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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

ROMANCE ZUMBI


Romance Zumbi from Ana Carolina Cunha on Vimeo.


Romance Zumbi: O encontro de um casal de zumbis em uma praia resulta em um desastre,pois a namorada-zumbi perde literalmente a cabeça no mar, sem alternativa, o namorado parte para o resgate.Por trás de uma gag divertida, existe uma reflexão de como um amor obsessivo pode fazer com que tudo ao redor seja destruído. Além de uma homenagem aos filmes de terror B dos anos 50 e 60.

Ele foi selecionado para o 12º Anim!Arte! e exibido no Rio de Janeiro na Escola de Comunicação e Design Digital do instituto INFNE. Também foi selecionado na categoria Mostra Infantil na 2º Mostra Pajeu de Cinema, que aconteceu no Cine São José na cidade de Afogados da Ingazeira e conta com incentivo do Governo de Pernambuco.

Ele também tem uma versão em quadrinhos lançado na coletânea Catrinomicon.





quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Mad Monster Party? (Parte 02)

O mistério explícito diz respeito à presença de It (a Coisa) na festa. Nos créditos iniciais, ele é mostrado como um dos protagonistas do filme, mas, não sabemos exatamente quem ou o que seria It. Apenas sabemos o quão perigoso e selvagem It é, fato reiterado nas falas do Barão e de Francesca no decorrer da história, o que acaba criando uma expectativa de que, apesar de não ter sido convidadp para a festa, It vai aparecer.

O que, de fato, acontece. Francesca planeja, juntamente com Drácula, matar Felix e se apossar dos segredos de Frankenstein. Entretanto, o conde a trai e se junta ao Monstro e sua companheira. Encurralada e ressentida, Francesca manda um convite para It, que surge na Ilha, nos minutos finais do filme.



It é nada mais, nada menos, King Kong, o gorila gigante que apareceu pela primeira vez no filme de 1933, dirigido por Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack. Com a chegada dele à Ilha - que, neste momento, pode também ser inferida como referência à própria Ilha da Caveira, lar original de Kong - não apenas o caos já existente devido a perseguição dos monstros a Felix e Francesca aumenta, como elementos apresentados anteriormente na narrativa ganham sua real função. Kong vê a foto de Francesca e se apaixona pela ruiva, seqüestrando-a; os aeroplanos do Barão são utilizados na reprodução da famosa seqüência em que o gorila é abatido no alto do Empire State, sendo o prédio substituído por uma montanha da ilha.
Contudo, como dissemos, existe também um segundo mistério no filme, implícito nas entrelinhas e que se faz totalmente claro ao final do filme. A verdadeira natureza de Francesca. Pistas são lançadas no decorrer da história.
Quando a moça surge pela primeira vez, o Dr. Frankenstein solta a seguinte fala:
Vê-la todo dia me dá grande prazer, se eu puder dizer, é uma obra de arte [referindo-se à Francesca, mote que ela própria retoma em diálogo com Felix ao fim do filme, sobre ela ser uma "obra de arte"]

Pouco antes do jantar, quando o Monstro e sua companheira descem pela grande escadaria do castelo em direção ao hall de entrada, o Doutor cochicha com Francesca, que estão ao pé da escada, ao notar a expressão de desagrado da ruiva com a chegada dos dois monstros criados pelo Barão:

Lembre-se que somos todos uma família feliz aqui.

Tal fala é tomada, inicialmente, como algo metafórico e não literal, entretanto, a revelação final muda completamente seu sentido.

Depois de escapar do King Kong, sendo trocada pelo Barão, Francesca foge da ilha, de barco, com Felix. Logo após assistirem à destruição do lugar, ele se vira para ela, dizendo:

(...)Vamos nos casar. E logo haverá o som dos pequeninos Flankens correndo.
Francesca: Oh, Felix [chora]
Felix: O que foi? O que eu disse? Compraremos uma casa maior. Vou parar de espirar. O que foi?
Francesca: Nunca poderei me casar com você.
Felix: Não pode? Não me ama?
Francesca: Sim, eu amo. Por isso não posso me casar.
Felix: Tenho que lhe dizer algo. Não posso namorar você em selvas.
Francesca: Há uma coisa que eu preciso dizer. Nunca pensou por que eu estava naquela ilha? Não sou um ser humano como você. Fui criada por Frankenstein, depois do Monstro e sua companheira. Fui sua obra-prima. Onde outras mulheres têm um coração, eu tenho uma mola que vai desenrolar. Onde outras mulheres têm pulmões, eu tenho uma bomba que usa baterias e que gasta. Onde outras mulheres têm cotovelos e joelhos, eu tenho juntas metálicas que vão enferrujar e endurecer. Sou uma máquina com centenas de peças que vão acabar de desgastando.
Felix: Bem, Francesca, nenhum de nós é perfeito... [Click] Perfeito... [Click] Perfeito... [Click] Perfeito...

Deste modo, as pistas sutilmente lançadas no decorrer do filme acabam se encaixando ao descobrirmos que Francesca é uma criação do Barão. Por isso ela se considerava uma herdeira de direito, por isso ela foi apontada como a obra de arte, por isso o Barão a lembra que estão em família. Aqui, também temos outra dupla aproximação entre Felix e Francesca.

O verdadeiro nome de Francesca se revela como um nome duplamente fonético como o de Felix: Francesca Frankenstein, quase como uma Lois Lane - namorada e atualmente esposa do Superman, vulgo Clark Kent. Francesca pode ser reduzido para Frankie, que pode ser também diminutivo de Frankenstein, mostrando não ser por acaso esse o nome dela.

