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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Um pouquinho do Japão...


O Catador de Batatas e o Filho da Costureira ou O Filho da Costureira e o Catador de Batatas.

Lançado pela JBC para comemorar os 100 anos da Imigração Japonesa e realizado pelo desenhista Bruno D’Angelo e pelo roteirista Ricardo Giassetti, “O Catador de Batatas e o Filho da Costureira ou O Filho da Costureira e o Catador de Batatas”.
conta a história de Ikemoto, um imigrante japonês, e Isidoro, um descendente de escravos:

O Catador de Batatas
IKEMOTO está em fuga de seu próprio passado. Sua família e toda a classe samurai se viu esquecida após a Reforma Meiji. Sem posses e sem futuro, Ikemoto vê o Brasil como um refúgio distante para curar as mágoas de seu passado. Veterano da guerra russo-japonesa (1904-05), foi prisioneiro de guerra no navio Kazan, agora de posse da frota japonesa sob o nome Kasato Maru.

O Filho da Costureira
ISIDORO não conheceu nem sua mãe nem seu pai. Foi criado por Dona Nâna, costureira de grande coração que acolhe crianças rejeitadas. Vivendo como colonos em uma fazenda de café, Isidoro destaca-se como um garoto esforçado e inteligente, o que o faz ser uma figura deslocada nesse ambiente rústico. Sem muitas perspectivas devido ao preconceito racial, Isidoro e Ikemoto acabam unindo forças e compartilhando problemas que os encaminham para um destino comum: a fuga para uma nova vida, com novos desafios e conquistas. 
(extraído do site da JBC)


A idéia da revista é sensacional. O título duplo é justificável porque na realidade são duas revistas em uma. Lendo-se da esquerda para a direita (o modo ocidental de se ler) vemos os fatos da perspectiva de Isidoro com os textos em português e legendas em japonês no rodapé; da direita para esquerda, a história de Ikemoto é contada no modo oriental de se ler, em japonês com notas em português.

As duas histórias convergem para um único final que se encontra no meio da revista, o que parece intencionalmente ser uma metáfora para os encontros das histórias e culturas que tornaram o Brasil o que ele é.


Contudo, apesar da premissa criativa e interessante, o resultado final é um pouco desanimador. 

Para começar, o resumo do site da JBC que eu coloquei aqui explica muito mais a história que o texto original. Quando nós lemos as trajetórias de Isidoro e Ikemoto, muitos fatos ficam obscuros ou são pouco explicados e explicitados. Muitas vezes me peguei perguntado sobre o que exatamente aconteceu, como se imensas lacunas tivessem sido deixadas no decorrer da narrativa.

Na realidade, essas lacunas realmente existem, vários fatos são mencionados porém não mostrados, como o modo pelo qual Ikemoto ajudou uma família de imigrantes com o racionamento de alguns alimentos (eu acho...). Aliás, não se sabe porque o menino da família auxiliada por Ikemoto deduz que o ex-militar era um catador de batatas, apesar de nunca ter sido um.

A suposta amizade entre Isidoro e Ikemoto é mal desenvolvida, e não se entende porque no fim das contas eles decidem se juntar e partir juntos do povoado que habitam. Parece algo completamente “deus ex machina” a amizade e aliança formada entre os dois.

Os desenhos deixam um pouco a desejar, muitas das cenas parecem  esboços de croqui, se tornando tão confusos quanto a história.

Uma pena, pois os personagens são potencialmente interessantes e a ideia para uma homenagem a dois povos que tanto contribuíram para a formação do Brasil era genial. 

Vale ler apenas como uma curiosidade... lamentando-se que o resultado final fique tão aquém do desejado.


Minhas Imagens do Japão


Em compensação, a editora CosacNaify publicou um tempo atrás  Minhas imagens do Japão, com texto e ilustrações de Etsuko Watanabe, traduzido por Cássia Silveira.

A autora traz aos leitores o dia a dia da pequena Yumi e de seu irmão caçula Takeshi em seu dia a dia no Japão.


