Podendo ser traduzido literalmente como "figuras irresponsáveis", o
termo Mangá é comumente utilizado para designar as histórias
em quadrinhos japonesas. Os mangás são usualmente grossos
volumes com centenas de páginas, lidos da esquerda para a direita. A maioria é
impressa em preto e branco, embora, possam ser coloridas em uma única cor. Tal
prática se destina a esconder "imagens fantasmas", uma vez que
os mangás são impressos em papel reciclado barato. Contudo,
ocasionalmente, séries mais consagradas podem ter algumas páginas coloridas em
alguns capítulos. Geralmente várias séries de autores diversos são
publicadas em uma única revista. Posteriormente, as séries de maior sucesso são
republicadas em tamanho "pocket" em um papel de
melhor qualidade em volumes conhecidos como tankohon.
Emakimono
Definir historicamente o surgimento dos mangás é relativamente
complicado. Alguns estudiosos apontam suas origens no período Nara (séc VII)
com o surgimento do emakimono (rolos de pintura), outros
afirmam ter nascido dos desenhos humorísticos de monges orientais do séc.
XII. Entretanto, é quase inegável a influência do estilo de pinturas Ukiyo-e (retratos
do mundo flutuante), surgido no período Edo (1603-1867). Os Ukiyo-e (ou
estampas japonesas) se tornaram uma forma de entretenimento popular, pois eram
facilmente produzidos em massa, impresso em "larga escala" (para os
padrões da época) com auxílio de blocos de madeira. Seus temas variavam
desde cenas da vida urbana, temas teatrais, cortesãs, lutadores e paisagens. Às
vezes eram compilados em formato de livro, contando uma história. Até mesmo
cenas de sexo eram retratadas em ilustrações conhecidas como shungas,
e, considerados por alguns, como os predecessores dos hentai -
os quais comentaremos mais adiante. Aliás, era comum presentear os
recém-casados com shungas. O fim de tal costume - e simultaneamente
declínio de produção dos shungas - veio com o advento da era
Meiji (iniciado em 1868) e a instauração de uma conduta moral mais
rígida.

Ukiyo-e
O mangá moderno surge apenas no começo do séc. XX, influenciado, em parte, por
publicações norte-americanas e britânicas. Às vezes eram até mesmo nomeados
de Punch-e, nome derivado da revista inglesa Punch Magazine.
Muitas das histórias eram tiras ou quadros de humor. É quase
unânime, entretanto, que o grande responsável por tornar os quadrinhos
japoneses o que são hoje é Osamu Tesuka. Foi ele quem definiu alguns dos
elementos fundamentais do mangá : o desenhos estilizado, a narrativa cinematográfica,
e é claro, os famosos olhos grandes.
Alguns citam Walt Disney como fonte de inspiração para o trabalho de Tesuka na
criação de personagens com traços exagerados com o intuito de aumentar a
expressividade e o efeito dramático. Contudo, vale ressaltar que o
teatro kabuki, do qual dizem que Tesuka era fã, também foi
responsáveis pela criação dos famosos "olhões". Além da
maquiagem kumadori, que simulava máscaras, os atores usam os olhos
como modo de expressão fundamental, abrindo-os ao máximo, ou mesmo simulando um
estrabismo para denotar raiva ou agitação. Tudo no intuito de ressaltar as
emoções dos personagens.
kumadori
Ao contrário do que muitos apregoam, os "olhões" não são fruto de
inveja japonesa aos arredondados olhos ocidentais. Os japoneses consideram os
olhos como "portais para a alma", assim, os utilizam para
transparecer a personalidade e/ou o estado de espírito dos personagens.
Crianças usualmente têm olhos maiores para refletir sua inocência. E, em
alguns caos, o mesmo personagem pode ter tamanhos de olhos diferentes,
dependendo da situação. Por exemplo, Kenshin Himura (Samurai X/Rurouni
Kenshin, publicado no Brasil
pela JBC) e Kirika Yuumura (Noir, desenho
animado japonês exibido na extinta Locomotion) variam o tamanho de seus olhos:
grande e gentis em situações normais, estreitos e menores durante cenas de
batalha.