A segunda aproximação se dá através do estranho click que intercala a fala de Felix, como se ele fosse um robô que emperrou no meio de um procedimento, insinuando-se, que, assim como ela, ele não deve ser humano, mas sim, um construto.


A seqüência em questão é praticamente um diálogo do filme Some Like It Hot (EUA,1959), conhecido no Brasil como Quanto mais quente melhor. No filme original, roteirizado (em parceria com I.A.L. Diamond ), dirigido e produzido por Billy Wilder, Jerry/Daphne (Jack Lemon) tenta contar ao milionário Osgood Fielding III (Joe E. Brown), com quem se envolveu, que na verdade é um homem, enquanto estão ambos também fugindo em um barco, mas de mafiosos. Osgood apenas retruca:Ninguém é perfeito!

Entretanto, apesar de ser a mais explícita, essa não é a única relação que se pode fazer entre a obra de Wilder e o filme Mad Monster Party?. Wilder era bastante conhecido por seus diálogos inteligentes, carregados de duplos sentidos, e que poderiam ser interpretados em diferentes níveis.
Muitas dos diálogos de Mad Monster Party? são construídos de modo a darem aos espectadores a oportunidade de encontrarem nele um significado a mais, sem necessariamente fazer com quem não compreendeu esse sentido extra perca o desenrolar da trama.

As melhores falas, sem dúvida, são ditas pelo espirituoso e, por vezes, sarcástico Conde Drácula. Abaixo, segue uma dos diálogos travados pelo vampiro. Na seqüência em questão, ele tenta seduzir Francesca, logo após o jantar.

Drácula: Uma beijoca na orelha? Uma mordida no pescoço?
Francesca: Conde, eu estou com medo. Andou bebendo.
Drácula: Não o suficiente. Não a minha bebida favorita. Vamos, deixe-me beijá-la. Mulheres já morreram por um beijo meu.

Em um primeiro nível a conversa pode ser compreendida apenas como a tentativa de um bêbado em beijar a moça, contudo, considerando quem é o bêbado em questão, o Conde Drácula, um notório vampiro, as falas "uma mordida no pescoço", "Mulheres já morreram por um beijo meu" ou a afirmação de que ele não bebeu o suficiente a bebida favorita dele (sangue) ganham um segundo sentido.

Assim através dessa análise e de várias outras referências que poderiam ser mostradas aqui, comprovamos que Mad Monster Party? se configura como um entretenimento inteligente.

Referências:

ANDRADE A. L. Entretenimento inteligente: o cinema de Billy Wilder. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2004. 291 p.

FESTA do Monstro Maluco
(MAD Monster Party?, EUA, 1967)
Direção: Jules Bass
Produção: Joseph E. Levine, Arthur Rankin Jr. e Larry Roemer.
Roteiro: Len Korobkin, Harvey Kurtzman e Arthur Rankin Jr.
Interpretes (vozes): Boris Karloff; Allen Swift; Gale Garnett; Phyllis Diller; Ethel Ennis e outros.
Works Filmes, DVD (94 min)

Mad Monsters and Parties. Retrojunk. Sobre Mad Monster Party e sua continuação Mad, Mad Monsters. Disponível em http://www.retrojunk.com/details_articles/694/


A Festa do Monstro Maluco. Boca do Inferno, sem data. Disponível em http://www.bocadoinferno.com/romepeige/artigos/madmonster.html

A Festa do Monstro Maluco. Casa do Horror, 10 jan 2006. Disponível em http://www.casadohorror.t5.com.br/catalogo/a_festa_do_monstro_maluco_frame.htm

Mad Monster Party? Internal Movie Database, sem data. Disponível em http://www.imdb.com/title/tt0061931/

Mad Monster Party? Wikipedia, sem data. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Mad_Monster_Party

Nostalgia: A Festa do Monstro Maluco em DVD. Universo HQ, 02 mai 2006. Disponível em http://www.universohq.com/quadrinhos/2006/n02052006_03.cfm


[1] Existe uma versão cinematográfica dessa história chamada de Island of Lost Souls ( EUA, 1933) com Charles Laughton e Bela Lugosi.
[2] Existe uma versão cinematográfica de 1925, estrelada por Lon Chaney Sr.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Mad Monster Party? (Parte 1)

 

Uma das diversas possibilidades do cinema, e, possivelmente a mais utilizada e difundida de todas, é a arte de se contar uma história.


Entretanto, existe um modo próprio e peculiar de se narrar uma história através do meio cinematográfico, calcado na relação entre imagem e texto para se criar um sentido. O verdadeiro significado do que se mostra, na maioria das vezes, não repousa apenas no texto ou apenas na imagem, mas na junção de ambos, criando um terceiro sentido, seja pelo reforço do texto sobre a imagem - e vice-versa- , seja por sua contraposição. O cinema, é claro, pode prescindir do texto, sendo apresentando através de imagens somente. Contudo, ainda assim, existe um texto primário, configurado pelo roteiro, que depois será convertido em imagens.
No entanto, existem milhares de possibilidades de se contar uma história. Interessa-nos aqui o que a professora Ana Lúcia Andrade (2004) configura como entretenimento inteligente ou entretenimento de qualidade, compreendido como:

Filmes narrados de forma a atingir tanto o espectador ingênuo, preocupado com o desenvolvimento da trama, num primeiro nível de leitura, quanto o espectador crítico, atento, principalmente, à forma como o discurso se constituí, e à possibilidade de uma segunda leitura nas entrelinhas da narrativa (p 22-23, grifo da autora)

È com esse conceito em mente que nos propomos a analisar o filme A Festa do Monstro Maluco (Mad Monster Party?, EUA, 1969).