Ela descreve todo o dia a dia daquelas crianças, a casa, o quarto de dormir, os apetrechos para se ir na escola, as refeições, a comida, a higiene pessoal, até mesmo o banho público. Assim como os festivais anuais e as tradições...

Tudo de um modo tão suave, inocente e natural que é nos é impossível não adentrarmos naquela cultura com olhos de aceitação, curiosidade e interesse.



Sei que usualmente não gosto de fazer isso, preferindo escrever minhas próprias observações, mas, encontrei uma resenha tão perfeita sobre esse livro que achei válido reproduzi-la aqui:

“Mais que uma crônica da vida urbana no Japão contemporâneo, esse livrinho guarda a chave para compreendermos um fato muitas vezes esquecido: que, apesar das diferenças, somos todos, essencialmente, seres humanos. Não é pouco. 

Quando os meios de comunicação e a Internet nos bombardeiam com toneladas de informações superficiais ou inúteis - em que podemos vislumbrar, quase sempre, generalizações injustas e perigosas -, as diferenças culturais passam mais a afastar do que aproximar as pessoas, transformando o outro, o estranho, no rival, no inimigo. 

Como vive uma menina de sete anos no Japão? Nesse lugar tão longínquo - não apenas em termos geográficos -, o que há de diferente e de semelhante em relação a nós? 

Para responder a essa pergunta, Etsuko Watanabe nos apresenta o Japão e seu povo: os utensílios do cotidiano, os objetos escolares, a vida em família. E como a mesa é posta, quais as vestimentas do dia-a-dia, algumas brincadeiras - as minúcias, enfim, que constroem uma civilização. Conhecemos também as palavras, com seus sons inesperados, às vezes surpreendentes, donas de uma eufonia para a qual precisamos reeducar nossos ouvidos. 

A beleza do estranho nos assalta em inúmeros trechos da obra. A autora, formada pela Musashino Art University e com mais de sete livros infantis publicados, não despreza sequer os aspectos da intimidade. A importância da hora do banho, os vasos sanitários - curiosos e eficazes - e os banhos públicos - uma característica dessa cultura que não submeteu a nudez humana ao arbítrio da absoluta privacidade: todo o engenho do conforto e da higiene de uma civilização está resumido nesse livrinho. 

De repente, percebemos que não estamos distantes do Japão dos samurais, e é como se pudéssemos vislumbrar, sob cada gesto - principalmente sob os hábitos e a disciplina escolares -, o código de honra desses antigos guerreiros. 

Nada é esquecido: das brincadeiras infantis às superstições, à busca da sorte e da ajuda dos deuses; as lendas e os costumes; as crenças pueris do povo e as festas que as materializam, comemorações que são marcos da passagem do tempo, cujas alegrias podem conceder uma nova força à vida banal, fragmentada entre o trabalho e as poucas horas de descanso. 

Introdução a um mundo diverso do nosso, a obra de Watanabe oferece possibilidades quase infinitas de se trabalhar com as crianças, não só para diverti-las, mas também para mostrar como as diferenças, se quisermos, podem mais unir do que separar as pessoas. Sob o olhar imparcial de uma menina capaz de se encantar com as menores coisas, Minhas imagens do Japão descreve um povo cujas tradições e história engrandecem a espécie humana”. 

(por Rodrigo Gurgel – “A beleza do diferente” em http://educacao.uol.com.br/resenhas/imagens-japao.jhtm)

Enfim, apesar de ser um livro infantil, é uma leitura indicada para qualquer que seja a sua idade. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Um pouco das histórias dos Mangás

Podendo ser traduzido literalmente como "figuras irresponsáveis", o termo Mangá é comumente utilizado para designar as histórias em quadrinhos japonesas. Os mangás são usualmente grossos volumes com centenas de páginas, lidos da esquerda para a direita. A maioria é impressa em preto e branco, embora, possam ser coloridas em uma única cor. Tal prática se destina a esconder "imagens fantasmas", uma vez que os mangás são impressos em papel reciclado barato. Contudo, ocasionalmente, séries mais consagradas podem ter algumas páginas coloridas em alguns capítulos.  Geralmente várias séries de autores diversos são publicadas em uma única revista. Posteriormente, as séries de maior sucesso são republicadas em tamanho "pocket" em um papel de melhor qualidade em volumes conhecidos como tankohon. 



