto, cujos principais subordinados eram a bruxa Maligna, o Homem-Fera, Mandíbula e Aquático.

O que pouco gente não sabe é que se não fosse o filme do Conan, He-Man nunca teria sido criado. Quando Conan ganhou sua versão cinematográfica, criou-se uma linha de brinquedos do filme para serem comercializadas depois de seu lançamento. Mas como o filme tinha conteúdos fortes e muita violência para o público infantil padrão da época, adaptaram os brinquedos e os lançaram com o nome de "Masters of Universe". As vendas iniciais foram relativamente boas, daí resolveram investir mais na linha de brinquedos e decidiram que a melhor maneira de promover o produto era criar um desenho baseado no mesmo. E foi assim que surgiu He-Man and the Masters of Universe.

Entretanto, o sucesso do desenho foi muito além das expectativas dos fabricantes das bugigangas. He-Manvirou uma coqueluche entre os pimpolhos dos anos 80, não só nos Estados Unidos como em outros países também, entre eles o Brasil. As personagens eram carismáticas e algumas histórias bastante interessantes (alguém se lembra daquele episódio em que Adam decide deixar de ser He-Man depois de aparentemente ter matado acidentalmente uma pessoa?), ingredientes perfeitos para o sucesso.
A animação original ficou a cargo do estúdio Filmation, responsável também pelas séries Brave Star e Caça-Fantasmas (que não era baseada no filme homônimo, mas em uma antiga serie de tv). 

Adepta da prática "poupar é preciso" e do processo de reciclagem muito antes de virar moda (reutilizando a mesma cena diversas vezes), a animação do estúdio deixava um pouco a desejar, mas em compensação a presença de grandes roteiristas como Paul Dini e J. Michael Stracinki (mais tarde famosos por seus trabalhos com Batman-Superman-Liga da Justiça e Homem-Aranha, respectivamente) era a garantia de algumas excelentes histórias. Bruce Timm, parceiro de Paul Dini no universo DC na TV, começou escrevendo as mini hqs que vinham com os bonecos.

O sucesso foi tanto que surgiu uma série derivada, She-Ra, a Princesa do Poder, estrelada pela desaparecida irmã gêmea de Adam, Adora. Ao brandir sua espada, ela se transformava em She-Ra e defendia o povo do planeta Etéria da terrível Horda do Mal. A fórmula era praticamente a mesma de He-Man, mas com um toque "girlie". 

Também foi feito aquele filme tenebroso estrelado pelo Dulph Lugren e pela Coutney Cox pré-Friends, que de parecido com o desenho só tinha mesmo o nome. No início dos anos 90, outra série animada foi feita, mas era tão ruim que nem passou da primeira temporada.


Outra série foi realizada em 2002. Co-produção coreana e americana, o este desenho do homem mais forte do universo não era uma continuação do original, mas uma releitura do mesmo. Todos os personagens originais estão lá, como um novo visual, mais condizente com os a epoca. Os traços das personagens são típicos das animações americanas, mas o estilo de animação é totalmente calcado no anime japonês. O primeiro episódio contou a até então inédita origem de He-Man. Adam foi transformado em um jovem franzino de uns 16/17 anos, enquanto He-Man é um homem mais velho, mais alto e musculoso (o que é ótimo, pois aquela coisa de He-Man e Adam terem a mesma cara e corpo só mudando a cor de pele e do cabelo conseguia ser pior que o lance dos óculos de Clark Kent/Super-Homem). Teela também é adolescente como Adam, e muito mais esquentada que sua encarnação anterior. As únicas coisas que realmente continuam as mesmas são o jeitão atrapalhado do Gorpo e as lições de moral no final das histórias. Além do desenho animado, essa nova versão do He-Man ganhou uma série de quadrinhos nos Estados Unidos.
 Infelizmente ela não caiu tão bem no gosto do publico e foi cancelada em 2004.


Volta e meia aparecem noticias sobre um novo filme do He Man sendo produzido pela Sony. Mas onde o personagem sobreviveu melhor foi na internet, com seus diversos mesmes, em especial os maravilhosos Conselhos do He Man.

Quem quiser matar saudades ou conhecer o seriado animado original, tem na grade do Netflix.





   
Thundercats: Co-produção japonesa e americana, Thundercatscontava as aventuras de um grupo de uma raça de guerreiros felinos humanóides no inóspito Terceiro Mundo. Sobreviventes do mundo de Thundera, o qual acreditavam que havia sido destruído por um cataclisma, os Thundercats fugiram em uma nave espacial procurando um novo lar. Quando a nave entrou em pane, Jaga, o mais velho dos Thundercats, obrigou os outros integrantes da equipe a entrarem em câmaras de êxtase e as lançou no planeta mais próximo, ficando para trás e perecendo com a nave. Entretanto, uma das câmaras, a que continha Lion-O, o filho do rei de Thundera e futuro líder por direito dos Thundercats, falhou e quando todos acordaram Lion-O já era um homem feito.