A trama, aparentemente simples, trata do dilema do Doutor - e Barão - Boris von Frankenstein (voz de Boris Karloff). Chefe da Organização Mundial dos Monstros, ele descobre uma fórmula capaz de destruir a matéria, assim, acreditando estar no ponto alto de sua carreira, Frankenstein decide se aposentar, e, convoca todos os monstros para uma reunião, na qual, nomeará seu sucessor.

Realizado através da técnica de animação em stop motion, em uma primeira leitura, Mad Monster Party? aparenta ser apenas um filme infantil, estrelado por monstros clássicos. Entretanto, observando-se com mais atenção, percebemos que estamos diante de, não apenas uma comédia espirituosa com diálogos que permitem mais de uma interpretação, mas também de uma homenagem a vários gêneros do cinema americano, tanto do período mudo, quanto do período clássico ou dos filmes B dos anos 50 ou a comédia camp dos anos 60.

Dirigido por Jules Bass, que também realizou Rudolph, a Rena do Nariz Vermelho (EUA, 1964), a animação teve também sua equipe Harvey Kurtzman, no roteiro, e Jack Davis como character designer.

Os nomes desses dois profissionais no projeto merecem certo destaque pela contribuição de ambos em outra mídia cuja narrativa está também calcada na interação texto-imagem : as histórias em quadrinhos.

Kurtzman era escritor da revista Mad, famosa por seu humor ácido, e Davis fazia ilustrações para a Mad e para a revista de terror Tales from the Crypt, ambas publicadas pela EC Comics.

Quem sabe a presença dos dois seja totalmente proposital. Assim como a indústria de cinema, o mercado de quadrinhos passou pelo crivo da censura. O Comics Code Authority, criado em 1954, era o Código Hayes dos quadrinhos. A EC Comics foi famosa por não se submeter a esse código. Talvez, por isso, nada mais apropriado para homenagear o cinema clássico, onde driblar a censura se tornou uma arte sutil e inteligente, que dois artistas que também lidaram com a censura, ainda que nos quadrinhos. Soma-se a isso, o fato de que tanto a Mad e, principalmente, Tales from Crypt possuírem estreitas relações com os filmes de terror B dos anos 50, também homenageados em Mad Monster Party?.

O duplo sentido já começa no nome do filme em inglês, Mad Monster Party?, cuja expressão pode remeter tanto ao fato de se tratar de uma festa onde estarão monstros, mas também pode ser traduzido como "uma festa de arromba", dando a proporção da celebração que será mostrada no filme.

Antes de se começar a tratar especificamente do filme, deve-se ressaltar a presença de Boris Karloff como dublador do Dr. Frankestein, cujo primeiro nome no filme é Boris, em uma correlação direta com o ator. Karloff se tornou famoso por sua atuação como o Monstro de Frankenstein no filme de 1931, dos estúdios Universal, dirigido por James Whale. Dessa forma, Boris Karloff surge - e é homenageado - triplamente no filme: através de sua voz, através da caracterização do cientista, que nada mais é que uma versão puppet do ator, e através da caracterização do boneco do Monstro, praticamente uma cópia da versão de 1931.



O filme inicia-se como muitos dos filmes do período clássico hollywoodiano, especialmente os realizados por Alfred Hitchcock. A seqüência inicial mostra, em plano geral, uma ilha - talvez uma referência à Ilha do Doutor Moreau (1), na qual um cientista recluso criava monstros. Gradativamente somos apresentados ao ambiente: a selva, o cemitério que lá existe, o castelo, uma das janelas do castelo - mais especificamente a janela do laboratório, até que, finalmente, o Dr Frankestein é mostrado realizando uma experiência. Ou seja, vamos do geral para o particular, de modo a mostrar ao espectador não apenas a ambientação da história, mas também o tom do filme.

Ainda nesse começo, tem-se uma citação de outra obra importante na literatura de terror.

Dr. Frankenstein: Há-há-há. Como disse o Corvo: nunca mais...nunca mais...

A fala do cientista refere-se ao corvo em que usara a fórmula de destruição da matéria e que acabara de explodir, mas também está relacionada ao poema O Corvo, escritor por Edgar Allan Poe, que por sua vez foi adaptado para o cinema em 1935, em um filme estrelado por Boris Karloff e Bela Lugosi - cujo papel mais famoso é o Conde Drácula, no clássico da Universal, de 1931.

Após constatar seu sucesso, o Doutor envia, através de morcegos-corujas, convites para os mais renomados monstros da literatura e do cinema. Acompanhamos o vôos dos morcegos e as respectivas entregas de convites: Conde Drácula, o Lobisomem, Dr. Jekyll e Sr. Hyde, a Múmia, o Homem Invisível, o Corcunda de Notre Dame, o Monstro da Lagoa Negra. Entre os convivas também estarão a Criatura de Frankenstein e sua Noiva.

Cada um desses monstros apareceu em clássicos filmes de terror, quase em sua maioria, produzidos pelo estúdio da Universal: Dracula (EUA ,1931), The Wolf Man (EUA, 1941), The Hunchback of Notre Dame (EUA, 1923), The Invisible Man (EUA,1933),Dr. Jekyll and Mr Hyde (EUA,1931), The Mummy (EUA, 1932). Grande parte deles estrelados pelos atores-ícones do gênero no período: Bela Lugosi, Boris Karloff, Lon Chaney Sr. e Lon Chaney Jr.
Mesmo o misterioso It - que o Doutor se recusa a convidar por ser selvagem demais - pertence a um filme desse período, como mencionaremos mais adiante.

Creature from the Black Lagoon (EUA,1954), também foi produzido pela Universal, mas é tido como representante dos filmes de Horror B que fizeram fama nos anos 50.