Emakimono

Definir historicamente o surgimento dos mangás é relativamente complicado. Alguns estudiosos apontam suas origens no período Nara (séc VII) com o surgimento do emakimono (rolos de pintura), outros afirmam ter nascido dos desenhos humorísticos de monges orientais do séc. XII. Entretanto, é quase inegável a influência do estilo de pinturas Ukiyo-e (retratos do mundo flutuante), surgido no período Edo (1603-1867). Os Ukiyo-e (ou estampas japonesas) se tornaram uma forma de entretenimento popular, pois eram facilmente produzidos em massa, impresso em "larga escala" (para os padrões da época) com auxílio de blocos de madeira. Seus temas variavam desde cenas da vida urbana, temas teatrais, cortesãs, lutadores e paisagens. Às vezes eram compilados em formato de livro, contando uma história. Até mesmo cenas de sexo eram retratadas em ilustrações conhecidas como shungas, e, considerados por alguns, como os predecessores dos hentai - os quais comentaremos mais adiante.  Aliás, era comum presentear os recém-casados com shungas. O fim de tal costume - e simultaneamente declínio de produção dos shungas - veio com o advento da era Meiji  (iniciado em 1868) e a instauração de uma conduta moral mais rígida.




Ukiyo-e

O mangá moderno surge apenas no começo do séc. XX, influenciado, em parte, por publicações norte-americanas e britânicas. Às vezes eram até mesmo nomeados de Punch-e, nome derivado da revista inglesa Punch Magazine. Muitas das histórias eram tiras ou quadros de humor.   É quase unânime, entretanto, que o grande responsável por tornar os quadrinhos japoneses o que são hoje é Osamu Tesuka. Foi ele quem definiu alguns dos elementos fundamentais do mangá : o desenhos estilizado, a narrativa cinematográfica, e é claro, os famosos olhos grandes. 


Alguns citam Walt Disney como fonte de inspiração para o trabalho de Tesuka na criação de personagens com traços exagerados com o intuito de aumentar a expressividade e o efeito dramático. Contudo, vale ressaltar que o teatro kabuki, do qual dizem que Tesuka era fã, também foi responsáveis pela criação dos famosos "olhões". Além da maquiagem kumadori, que simulava máscaras, os atores usam os olhos como modo de expressão fundamental, abrindo-os ao máximo, ou mesmo simulando um estrabismo para denotar raiva ou agitação. Tudo no intuito de ressaltar as emoções dos personagens. 


kumadori

Ao contrário do que muitos apregoam, os "olhões" não são fruto de inveja japonesa aos arredondados olhos ocidentais. Os japoneses consideram os olhos como "portais para a alma", assim, os utilizam para transparecer a personalidade e/ou o estado de espírito dos personagens.  Crianças usualmente têm olhos maiores para refletir sua inocência. E, em alguns caos, o mesmo personagem pode ter tamanhos de olhos diferentes, dependendo da situação. Por exemplo, Kenshin Himura (Samurai X/Rurouni Kenshin, publicado no Brasil pela JBC) e Kirika Yuumura (Noir, desenho animado japonês exibido na extinta Locomotion) variam o tamanho de seus olhos: grande e gentis em situações normais, estreitos e menores durante cenas de batalha.

Retomando um pouco Tesuka, ele foi um dos mais produtivos artistas nipônicos de seu tempo: auxiliado por vários assistentes, ele produzia cerca de 300 páginas de quadrinhos por mês para várias revistas, chegando a produzir 150 mil páginas durante toda sua carreira, além de criar mais de 500 obras.  Alguns de seus personagens são conhecidos aqui no Brasil, principalmente pelos mais velhos, como Tetsuwan Atom, Jungle Tatei e Ribon no Kishi, mais conhecidos como Astro Boy, Kimba, o Leão Branco e A Princesa e o Cavaleiro - este último publicado pela JBC-, criados nos anos 50, e transformados em desenho na década de 60.