Retomando um pouco Tesuka, ele foi um dos mais produtivos artistas nipônicos de
seu tempo: auxiliado por vários assistentes, ele produzia cerca de 300 páginas
de quadrinhos por mês para várias revistas, chegando a produzir 150 mil páginas
durante toda sua carreira, além de criar mais de 500 obras. Alguns de
seus personagens são conhecidos aqui no Brasil, principalmente pelos mais
velhos, como Tetsuwan Atom, Jungle Tatei e Ribon no Kishi, mais
conhecidos como Astro Boy, Kimba, o Leão Branco e A Princesa e o
Cavaleiro - este último publicado pela JBC-, criados nos anos 50, e
transformados em desenho na década de 60.

Osamu Tesuka
Não é à toa que Tezuka é conhecido pelos seus conterrâneos como “Manga no
Kami-sama” , ou “o deus do mangá”.
Uma característica marcante dos mangás é a prevalência da
imagem sobre o texto ao contrário dos quadrinhos americanos, por exemplo.
Comparativamente, os quadrinhos americanos são mais textuais. Os quadrinhos japoneses
são feitos para serem uma experiência visual, enquanto os americanos são feitos
para serem lidos. Há exceções em ambos os casos, é verdade.
Em resumo, pode-se dizer que os mangás possuem uma narrativa
cinematográfica, como se fossem algo visto quadro a quadro.
Nos chamados mangás de história longa, alguns com milhares de
páginas, os artistas japoneses buscam estender sua narrativa por muitos
capítulos de modo a explorar as nuances psicológicas das personagens e tornar a
história mais interessante e detalhada.
No Japão, existem diversos tipos de mangás sobre os mais
variados temas possíveis. Entretanto, a maioria é classificado/dividido pela
faixa etária e/ou sexo dos leitores e possuem entre si algumas características
em comum. Embora, nos últimos tempos, características de um gênero são
incorporados a outro e vice-versa, dificultando algumas vezes a classificação
exata de uma história.
· Categorias
de Mangás (por faixa etária)
Kodomo, o termo é traduzido como "criança", e, é usado para se
referir aos quadrinhos nipônicos dedicados aos pequenos. São geralmente
histórias mais simples e engraçadinhas, algumas com teor pedagógico. O
mais famoso dos mangás kodomo é, sem dúvida, Doreamon,
criado em 1969. Em 2008, o ministério japonês proclamou Doreamon como
"embaixador" do país, consolidando sua posição de ícone cultural
japonês A versão anime do gato azulado do séc. XXIII, perdido
na nossa época, chegou a ser exibida no Brasil pela extinta Rede
Manchete.
Shounen, traduzido como "garoto" e literalmente como
"poucos anos", designa os mangás destinados aos adolescentes do sexo
masculino. Suas características tidas como marcantes são a ênfase na ação
e nas cenas de combate comparadas aos demais elementos da história. Alguns
focam relações amorosas de forma humorística, sendo quase um clichê a história
do rapaz - usualmente tímido e indeciso - cercado por belas garotas, como Tenchi
Muiyo ou Love Hina (publicado
aqui pela JBC).
Os desenhos de shounen seriam menos rebuscados em sua arte
final, de modo a imprimir maior agilidade e dinamismo nas cenas de ação.
Entretanto, especialmente nos últimos anos, tais "regras" vêm sendo
minimizadas, e, elementos tidos como de outras categorias são empregados com
mais freqüência. Por exemplo, Bakuman (JBC) é um shounen cujo
enfoque está na mistura de romance, drama e comédia.
Alguns exemplos de mangás shounen de sucesso são Saint
Seya - Cavaleiros do Zodiaco (JBC),
Dragon Ball Z (Conrad), Yu
Yu Hakushô (JBC), Naruto(Panini),
Bleach (Panini) e Rurouni
Kenshin - Samurai X (JBC)
Shoujo, traduzido como
"garota", literalmente "pouca mulher", seria a contraparte
etária do shounen, dedicado às adolescentes do sexo feminino. Seus
traços seriam mais delicados, com uma arte-final mais rebuscada e
detalhada.
A ênfase temática estaria no romance, nas inter-relações dos personagens e nos
seus conflitos pessoais. Entretanto, o que já se foi dito sobre a mistura de
características de elementos no shounen, também se aplica aos
mangás shoujo. Por exemplo, Guerreiras Mágicas de Rayearth (JBC) utiliza ingredientes
de mecha (robôs gigantes), tido como uma temática típica dos
shounen.