A composição visual das personagens refere-se diretamente a cada um desses filmes, pois, são, praticamente uma reprodução da caracterização deles nessas obras. Drácula, por exemplo, notadamente possui todos os trejeitos de Lugosi: a sobrancelha arqueada, o ato de colocar a capa diante de si, tampando parcialmente o rosto.


No caso do Lobisomem, vale acrescentar que, ao invés de representar Larry Talbot (Lon Chaney Jr), seu visual cigano é referência ao papel de Bela Lugosi, o lobisomem cigano que mordeu Talbot, o que acaba tornando até mais divertido o fato de que, em Mad Monster Party?, serem Drácula e Lobisomem grandes amigos.

Outras referências marcantes aos filmes de terror, estão na presença dos garçons-zumbis e do mordomo-zumbi Yetch, uma menção a White Zombie (EUA,1932), dirigido por Victor Halperin e estrelado por Bela Lugosi; na seqüência em que o Doutor Frankestein toca um órgão - remetendo indiretamente ao Fantasma da Ópera (2) - e a menção a Mefistófeles, na música de abertura. Mefistófeles é o demônio presente na história de Fausto, cuja adaptação feita em 1926, por Murnau, foi um dos marcos do Expressionismo Alemão, cuja influência no cinema de horror americano dos anos 30 é inegável.

As onomatopéias são referência tanto à linguagem dos quadrinhos quanto às comédias camp dos anos 60, estilo estético calcado no mal-gosto e na ironia, cujo maior representante, é a série de TV Batman (EUA ,1966-68), que também teve uma versão cinematográfica. Alguns enquadramentos, inclusive, especialmente na apresentação da banda de esqueletos, são típicos do estilo camp, forçosamente inclinados, causando uma certa estranheza no espectador.

Outros gêneros são explicitamente homenageados, como as seqüências de música e dança, notadamente inspiradas nos antigos musicais. A comédia pastelão do cinema mudo pode ser vista retratada na guerra de comidas e tortas durante o jantar dos monstros. E, o cozinheiro do castelo, genialmente chamado de Máfia Machiavelli - referência tanto à máfia propriamente dita quanto ao escritor Maquiavel, cujo mote mais famoso é "os fins justificam os meios" e cujo nome deu origem ao termo "maquiavélico"-, é caracterizado como um italiano mal-encarado, careca, semi-barbado, com uma cicatriz no rosto - talvez uma referência a Scarface (EUA ,1932), de Howard Haws. Máfia Machiavelli é a perfeita caracterização do personagem típico de filmes de gangster dos anos 30. Inclusive, a especialidade do chef é fazer pratos literalmente mortais. A seqüência em que o Conde Drácula tenta, em vão, matar o herdeiro do Barão Frankenstein parece ser inspirada nos cartoons como Papa-Leguas, Tom e Jerry, Pernalonga ou Droopy.

Depois da apresentação de cada um dos monstros que estarão presente na reunião são introduzidos aos espectadores, inclusive com direito a algumas discretas piadas visuais como o convite do Homem-Invisível ser escrito com tinta invisível, o herói da história é apresentado.

Através de uma fusão entre as bolhas do Lagoa Negra e as bolhas do remédio que o protagonista prepara para si somos apresentados a ele, Felix Flanken. Tal passagem não é aleatória. Ela não mostra apenas uma mudança de local, mas já cria um ligação entre o rapaz e os monstros, que, dado os aspectos de Felix, aparentemente não possuíriam nenhuma relação entre si.


O destaque para o remédio é importante por outra razão, pois, por se assemelhar à poção da destruição criada por Frankenstein, ela será confundida com a mesma e salvará a vida de Felix mais adiante no filme. Esse e vários outros elementos são colocados de forma discreta na trama, mas não acidental, pois, no decorrer do filme se revelam cruciais para a narrativa - como, por exemplo, os aeroplanos do Barão, ou o porta-retrato da personagem feminina principal, cuja importância falaremos mais adiante.

Felix Flanken, cujo nome foneticamente duplo pode ser considerado referência a uma tradição dos quadrinhos vista em diversos personagens como Clark Kent (Superman), Peter Parker (Spiderman) ou Bruce Banner (Hulk), é apresentado como rapaz de aparência frágil, desastrado, ingênuo e de bom coração. Um farmacêutico que trabalha - de graça - em uma loja de conveniência, e que passa mais tempo na farmácia, fazendo experiências e se ocupando em lidar com suas alergias, que cuidando do lugar e atendendo os clientes.



Se por um lado, a aparência dele remete a um herói frágil, o entusiasmo com que ele recebe o convite para a festa de Frankenstein, acreditando ser um convite para a apresentação de uma experiência cientifica, mostra que existe mais que mera timidez em Flanken, fazendo com que o tomemos como nosso herói de fato.

Flanken é o sobrinho de Frankenstein, filho da irmã dele, a "ovelha branca da família", herdeiro por direito do Barão, embora nem todos concordem. Em especial, Francesca, a secretária do Frankenstein. Em oposição a Flanken, ela é ruiva, curvilínea e sexy, fazendo o tipo femme fatale, que remete aos filmes noir dos anos 40. Entretanto, o casal formado pelo rapaz tímido e comum e a mocinha voluptuosa também é típico dos filmes B de monstros dos anos 50.

A fala do Doutor Frankenstein já dá a entender que, apesar de todas as diferenças, existirá uma aproximação entre os dois.

Dr. Frankenstein: Quero que os dois sejam amigos.[(ele diz e saí]
Francesca replica: Gostar dele? Eu vou amá-lo a ponto de despedaçá-lo.