Osamu Tesuka

Não é à toa que Tezuka é conhecido pelos seus conterrâneos como “Manga no Kami-sama” , ou “o deus do mangá”.

Uma característica marcante dos mangás é a prevalência da imagem sobre o texto ao contrário dos quadrinhos americanos, por exemplo. Comparativamente, os quadrinhos americanos são mais textuais. Os quadrinhos japoneses são feitos para serem uma experiência visual, enquanto os americanos são feitos para serem lidos.  Há exceções em ambos os casos, é verdade.

Em resumo, pode-se dizer que os mangás possuem uma narrativa cinematográfica, como se fossem algo visto quadro a quadro.

Nos chamados mangás de história longa, alguns com milhares de páginas, os artistas japoneses buscam estender sua narrativa por muitos capítulos de modo a explorar as nuances psicológicas das personagens e tornar a história mais interessante e detalhada.

No Japão, existem diversos tipos de mangás sobre os mais variados temas possíveis. Entretanto, a maioria é classificado/dividido pela faixa etária e/ou sexo dos leitores e possuem entre si algumas características em comum. Embora, nos últimos tempos, características de um gênero são incorporados a outro e vice-versa, dificultando algumas vezes a classificação exata de uma história. 
                                    

 ·  Categorias de Mangás (por faixa etária)


Kodomo, o termo é traduzido como "criança", e, é usado para se referir aos quadrinhos nipônicos dedicados aos pequenos. São geralmente histórias mais simples e engraçadinhas, algumas com teor pedagógico. O mais famoso dos mangás kodomo é, sem dúvida, Doreamon, criado em 1969. Em 2008, o ministério japonês proclamou Doreamon como "embaixador" do país, consolidando sua posição de ícone cultural japonês A versão anime do gato azulado do séc. XXIII, perdido na nossa época, chegou a ser exibida no Brasil pela extinta Rede Manchete. 

Doreamon



Shounen, traduzido como "garoto" e literalmente como "poucos anos", designa os mangás destinados aos adolescentes do sexo masculino.  Suas características tidas como marcantes são a ênfase na ação e nas cenas de combate comparadas aos demais elementos da história. Alguns focam relações amorosas de forma humorística, sendo quase um clichê a história do rapaz - usualmente tímido e indeciso - cercado por belas garotas, como Tenchi Muiyo ou Love Hina (publicado aqui pela JBC).

Os desenhos de shounen seriam menos rebuscados em sua arte final, de modo a imprimir maior agilidade e dinamismo nas cenas de ação.

Entretanto, especialmente nos últimos anos, tais "regras" vêm sendo minimizadas, e, elementos tidos como de outras categorias são empregados com mais freqüência. Por exemplo, Bakuman (JBC) é um shounen cujo enfoque está na mistura de romance, drama e comédia.

Alguns exemplos de mangás shounen de sucesso são Saint Seya - Cavaleiros do Zodiaco (JBC), Dragon Ball Z (Conrad), Yu Yu Hakushô (JBC), Naruto(Panini), Bleach (Panini) e Rurouni Kenshin - Samurai X (JBC)

Shoujo, traduzido como "garota", literalmente "pouca mulher", seria a contraparte etária do shounen, dedicado às adolescentes do sexo feminino. Seus traços seriam mais delicados, com uma arte-final mais rebuscada e detalhada.

A ênfase temática estaria no romance, nas inter-relações dos personagens e nos seus conflitos pessoais. Entretanto, o que já se foi dito sobre a mistura de características de elementos no shounen, também se aplica aos mangás shoujo. Por exemplo, Guerreiras Mágicas de Rayearth (JBC) utiliza ingredientes de mecha (robôs gigantes), tido como uma temática típica dos shounen. 

Um dos subgêneros mais famosos do shoujo talvez seja o mahou shoujo ou magical girl, como Sailormoon (versão animada exibida na Manchete e no Cartoon Network) ou Sakura Card Captors (JBC), onde uma garota recebe poderes especiais para lutar contra as forças do mal.