Os Thundercats eram: Panthro, o engenheiro de plantão, cuja arma era um nunchako; Tygra, o arquiteto do grupo que manejava uma boleadeira chicote; Cheetara, a única fêmea adulta sobrevivente, que além da supervelocidade possuía um cajado como arma; e os pirralhos Wily-Katt e Wily-Kitt. É claro que não podemos nos esquecer de Snarf, ser de uma raça distinta e que era babá de Lion-O desde criança.

Lion-O possuía a Espada Justiceira, que só podia ser empunhada por membros da família real de Thundera. A Espada podia dar a ele a "visão além do alcance" e também convocar os outros Thundercats ao emitir um "thunder-sinal" no céu depois que Lion-O gritava "Thunder, thunder, Thundercats. Roooow!!!!".

Perdidos num planeta estranho, eles tentaram se adaptar construindo um lar: a famosa Toca dos Gatos, projetada por Tygra e Panthro. Conheceram muitos aliados e amigos no novo planeta, mas também fizeram um grande inimigo, Mumm-Ra, o antigo mal que dominava o Terceiro Mundo, despertado após a chegada dos felinos. Mumm-Ra tinha duas formas distintas: aparecia ora como uma múmia decrépita, fraca e nojenta, ora como uma múmia poderosa, forte e ainda mais nojenta. E para piorar a situação de nossos heróis, seus antigos inimigos, os Mutantes Escamosos Chacal, Simiano e Abutre, também foram parar no planeta e se aliaram a Mumm-Ra.

Na primeira temporada, Lion-O está aprendendo a ser o líder dos Thundercats e é auxiliado pelo fantasma de Jaga. Depois que Lion-O consegue adquirir experiência, o espírito de Jaga parte para o descanso eterno. Em compensação, três novos Thundercats e Snarfinho, sobrinho de Snarf, acabam aportando no planeta e se juntando ao grupo. Também surgem novos vilões, os Lunataks.
Depois de um tempo, nossos heróis descobrem que Thundera não explodiu, se mantém intacta graças a um aparato mecânico. Parte do grupo parte para seu planeta natal, com o intuito de reerguê-lo e fundar o reino de Nova Thundera, enquanto a outra metade permanece no Terceiro Mundo.

Na época em que passava, a série foi tão famosa quanto He-Man e apesar de se inspirar em outras produções famosas como Superman (sobreviventes de um planeta moribundo, além da semelhança entre o metal thundrillium e a kriptonita), Batman (o Bat-sinal e o "Thunder-sinal") eStar Wars (o fantasma de Jaga como mentor de Lion-O do mesmo modo como o fantasma de Ben Kenobi era mentor de Luke), possuía algumas histórias interessantes e criativas comparadas com as de outras produções do período.


A franquia foi retomada nos quadrinhos. Publicada pela Image Comics, com capas de J. Scott Campbell (Gen 13, Danger Girl), a história começa exatamente do ponto em que o desenho animado terminou, com nossos heróis em Nova Thundera. Entretanto, o retorno do vingativo Mumm-Ra vai tornar ainda mais difícil o trabalho de nossos heróis de reconstruírem seu planeta.  A Panini publicou parte dessas revistas aqui no Brasil.




Em 2011 foi lançada uma nova série criada pela parceria entre a Warner Bros e o Studio 4° C do Japão.

Nela, Lion O é o herdeiro de um reino de felinos com características medievais, embora alguns aterfatos de alta tecnologia estivessem espalhados pelo terceiro mundo. 

Depois que seu reino foi atacado pelos acólitos de Mumm-Ra, ele, sei irmão Tygra, juntamente com Cheetara, o General Panthro, e os irmãos Willykat e Willykit, tentam descobrir um modo de derrotar Mumm-Ra com a ajuda do misterioso  Livro dos Presságios e recuperar o reino.

Apesar de ter um início empolgante e promissor, a qualidade e a audiência da série foram caindo, e, ela foi encerrada com apenas 26 episódios.


quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Oficina Gratuita Criação de personagens para narrativa visual


No dia 08 de outubro, estarei ministrando oficina gratuita no Circuito das letras.