Apesar das intenções explícitas de Francesca em eliminar Felix, já que ela, por razões plausíveis e posteriormente reveladas, se considera a verdadeira herdeira, a fala do doutor já induz os espectadores a verem os dois como um provável casal. Além disso, o fato de ambos serem, aparentemente, os únicos humanos jovens do lugar também leva a essa dedução.

A seqüência em que eles se beijam é completamente cinematográfica. Imagens de elementos da natureza como ondas quebrando contra rochas, raios, uma árvore caindo, são usadas para externalizar o turbilhão emocional que o beijo ocasionou em ambos.
Da cena do beijo propriamente dita, a câmera se movimenta, e, com uma pequena e discreta fusão, enquadra a lua cheia - reconhecido símbolo de romance. Logo depois, temos um corte seco para o casal na selva. Francesca faz uma serenata para Felix. Como em muitos filmes dos anos 30 e 40, especialmente nas screwball comedies, é ela - a mulher - quem comanda a ação.
A cena logo posterior à serenata, em que os dois namoram na selva parece decalcada de um filme dirigido por Ernst Lubitsch. Francesca beija Felix em cima do galho de uma árvore, os dois caem para trás, no meio dos arbustos. Não vemos absolutamente mais nada do casal, apenas a paisagem, a luz gradativamente diminui, quase em um fade in, indicando uma passagem de tempo. O que exatamente os dois fizeram escondidos sob os arbustos fica a cargo da imaginação do espectador.

Convém abrir, no próximo artigo, um parêntesis sobre os dois mistérios que surgem na trama. Um implícito e outro explícito.


terça-feira, 3 de outubro de 2017

As 3 faces de Coraline.



Coraline nasceu como um livro do autor inglês Neil Gaiman e ilustrado pelo genial Dave MacKean. 

Neil Gaiman pode ser considerado um dos mais importantes escritores de fantasia da atualidade. Entretanto, ele começou sua carreira como jornalista. 

Um dos seus primeiros trabalhos foi Violent Cases, no qual ele traçava um paralelo entre a brincadeira infantil da dança das cadeiras e o massacre de São Valentino cometido por Al Capone. Essa foi a primeira vez em que ele e Dave McKean trabalharam juntos.


Graças a essa obra, ele e McKean conseguiram uma vaga na DC e realizaram a minissérie Orquídea Negra - que está sendo relançada no Brasil. Essa minissérie falava sobre uma obscura super-heroína da editora e possibilitou que eles alcançassem vôos maiores. Gaiman passou a escrever a série mensal Sandman e McKean, além de ser o capista oficial de Sandman e de Hellblazer, também realizou o especial Asilo Arkham, escrito por Grant Morisson e estrelado pelo Batman.


Sandman, que é considerada como a maior obra de Gaiman para os quadrinhos, é uma das mais fascinantes histórias já publicadas pela DC Comics, e foi, juntamente com o Monstro do Pântano de Alan Moore, um dos catalisadores que possibilitou a criação da linha de quadrinhos adultos da DC: a Vertigo. Além de Sandman, Gaiman também escreveu para os quadrinhos: Livros da Magia (estrelado por um jovem mago de 12 anos, dono de uma coruja e que usa óculos, muito antes de Harry Potter aparecer), Miraclemen, Angela, algumas minisséries estreladas pelos Perpétuos (personagens de Sandman), entre outras coisas.


Mas Gaiman não se contentou em escrever apenas para os quadrinhos. Graças ao seu talento, se saiu bem em praticamente tudo o que fez. Ele já escreveu livros de contos e poesias (Fumaças e Espelhos), séries de TV (Neverwhere), romances de fantasia (o premiado Deuses Americanos e o divertido Bela Maldições, a quatro mãos com o saudoso Terry Pratchett), fábulas para adultos (Stardust), livros infantis (The day I swapped my dad for 2 goldfishes e Wolves in the Walls) e cinema, o roteiro de Beowulf é dele e a adaptação de Princess Mononoke para o inglês também. Também ganhou diversos prêmios importantes, como o Eisner, World Fantasy Award, Brain Stocker Award, American Library Association's Alex Award e o Nebula.

Como já disse, a parceria entre Gaiman e McKean é antiga e começou em Violent Cases. Mais que parceiros profissionais, Gaiman e McKean se tornaram grandes amigos e juntos realizaram Mr. PunchThe day I swapped my dad for 2 goldfishesSandman(a série) e Sandman Noites sem Fim (McKean era o capista), Wolves in the Walls, entre outros. Os dois trabalharam juntos em Mirror Mask, um filme ao estilo de Labirinto, clássico dos anos 80, em que Gaiman foi o roteirista e McKean foi o diretor, além de ser também responsável pelo designer das personagens e cenários. E há, é claro, Coraline.

Coraline é uma obra especial para Gaiman. Ele começou a escrevê-la cerca de 15  a 20 anos atrás para sua filha mais velha, Holly. No livro, somos apresentados a Coraline Jones, uma garotinha que vive em uma velha mansão com seus pais. Como muitas casas antigas da Inglaterra, o casarão onde Coraline vive foi dividido em pequenos apartamentos. Em um deles moram as senhoritas Forcible e Spink, duas velhinhas simpáticas que já foram atrizes de teatro. No sótão vive um estranho senhor que diz treinar uma banda de música composta por ratos brancos.

Coraline é uma menina comum, um pouco mimada (não gosta de experimentar comidas diferentes), e que detesta que falem o seu nome errado ou que não prestem atenção no que ela diz (o que acontece praticamente o tempo todo, pois os adultos insistem em chamá-la de Caroline). Mas, antes de tudo, Coraline é uma exploradora.