Um dos subgêneros mais famosos do shoujo talvez seja o mahou
shoujo ou magical girl, como Sailormoon (versão
animada exibida na Manchete e no Cartoon Network) ou Sakura Card Captors (JBC), onde uma garota recebe poderes
especiais para lutar contra as forças do mal.

Outro subgênero de destaque são aqueles focados na vida escolar, narrando as
desventuras amorosas dos estudantes, destacando um casal, geralmente com
personalidades antagônicas. Exemplos dessa temática são vistos em Karekano (Panini) e Maid Sama! (Panini).
Seinen são os mangás voltados para um público masculino mais velho,
especialmente adultos jovens entre 18 e 25 anos. Eles aprofundam temas que são,
às vezes, apenas insinuados nos shounen, e, mesmo, shoujo.
Geralmente contém uma temática mais aprofundada, cenas de violência mais
explícitas e insinuações sexuais mais diretas.
Existe um foco maior na história em detrimento da ação, e, algumas vezes, suas
narrativas são mais atreladas à "lógica da realidade".
Alguns exemplos de seinen conhecidos no Brasil são Berserk (Panini), Gantz (Panini), Monster (Conrad) e Battle Royale (Conrad).
Josei é a contraparte feminina do seinen, dedicado
principalmente às jovens mulheres. Os traços finos e delicados desses
trabalhos, além da temática focada nas inter-relações pessoais dos personagens,
fazem com que sejam, por vezes, confundidos, aqui no Brasil, com shoujos.
Contudo, sua narrativa é usualmente mais densa e realista. E as referências
sexuais, tais como no seinen, são mais explícitas.
Nana (JBC), Paradise
Kiss (Conrad) e Honey & Clover (Panini)
são alguns trabalhos josei bastante conhecidos.
· Outras Classificações de Mangás
Gekigá, mais que uma categoria de quadrinhos japoneses, se apresenta
como um movimento artístico. Traduzido literalmente como "figuras
dramáticas", ele surgiu em oposição ao mangá convencional
("figuras irresponsáveis"), buscando abordar temas mais adultos, com
traços mais clássicos e realistas em contraposição ao estilo
"cartoonesco" dos mangás mais comerciais.
Originou-se de fanzines disponibilizados por bibliotecas públicas de Osaka,
conhecidas como kasihonya, que, logo após a II Guerra, se
prontificavam a levar leituras de baixo custo para a população em geral,
especialmente adultos, e, permitiam aos artistas um experimentalismo maior que
as grandes editoras do período.
Sem dúvida, um dos mais famosos e marcantes gekigás é a
série Kozure Okami (Lobo Solitário, publicada aqui no Brasil pela
Sampa, Nova Sampa e, em versão integral, pela Panini ).Criada nos
anos 70 por Kazuo Koike e Goseki Kojima, o impacto da saga do ex-executor do
Shogun, Ito Ogami, e seu filho, Daigoro, é imensurável, ecoando ainda em
produções recentes como Vagabond (Conrad) e Blade - A Lâmina do
Imortal (Conrad). No
ocidente, sua influência também se faz presente, como na obra de Frank Miller (Sin
City, 300 de Esparta), na série de graphic novels Estrada para a
Perdição ou mesmo na animação Samurai Jack.
Lobo Solitário
Outros gekigás de destaque são Mai - A garota
sensitiva (Abril), Akira (Globo), Crying Freeman (Panini) e Gen-Pés Descalços (Conrad). Este último, apesar dos
traços cartunescos é considerado gekigá devido à sua temática:
o relato sobre os sobreviventes da bomba de Hiroshima, entre eles o próprio
autor, Keiji Nakazawa.
Hentai é o termo empregado para designar os mangás eróticos e pornográficos
japoneses.
No ocidente refere-se a qualquer produção de nipônica que mostre explicitamente
um intercurso sexual. No Japão, usa-se uma pequena diferenciação entre as
produções eróticas. Obras que apresentam cenas de sexo convencional são
designadas pelos termos 18-kin (proibido para menores de 18
anos) ou seijin manga (mangás para adultos).
Os hentais, portanto, se referem a trabalhos que exploram fetiches
sexuais em suas páginas. Algumas vezes se usa o termo ecchi para
se dizer desse tipo de publicação. Ambos, hentai e ecchi, podem ser
traduzidos, entre outros significados, como "perversão".