DIA 08 DE OUTUBRO, SÁBADO

14h - Criação de personagens para narrativa visual

Local: Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa (Sala de Cursos do Anexo Prof. Francisco Iglésias)

A criação de personagens é parte importante do desenvolvimento de um projeto. Seja
para quadrinhos, animação, live action, games ou ilustração. Com o apoio da Casa dos Quadrinhos, a proposta dessa oficina é nos debruçarmos em aspectos que podem tornar um personagem mais interessante visual e psicologicamente, através de exercícios como criação de fichas dos personagens; estudos de concepts; expressões faciais e corporais.

Vagas: 20
Informações e inscrições: 3269-1232




Carol Cunha  - É ilustradora, quadrinista e animadora. Formada em Cinema de Animação pela UFMG em 2015, onde realizou o curta Romance Zumbi. É professora de Roteiro, Narrativa e História em Quadrinhos na Escola Técnica de Artes Visuais Casa dos Quadrinhos. Já colaborou para sites de quadrinhos e cinema como Terra Zero, Cinema em Cena e Lady’s Comics. Alguns dos seus quadrinhos autorais publicados são História de Amor (2013), Dandelion (2015) e a história Valenti@ para a Coletânea da Campanha "Que Diferença faz" (2015).

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Morte - A Festa




Nos idos dos anos 80, três escritores praticamente revolucionaram as histórias dos quadrinhos comerciais americanos: o americano Frank Miller e os ingleses Alan Moore e Neil Gaiman. O primeiro, em seu trabalhos para a Marvel com o Demolidor e para a DC com o Batman, mostrou que quadrinhos de super-heróis podem ser sombrios, instigantes, polêmicos e inteligentes, indo muito além do típico conflito entre mocinhos e bandidos. Moore escreveu obras marcantes como V de Vingança, Miracleman, e talvez a melhor obra jamais escrita nos quadrinhos, Watchmen, que tinha como premissa básica a idéia de como seria o mundo real se os heróis realmente existissem. Mas foi com o Monstro do Pântano (para a DC Comics) que ele revitalizou o gênero do terror, criou uma das mais carismáticas personagens dos quadrinhos, John Constantine, e plantou as sementes para a linha de quadrinhos de adultos da DC. 

De igual importância neste aspecto, está o trabalho de Neil Gaiman e seu Sandman. Graças a Moore e Gaiman, os grandes estúdios descobriram que adultos liam quadrinhos e gostavam de temas diferenciados e densos. Sem Sandman e o Monstro do Pântano, não teríamos sido presenteados com obras fenomenais como Hellblazer (estrelado por John Constantine), Livros da Magia, Preacher (do polêmico Garth Ennis), ou mais recentemente 100 Balas, de Brian Azarello e Eduardo Risso (atualmente um dos meus desenhistas preferidos), e o premiadíssimo Fables. 

Neil Gaiman pode ser considerado um dos mais importantes escritores de fantasia da atualidade. Entretanto, ele começou sua carreira como jornalista. Um dos seus primeiros trabalhos foi Violent Cases, com um dos seus mais freqüentes parceiros de trabalho, o artista Dave Mckean. Graças a esse trabalho, ele e Mckean conseguiram uma vaga na DC e realizaram a minissérie Orquídea Negra (que está sendo relançada no Brasil), sobre uma obscura super-heroína da editora. A minissérie possibilitou que eles alcançassem vôos maiores, Gaiman passou a escrever a série mensal Sandman e McKean, além de ser o capista oficial de Sandman, também realizou o especial Asilo Arkhan, escrito por Grant Morisson e estrelado pelo Batman. 


Além de Sandman, Gaiman também é o autor de outros quadrinhos, entre eles Livros da Magia (estrelado por um jovem mago de 12 anos, dono de uma coruja e que usa óculos, muito antes de Harry Potter aparecer) e 1602. E, para completar, Gaiman já escreveu livros de contos e poesias (Fumaças e Espelhos), séries de TV (Neverwhere), romances de fantasia (Deuses Americanos e Belas Maldições), fábulas para adultos (Stardust), livros infantis (Coraline e Lobos nas Paredes) Ganhou diversos prêmios importantes, como o Eisner e o Nebula. 

Já Sandman, considerada a maior obra de Gaiman para os quadrinhos, é uma das mais fascinantes histórias já publicadas pela DC Comics, ganhando fã fervorosos e entusiasmados ao redor de todo o mundo. Alternando momentos de pura fantasia e poesia com outros de um terror indescritível, Sandman ainda tinha o acréscimo de citar diversas mitologias, clássicos da literatura (em especial Shakespeare) e do cinema, trechos de músicas.