Em um dia de chuva, sem nada para fazer, seu pai sugere que ela explore o apartamento, anotando, entre outras coisas, o número de portas da casa. Coraline descobre que, das 14 portas do apartamento, uma não se abre. Depois que sua mãe abre a porta com uma velha chave negra, primeiro a menina acredita que a porta dá apenas em uma parede de tijolos.

Mas, ao destrancar a porta, a mãe de Coraline abriu passagem para um mal antigo, que está atrás da menina. Certa noite, Coraline abre novamente a porta, que agora revela um longo corredor. Do outro lado, ela encontra uma outra versão de sua casa, com uma outra mãe, um outro pai, outros vizinhos, praticamente tudo igual, tirando o fato de que lá todos sabem o seu nome, tudo é como ela mais gosta e as pessoas que ela conhece têm reluzentes botões negros no lugar dos olhos(!?).

Como diz o velho ditado, quando a esmola é muita, o santo desconfia. As coisas não são o que parecem e Coraline vai passar por grandes apertos para sair daquele lugar, contando apenas com sua coragem, sua habilidade de exploradora e a ajuda de um gato preto.

O livro traz de volta elementos clássicos da literatura infantil inglesa, presente em obras de autores como Lewis Carroll (Alice no País das Maravilhas e Alice no País dos Espelhos) ou C.S. Lewis (Crônicas de Nárnia) ou J.M. Barrie (Peter Pan). Tem em comum com esses trabalhos o tema da criança que, através de um portal (um buraco ou um espelho no caso de Alice, um guarda-roupa nas Crônicas de Nárnia) ou de um artefato mágico (o pó mágico de Peter Pan), encontra um lugar mágico e fantástico, a princípio bastante agradável, mas que se revela cheio de segredos sombrios e obscuros - especialmente no caso de Alice e Peter Pan.

Gaiman não é como muitos autores atuais, que pintam em suas obras um mundo politicamente correto, florido e cor-de-rosa. Os tons empregados em Coraline são negros e cinzentos. Há passagens que certamente nos fazem estremecer de medo, mas também não faziam isso os velhos contos infantis de outrora? 
Lembro-me muito bem do meu horror ao saber que, na história do Pequeno Polegar, o gigante decapitou suas sete filhas achando que era o Polegar e seus irmãos, e ainda assim eu adorava essa história. Ler Coraline me trouxe essa velha sensação perdida em minha infância, um misto de medo e atração. Por isso, só posso brindar à ousadia de Gaiman.

Com seu texto inteligente, ágil e envolvente, Gaiman não subestima a capacidade dos seus leitores infantis, criando uma obra que pode ser apreciada prazerosamente por platéias de qualquer idade.

Quanto às ilustrações de Dave McKean, não poderia deixar de dizer que elas foram uma agradável surpresa. Apesar de conhecer a obra desse artista há anos, a maior parte de seu trabalho que eu conhecia era feito através das técnicas de pintura ou uma mescla entre pintura e fotografia. Em Coraline, McKean trabalha basicamente com desenhos em preto, cinza e branco, feitos em nanquim e tinta, se eu não me engano. Fiquei surpresa exatamente por ele dominar tão bem técnicas tão distintas e ainda colocar sua marca pessoal nas obras. Você vê uma capa de Sandman ou uma página de Orquídea Negra, e depois olha uma ilustração de Coraline, sabe imediatamente que é Dave McKean, e o melhor, adora o que vê. As ilustrações em preto e branco remetem, em sua distorção a ambientação dos filmes do Expressionismo Alemão, que exploravam o mundo interior e perturbado dos personagens.

Os desenhos em Coraline conseguem passar simultaneamente o clima de conto infantil e de história de terror que os textos de Gaiman demandam. Também gostaria de cumprimentar a tradutora do livro, Regina de Barros Carvalho, pelo excelente trabalho feito, ao respeitar a obra original e, ao contrário de certos tradutores, não ficar trocando nomes próprios de personagens ou abrasileirando coisas que não tem a mínima necessidade de serem abrasileiradas, dada a universalidade do tema.


Na animação stopmotion, Coraline se tornou uma garotinha de cabelos azuis e capa de chuva amarela. Os traços e o estilo, não por acaso, lembravam algo de “James e o Pêssego Gigante” ou mesmo de “O Estranho Mundo de Jack”



Não por acaso exatamente pelo fato de serem todos esses três filmes dirigidos pelo sensacional Henry Selick. Pouca gente sabem, mas, apesar de Jack ser uma criação do Tim Burton (Noiva Cadáver) foi Selick quem dirigiu a película. 

Produzido pelo fenomenal estudio Laika (Noiva Cadáver, Paranorman, Boxtrolls), o filme mantém exatamente as mesmas linhas narrativas do livro, contudo, ser permite à mudanças de ritmo e a introdução de novos personagens: Wybie Lovat, vizinho da mesma idade de Coraline, e sua avô. Também altera a ocupação dos pais da protagonista e explicita alguns elementos sobre a mansão onde a garotinha se mudou com os pais

Eu, particularmente, não sou uma fã purista daquelas que se ressente porque determinado trecho do livro não foi literalmente transposto para a tela de cinema. Exatamente porque, da minha perspectiva, por mais que possam existir aproximações entre cinema e literatura (e muitos movimentos de vanguarda inclusive reforçam essa aproximação, mas discorrer sobre isso aqui é fugir do nosso tema), cinema e literatura são efetivamente meios diferentes. Cada um com recursos e gramáticas próprias, portanto, muitas são as vezes em que aquilo que fica maravilhosamente bem nos livros, pode ser tornar enfadonho e sem graça na telona.