Outro subgênero de destaque são aqueles focados na vida escolar, narrando as desventuras amorosas dos estudantes, destacando um casal, geralmente com personalidades antagônicas. Exemplos dessa temática são vistos em Karekano (Panini) e Maid Sama! (Panini).

Seinen são os mangás voltados para um público masculino mais velho, especialmente adultos jovens entre 18 e 25 anos. Eles aprofundam temas que são, às vezes, apenas insinuados nos shounen, e, mesmo, shoujo. Geralmente contém uma temática mais aprofundada, cenas de violência mais explícitas e insinuações sexuais mais diretas.

Existe um foco maior na história em detrimento da ação, e, algumas vezes, suas narrativas são mais atreladas à "lógica da realidade".

Alguns exemplos de seinen conhecidos no Brasil são Berserk (Panini), Gantz (Panini), Monster (Conrad) e Battle Royale (Conrad)

Josei é a contraparte feminina do seinen, dedicado principalmente às jovens mulheres. Os traços finos e delicados desses trabalhos, além da temática focada nas inter-relações pessoais dos personagens, fazem com que sejam, por vezes, confundidos, aqui no Brasil, com shoujos. 

Contudo, sua narrativa é usualmente mais densa e realista. E as referências sexuais, tais como no seinen, são mais explícitas.

Nana (JBC), Paradise Kiss (Conrad) e Honey & Clover (Panini) são alguns trabalhos josei bastante conhecidos.

 ·  Outras Classificações de Mangás 

Gekigá, mais que uma categoria de quadrinhos japoneses, se apresenta como um movimento artístico. Traduzido literalmente como "figuras dramáticas", ele surgiu em oposição ao mangá convencional ("figuras irresponsáveis"), buscando abordar temas mais adultos, com traços mais clássicos e realistas em contraposição ao estilo "cartoonesco" dos mangás mais comerciais.

Originou-se de fanzines disponibilizados por bibliotecas públicas de Osaka, conhecidas como kasihonya, que, logo após a II Guerra, se prontificavam a levar leituras de baixo custo para a população em geral, especialmente adultos, e, permitiam aos artistas um experimentalismo maior que as grandes editoras do período.


Sem dúvida, um dos mais famosos e marcantes gekigás é a série Kozure Okami (Lobo Solitário, publicada aqui no Brasil pela Sampa, Nova Sampa e, em versão integral, pela Panini ).Criada nos anos 70 por Kazuo Koike e Goseki Kojima, o impacto da saga do ex-executor do Shogun, Ito Ogami, e seu filho, Daigoro, é imensurável, ecoando ainda em produções recentes como Vagabond (Conrad) e Blade - A Lâmina do Imortal (Conrad). No ocidente, sua influência também se faz presente, como na obra de Frank Miller (Sin City, 300 de Esparta), na série de graphic novels Estrada para a Perdição ou mesmo na animação Samurai Jack. 



Lobo Solitário

Outros gekigás de destaque são Mai - A garota sensitiva (Abril), Akira (Globo), Crying Freeman (Panini) e Gen-Pés Descalços (Conrad). Este último, apesar dos traços cartunescos é considerado gekigá devido à sua temática: o relato sobre os sobreviventes da bomba de Hiroshima, entre eles o próprio autor, Keiji Nakazawa.

Hentai é o termo empregado para designar os mangás eróticos e pornográficos japoneses.

No ocidente refere-se a qualquer produção de nipônica que mostre explicitamente um intercurso sexual. No Japão, usa-se uma pequena diferenciação entre as produções eróticas. Obras que apresentam cenas de sexo convencional são designadas pelos termos 18-kin (proibido para menores de 18 anos) ou seijin manga (mangás para adultos).

Os hentais, portanto, se referem a trabalhos que exploram fetiches sexuais em suas páginas. Algumas vezes se usa o termo ecchi para se dizer desse tipo de publicação. Ambos, hentai e ecchi, podem ser traduzidos, entre outros significados, como "perversão".