A série conta a história de Lorde Morfeu, regente do Sonhar, e um dos sete Perpétuos. Os Perpétuos são seres que não são deuses nem humanos, nem mesmo anjos, são entidades místicas que existem desde que o primeiro ser consciente surgiu no Universo e permanecerão aqui até que o último ser consciente pereça. Mesmo que não reconheçamos, todos nós, inconscientemente, sabemos que esses irmãos existem. São eles: Destino (Destiny), Morte ou Desencarnação (Death), Sonho ou Devaneio (Dream), Destruição (Destruction), Desejo (Desire), Desespero (Despair) e Delírio (Delirium). Morfeu é um dos diversos nomes adotados pelo Sonho, assim como Sandman (Homem da Areia, mais conhecido no Brasil como João Pestana, responsável por jogar areia nos olhos das crianças para que elas durmam).

Na realidade, Sandman não é uma criação de Neil Gaiman, o personagem surgiu na década de 30 (a Era de Ouro dos quadrinhos) e era um detetive chamado Wesley Dodds, que usava uma arma de gás para colocar os bandidos para dormir. Outras versões de Sandman se seguiram a essa, mantendo apenas o nome em comum. Quando Neil assumiu a tarefa de relançar o título, apenas aproveitou o nome e recriou totalmente a personagem, seguindo por um caminho totalmente diferente dos seus antecessores. Atualmente, o Sandman da Era de Ouro ainda é considerado como parte da cronologia atual, mas como um herói que atuou nas décadas de 30 e 40; as versões intermediárias são quase completamente esquecidas - com exceção de Hector Hall, filho do Gavião Negro da Era de Ouro, importante dentro da saga de Morfeu, mesmo que indiretamente. 

A saga de Morfeu começa com o velho bruxo tentando capturar a Morte e por acidente capturando seu irmão mais novo. Isso aconteceu no começo do século passado. Durante anos, o Sandman esteve preso na mansão do feiticeiro, até que conseguiu se libertar. No primeiro arco de histórias, ele parte em busca de objetos mágicos que por direito lhe pertencem, e após reuni-los começa a árdua tarefa de reconstruir seu reino, que entrou em decadência durante sua ausência. Mas as coisas não param aí, aos poucos somos apresentados a importantes personagens, como os já citados irmãos de Morfeu, além de Caim e Abel, o Corvo Mathew, Eva, Titânia, Lúcifer, Shakeaspeare, Hob Glading, entre outros. Pequenos acontecimentos plantados no começo da série só mostraram sua importância muitas edições depois e fatos importantes do passado de Morfeu (como ser pai de Orfeu, aquele famoso cantor grego que desceu aos Infernos para buscar a esposa morta) são cruciais no desenrolar da história. De qualquer maneira, contar demais acabaria por estragar a graça de tudo, ainda mais que  existe série completa publicada no Brasil. 

E se não bastasse a ousadia nos textos, Gaiman ainda teve a coragem de encerrar a série no auge do sucesso, com o brilhante argumento de que uma boa história tem começo, meio e fim, e um bom escritor sabe qual a hora de parar. 

Mas milhares de fãs, não apenas de Sonho, assim como das outras minisséries estreladas pelos Perpétuos, viram-se órfãos. E para saciar sua sede de novidades e sua saudade, vários especiais estrelados pelos coadjuvantes do Sonhar (Merv Pumpkinhead e Bruxaria, por exemplo), além de séries mensais derivadas (Lúcifer e Sandman - Teatro do Mistério, estrelada por Wesley Dodds) e especiais como Sandman Dream Hunters, Noites sem Fim e Overture foram lançadas no decorrer dos anos. 

Entre elas, podemos destacar as minisséries e especiais estrelados por uma das mais carismáticas dos Irmãos Sem_Fim: Morte. 

Duas minisséries especiais foram escritas por Gaiman, ainda durante a publicação de Sandman: Morte - O Alto Custo da Vida e Morte - O Grande Momento da Vida 

Outra publicação protagonizada pela personagem e nosso foco de análise aqui é o “mangá” Morte: A Festa . Escrito e desenhado por Jill Thompson, que já trabalhou com os personagens criados por Gaiman em Sandman: Vidas Breves e nos deliciosos contos “infantis” Pequenos Perpétuos e Festa da Delirium (publicado no Brasil pela Panini), Morte: A Festa reconta os fatos apresentados originalmente na revista Sandman durante a saga Estação das Brumas, mas da perspectiva da irmã mais velha do rei dos Sonhos. 