E, no caso de Coraline, acredito que até o mais radical fã de Gaiman vai se render à forma meticulosa e bem amarrada que Selick adaptou a história, afinal, todas essas mudanças são exatamente para tornar visuais algumas explicações e situações que podem ser descritas formidavelmente em palavras, mas se tornariam enigmáticas visualmente.

O filme respeita a premissa e o clima do livro, mas as caracteriza
ções dos personagens puxam para o cartoon, se distanciando da concepção original de Dave McKean, em uma forma de expressar fisicamente a personalidade dos personagens e tornar o processo de animação mais fluido.

No caso da O
utra Mãe e da Mãe real, por exemplo, sutilezas de detalhes na aparencia delas são importantes e evidenciam suas diferenças. Um cabelo arrumado, postura ereta, maquiagem e um sorriso tornam da Outra Mãe, em comparação com os ombros caidos, cabelos desgrenhados e palidez da verdadeira Mãe, a tornam bem mais atraente, pelo menos no começo, para a sonhadora Coraline.



A presença de Wybie Lovat se mostra  como um recurso narrativo eficiente para substituir os monologos internos de Coraline em conversas, trazendo dinamica a filme.

O filme foi adaptado como game  para o X-Box 360, Playstation 3, Nintendo 3DS e PSP.




Existe uma versão em quadrinhos para o livro, escrita e desenhada por P. Craig Russell, que trabalhou com Gaiman em Sandman. Lançado aqui pela editora Rocco, a HQ tenta ser bem fiel ao livro, inclusive usando trechos do livro. Contudo a caracterização se distancia bastante tanto do trabalho original de McKean quanto da interpretação dada pela Laika. O visual da menina lembra muito mais uma Alice Moderna que suas contrapartes, a paleta de cor mais clara e vibrante que no filme reforça o quanto o livro de Lewis Carrol influenciou na HQ de Coraline.




Enfim, Coraline é um livro para ser lido e relido diversas vezes, sejam vocês adultos ou crianças Coraline também é um filme que merece ser visto várias e várias vezes pelas mesmas razões. . Se nenhum dos motivos que eu dei for suficiente para te convencerem disso, basta lembrar que Coraline é na verdade um conto de fadas e, colocando aqui uma citação feita por Gaiman na introdução do livro, vocês não poderiam achar motivo maior, afinal:


“Contos de Fadas são a pura verdade: não porque nos contam que os dragões existem, mas porque nos contam que eles podem ser vencidos. (G. K. Chesterton)”



Imagens do filme - Clique para ampliar
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Nota A título de curiosidade, existe também um curta-metragem italiano, maravilhoso, inspirado em Coraline 

 

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Go Speed Go!

Poucos são os animes que depois de 41 anos ainda são reconhecidos pelo grande público ou cujas reprises ainda são bastante freqüentes. Ou mesmo são capazes de levar a produção de um blockbuster de dimensões astronômicas. 

Quando se pergunta ao pessoal mais jovens sobre algum "anime das antigas", invariavelmente, é o corredor do Mach 5 que cruza a linha de chegada nas lembranças das pessoas. 

Para quem não sabe, Speed Racer é o nome americano da série de anime japonesa chamada Mach Go Go Go, baseada em uma série de mangás do início dos anos 60, criada por Tatsuo Yoshida. A animação foi realizada pela Tatsunoko Productions, e lançada pela primeira vez em 1967. 

A título de curiosidade, vale ressaltar as inspirações que levaram à criação de Speed Racer, no original, Mifune Gō. O sobrenome do rapaz foi uma homenagem nada discreta ao grande Toshiro Mifune, um dos maiores atores japoneses daquela época, astro de muitos dos filmes do diretor Akira Kurosawa (Rashomon, Os sete samurais e Yojimbo), o visual com o lencinho no pescoço e topete veio do rei, Elvis Presley, em especial do filme Viva Las Vegas, onde Presley vive o piloto de corridas Lucky Jackson, cujo sonho é ganhar o Grand Prix de Las Vegas. E, para finalizar, o gosto pelas aventuras ao redor do mundo, com toques de espionagem em alguns episódios, e as parafernálias do carrão Mach 5 viram de ninguém menos que James Bond. 

Outro fato interessante se refere ao nome original do protagonista. Foneticamente, Gō se refere tanto ao inglês Go (Vai!) quando ao japonês Go (Cinco). Não por acaso, o número do carro do Speed é o cinco (Um parêntesis nada a ver, mas, pulando para outro mangá, também não é por acaso que, em Bleach, Ichigo tem o número 15 na porta do quarto dele, ou é mostrado com roupas com o 15 estampado. Ichi é um em japonês, e Go, vocês já sabem.) 

Em linhas gerais, a trama do anime se foca no jovem piloto Speed Racer (Mifune Gō) que viaja pelo mundo competindo em corridas e rallies perigosos, cujos corredores podem até mesmo jogar sujo, e muitas são as explosões e acidentes durante esses percursos. 



Speed é sempre acompanhado por sua família: Pops (Daisuke Mifune), o pai do rapaz, responsável pela criação do fantástico Mach 5, antes engenheiro de uma grande coorporação, a qual abandonou para fundar a Racer Motors (Mifune Motors); Mamãe (Mom/Aya Mifune), o irmão caçula Gorducho (Spritle/Kurio Mifune) sempre acompanhado do macaco Zequinha (Chim-Chim/Senpei), que além de serem o alívio cômico da história, quebra-galhos ocasionais, sempre conseguiam a incrível façanha de se esconderem no porta-malas do Mach 5 (mesmo que a família inteira ficasse de olho nos dois).