Shounen-ai/Yaoi - Ambos os termos são usados para designar
histórias que contém temáticas relacionadas a relações homo-eróticas
masculinas. No Japão usa-se também o termo Boy's Love para
esse tipo de história, que seria a tradução de shounen-ai para
o inglês (shounen = garoto, ai = amor)
Entretanto, o shounen-ai aborda o tema de maneira mais leve,
tendo como foco a relação afetiva dos envolvidos. Já o yaoi dá
ênfase à relação sexual propriamente dita. A palavra yaoi vem
da expressão: "Yama nashi, Ochi nashi, Imi nashi" (sem
clímax, sem piadas, sem sentido).
No ocidente, os termos shounen-ai e yaoi são, muitas vezes,
usados como sinônimos.
Exemplos de histórias com conteúdos shounen-ai: Gravitation (JBC), Princess Princess (Panini), Tokyo Babylon (JBC).
Shoujo-ai/Yuri seriam os correspondentes femininos de,
respectivamente, shounen-ai e yaoi.
O shoujo-ai se refere a histórias românticas protagonizadas
por casais femininos, focando no envolvimento afetivo das garotas, sem
necessariamente significar envolvimento sexual. Já o termo yuri trata
de obras com cenas de caráter mais sexual. O termo yuri hentai também
designa trabalhos explicitamente pornográficos.
Assim como shounen-ai/yaoi, no ocidente, shoujo-ai/yuri são
tomados como sinônimos.
Sailormoon possui um dos casais shoujo-ai mais
famosos dos mangás: Sailor Uranus e Sailor Neptune. Outra
história com características shoujo-ai é Noir (exibido pela Locomotion).
O mangá Fushigi no Kuni no Muyuki-chan ou simplesmente Miyuki-chan (JBC) , do Clamp, pode
ser considerado um meio termo entre shoujo-ai e yuri, embora tenda
mais para a segunda categoria, e tomado por muitos como tal.
Doujinshi, ou simplesmente doujin, pode ser literalmente
traduzido como "mesma coisa, pessoas diferentes". Em outras palavras,
refere-se a histórias protagonizadas por personagens conhecidas, mas escritas
por outras pessoas que não seus criadores. Partindo dessa perspectiva,
muitos escritores de fanfics (histórias escritas por fãs) que se
especializam em histórias baseadas em mangás denominam seus trabalhos como doujinshi,
mesmo que ele não contenha ilustrações.
Entretanto, o termo usualmente se refere a mangás/fanzines de artistas (ainda)
não profissionalizados, podendo conter tanto histórias originais quanto fanfics.
Alguns artistas, mesmo depois de estabelecidos profissionalmente,
ocasionalmente fazem doujinshi. Um exemplo é o grupo Clamp,
que, depois de famoso, realizou Tenku Senki Shurato Original Memory
(Muma) em 1990, baseado no mangá Tenku Senki Shurato de
Hiroshi Kawamoto, cujo versão animada foi exibida no Brasil pela
extinta Rede Manchete nos anos 90.
Com o advento da internet, a profusão de doujishins aumentou
drasticamente. Muitos são os fãs que disponibilizam seu trabalhos em sites como
o DeviantART. O site Aku Tenshi (http://www.aku-tenshi.org/doujin/) tem uma pagina
dedicada exclusivamente a douijishin.
O termo Doujinshi Circle é utilizado para nomear um grupo de
artistas que trabalham coletivamente na criação de uma obra. O Clamp começou
sua carreira como um Doujinshin Circle, contando com 11 integrantes
nos seus primórdios.
Outra dica de site:
Clamp Files: Um Guia sobre a obra das mangakás mais famosas do Japão
Alguns livros também podem ser recomendados como leitura
essencial:
Manga! Manga!: The World of Japanese Comics, de Frederik L. Schodt
(Kodansha America) (em inglês)
Dreamland Japan: Writings on Modern Manga, de Frederik L. Schodt
(Stone Brigde Press) (em inglês)
Mangá - O Poder dos Quadrinhos Japoneses, de Sonia Luyten (Hedra)
Cultura Pop Japonesa: Mangá e Anime, de Sonia Luyten (Hedra)
Mangá - Como o Japão Reinventou os Quadrinhos, de Paul Gravett (Conrad)