A leitura das histórias originais não é necessária para se compreender os eventos que se passam em Morte: A Festa, uma vez que Jill Thompson recria os momentos mais importantes da saga, mas é muito interessante comparar o modo como ela se apropriou dos elementos de Gaiman para contar sua própria história. Além de ser uma grande oportunidade de se comparar as diferenças e semelhanças das estruturas narrativas dos quadrinhos americanos e dos mangás (tudo bem que é um mangá americano, mas Jill Thompson conseguiu captar o significado do que seja escrever um mangá). Um dos pontos que mais chama atenção nesse sentido são as apresentações dos Perpétuos que aparecem tanto no começo da história do mangá quanto no prelúdio da história original. Thompson consegue transformar a apresentação feita por Gaiman (que é um texto quase romântico e altamente literário) naquelas fichas técnicas de personagens típicas dos quadrinhos japoneses, e ainda assim manter a essência do texto original e das personagens. 

Em Morte: A Festa (o título original seria melhor traduzido como Morte:Às Portas da Morte), Morpheus, o Sandman, se vê em uma situação bastante complicada depois que Lúcifer resolve expulsar todos os demônios e mortos do Inferno, dando de presente a Chave do lugar para o Sonho. Enquanto nosso herói tenta descobrir o que fazer com a “mais cobiçada propriedade psíquica em toda ordem da criação”, sua irmã mais velha também está com problemas sérios, pois os mortos estão voltando. E pior, estão quase todos indo para a sua casa. Como cumprir com seus deveres usuais de ceifadora e ainda controlar um exército de zumbis destruindo seu carpete? O jeito é contar com a ajuda de suas irmãs caçulas Delirium e Desespero, que têm a brilhante ideia de fazer uma festa na casa de Desencarnação para manter os refugiados do Inferno ocupados. 

A grande sacada de Jill Thompson foi ir muito além da mera transformação das personagens originais em versão mangá: ela mergulhou de cabeça na proposta de escrever um mangá passado no universo do Sandman, adotou praticamente todos os elementos da linguagem desse estilo de quadrinhos, especialmente do shoujo (mangá para meninas). Todos aqueles divertidos exageros faciais estão lá, também temos os pequenos comentários em segundo plano sobre determinadas situações, as fichas técnicas, o personagem andrógino, o amor meio impossível e supostamente platônico, o enquadramento de páginas típico dessas revistas. É uma reconstrução perfeita feita por uma americana do que seja escrever um quadrinho japonês. 

Confesso que tinha certas dúvidas se seria possível transformar os personagens de Sandman em mangá, especialmente dado ao estilo de histórias que eles costumam estrelar. Até que ponto eles poderiam ser adaptados para aquela forma narrativa sem perder suas características essenciais? Não achava ser possível fazer isso, mas Jill Thompson provou que eu estava errada. Apesar do tom mais leve da história, os Perpétuos (mesmo Destino e Morpheus, os mais taciturnos) continuam sendo os nossos velhos conhecidos de sempre. 

Acho que o fato da Morte ser a protagonista da história contribuiu muito para isso. Além de ser uma das personagens mais populares e cativantes da série Sandman, com muitos fãs, inclusive esta que vos fala, espalhados pelo mundo, a Morte talvez seja a mais “humana” dos Perpétuos, que mesmo consciente de seus deveres consegue encarar as situações que enfrenta de forma descontraída. Esse posicionamento da personagem facilitou a passagem do clima tipicamente denso das histórias de Gaiman para o tom leve e divertido que os mangás shoujo geralmente possuem. 


Delirium e Desespero como coadjuvantes são um show a parte e contribuem para o tempero cômico da história. Da primeira era algo até esperado, mas realmente me surpreendi com a versão de Desespero criada por Thompson. Minha concepção sobre a Dama do Anel em forma de anzol mudou completamente. 

A festa propriamente dita é recheada de momentos hilariantes e divertidos, como os sorvetes de Delirium ou o reencontro de Romeu e Julieta, ou a mera ideia de imaginar Mussolini dançando cancan. Outros mortos famosos fazem ponta, como Kurt Cobain, e, com grande destaque, Edgar Alan Poe. 

Talvez um único momento deixe os leitores mais puristas de Sandman um pouco irritados: quando Morte, Delirium e Desespero saem para capturar os mortos desgarrados. Sailormoon demais para os mais implicantes. 

Mas, no geral, Morte: A Festa é excelente. Uma história divertida de se ler e reler (várias vezes) e que não fica em nada a dever para as demais publicações envolvendo os Perpétuos, incluído a série original.O especial deu origem a outro "mangá" baseado em personagens de Sandman: "Dead Boys Detectives", também lançado no Brasil pela Conrad.