Mamãe Gorducho e Zequinha
Para completar a família - que também é a equipe de corrida de Speed - temos o mecânico Sparky (Sabu) e Trixie (Michi Shimura), namorada do herói, que ás vezes se fazia de co-piloto ou auxiliava Speed observando a corrida em um helicóptero. 

SpeedTrixie
Em relação a Trixie, vale destacar que, juntamente com Safiri, de A Princesa e o Cavaleiro, é uma das precursoras das heroínas (japonesas) que se encontram em pé de igualdade com o mocinho da história. Trixie dirige bem, luta, pilota, sabe usar disfarces, é inteligente, sem deixar de ser feminina, tornando-se uma espécie de modelo para as garotas da época. 

Também não podemos nos esquecer, é claro, daquele que é considerado por muito como o personagem mais cool dos animes, o misterioso Corredor X (Racer X/ Fukumen (Masked) Racer), que, na realidade, parafraseando o narrador do desenho é "Rex Racer, o irmão desaparecido de Speed ", cujo nome original é Ken'ichi Mifune. 

Na versão original, Rex saiu de casa depois de uma briga séria com o pai. Anos depois, surge o Corredor X, cujo talento nas pistas lembra o do mais velho dos irmãos Racer. Aparentemente, tanto Speed quanto Pops desconfiam da real identidade de X. Rex se tornou agente da Interpol, e viaja pelo mundo, enfrentando criminosos e investigando falcatruas, sabotagens e vários outros delitos que se escondem no circuito internacional de corridas. Em mais de uma ocasião, o Corredor X ajudou Speed nas pistas, muitas vezes sacrificando sua vitória para auxiliar o caçula. 

Corredor XRex Racer
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Embora tenha durado apenas uma temporada (entre 1967 e 1968), o anime foi reprisado diversas vezes, obtendo sempre o mesmo retorno inicial. No Brasil, as últimas reprises foram feitas pela Rede Record, pelo Cartoon Network e posteriormente pelo Boomerang. O tema do anime é possivelmente um dos mais marcantes da história da animação (tanto a versão americana quanto a nipônica) e já dava, desde a abertura, o tom de "adrenalina" (na medida certa) do que viria a seguir. 

Além da séries dos anos 60, outras séries derivadas, tanto continuações, quanto remakes, foram realizadas. A primeira delas foi a americana The New Adventures of Speed Racer, produzida em 1993 pela Fred Wolf Filmes. Com uma animação sofrível, um tema de abertura pior ainda, uma completa descaracterização dos personagens, merece ser conhecido apenas como curiosidade ou como exemplo do que não se deve fazer com um personagem clássico (ou melhor, com qualquer personagem). 

The New Adventures of Speed Racer
Em 1997, em comemoração aos 30 anos da série original, foi lançado um remake também pela Tatsunoko Productions, Mach Go Go Go ou Speed Racer X trazia basicamente os mesmos elementos da história clássica, com uma roupagem moderna. Nesta versão, Rex Racer finge-se de morto para a família, plot que seria reutilizado no filme de 2008. O visual do desenho é interessante, não muito diferente do que era produzido nos anos 90, a animação tem qualidade, o ritmo por vezes fica aquém do esperado, mas vale a pena uma conferida. Ele chegou a ser exibido nos Estados Unidos em 2002 pela Nickelodeon, e, posteriormente, no Brasil, pelo Cartoon Network.

Speed Racer X
Em 2008, iniciou-se a produção de Speed Racer: The Next Generation, focada na história dos filhos de Speed e Trixie (?). Produzido pelos criadores da série cômica Kappa Mickey, traz, como protagonista, Speed Jr., um órfão que vai para uma escola de corridas (?!), dirigida pelo Gorducho (o único personagem da série original que aparece). Lá Speed Jr conhece X Racer, o filho mais velho do Speed original, com quem começa uma relação de rivalidade, até descobrirem que são irmãos. Speed Jr. foi mandando para um orfanato para ser protegido.

A premissa, os traços e o estilo da animação não empolgam.

Speed Racer: The Next GenerationSpeed Racer: The Next Generation 2

Contudo, apesar de não ter sido completamente feliz em suas continuações e remakes, Speed Racer se tornou parte importante da história da televisão mundial. O TV Guide (a "bíblia" da TV norte-americana) aponta o episódio em que o Corredor X revela sua identidade à Speed como um dos momentos mais memoráveis da história da TV. 

Speed também é referenciado em vários outras animações, como Harvey , o Advogado (onde ele é um dos clientes do ex-Homem-Pássaro) ou Family Guy ou Frango Robot. Vale destacar o episódio do Laboratório de Dexter em que os personagens praticamente encarnam o jeito "speed racer" de ser. Dexter faz as vezes de Speed, Dee Dee alterna entre Gorducho e Corredor X, o Pai do Dexter age exatamente como Pops. Outro que também merece ser visto é o episódio da série Os Padrinhos Mágicos, chamado A Caçada dos Padrinhos Mágicos, em que Timmy Turner, Cosmo e Wanda (os padrinhos) entram no mundo da televisão revisitando vários clássicos animados, inclusive Speed Racer. 

Se não bastasse todas essas referências e homenagens, em 1996, Speed e sua família foram "garotos-propaganda" de um comercial da Volkswagen. 

Depois de tudo isso, acredito que só nos resta uma coisa a dizer: Go Speed Go! 


Minha resenha do filme - http://www.freewebs.com/mahouamaterasu/tsuru/numero5/speedmovie.htm

Veja também algumas das aberturashttp://www.freewebs.com/mahouamaterasu/tsuru/numero5/speedvideos.htm