Shounen-ai/Yaoi - Ambos os termos são usados para designar histórias que contém temáticas relacionadas a relações homo-eróticas masculinas. No Japão usa-se também o termo Boy's Love para esse tipo de história, que seria a tradução de shounen-ai para o inglês (shounen = garoto, ai = amor)

Entretanto, o shounen-ai aborda o tema de maneira mais leve, tendo como foco a relação afetiva dos envolvidos. Já o yaoi dá ênfase à relação sexual propriamente dita. A palavra yaoi vem da expressão: "Yama nashi, Ochi nashi, Imi nashi" (sem clímax, sem piadas, sem sentido).

No ocidente, os termos shounen-ai e yaoi são, muitas vezes, usados como sinônimos.

Exemplos de histórias com conteúdos shounen-ai: Gravitation (JBC), Princess Princess (Panini), Tokyo Babylon (JBC)

Shoujo-ai/Yuri seriam os correspondentes femininos de, respectivamente, shounen-ai e yaoi. 

shoujo-ai se refere a histórias românticas protagonizadas por casais femininos, focando no envolvimento afetivo das garotas, sem necessariamente significar envolvimento sexual. Já o termo yuri trata de obras com cenas de caráter mais sexual. O termo yuri hentai também designa trabalhos explicitamente pornográficos.

Assim como shounen-ai/yaoi, no ocidente, shoujo-ai/yuri são tomados como sinônimos.

Sailormoon possui um dos casais shoujo-ai mais famosos dos mangás: Sailor Uranus e Sailor Neptune. Outra história com características shoujo-ai é Noir (exibido pela Locomotion)

O mangá Fushigi no Kuni no Muyuki-chan  ou simplesmente Miyuki-chan (JBC) , do Clamp, pode ser considerado um meio termo entre shoujo-ai e yuri, embora tenda mais para a segunda categoria, e tomado por muitos como tal.

Doujinshi, ou simplesmente doujin, pode ser literalmente traduzido como "mesma coisa, pessoas diferentes". Em outras palavras, refere-se a histórias protagonizadas por personagens conhecidas, mas escritas por outras pessoas que não seus criadores. Partindo dessa perspectiva, muitos escritores de fanfics (histórias escritas por fãs) que se especializam em histórias baseadas em mangás denominam seus trabalhos como doujinshi, mesmo que ele não contenha ilustrações.

Entretanto, o termo usualmente se refere a mangás/fanzines de artistas (ainda) não profissionalizados, podendo conter tanto histórias originais quanto fanfics.

Alguns artistas, mesmo depois de estabelecidos profissionalmente, ocasionalmente fazem doujinshi. Um exemplo é o grupo Clamp, que, depois de famoso, realizou Tenku Senki Shurato Original Memory (Muma) em 1990, baseado no mangá Tenku Senki Shurato de Hiroshi Kawamoto, cujo versão animada foi exibida no Brasil pela extinta Rede Manchete nos anos 90.

Com o advento da internet, a profusão de doujishins aumentou drasticamente. Muitos são os fãs que disponibilizam seu trabalhos em sites como o DeviantART. O site Aku Tenshi (
http://www.aku-tenshi.org/doujin/) tem uma pagina dedicada exclusivamente a douijishin. 

O termo Doujinshi Circle é utilizado para nomear um grupo de artistas que trabalham coletivamente na criação de uma obra. O Clamp começou sua carreira como um Doujinshin Circle, contando com 11 integrantes nos seus primórdios. 

Dicas de Leitura
Para quem gostaria de saber mais sobre mangás, suas origens e características, um bom ponto de partida são os verbetes do site Animes News Network (
http://www.animenewsnetwork.com/encyclopedia/lexicon.php) 

Outra dica de site:
Clamp Files: Um Guia sobre a obra das mangakás mais famosas do Japão

Alguns livros também podem ser recomendados como leitura essencial:

Manga! Manga!: The World of Japanese Comics, de Frederik L. Schodt (Kodansha America) (em inglês)

Dreamland Japan: Writings on Modern Manga, de Frederik L. Schodt  (Stone Brigde Press) (em inglês)

Mangá - O Poder dos Quadrinhos Japoneses, de Sonia Luyten (Hedra)

Cultura Pop Japonesa: Mangá e Anime, de Sonia Luyten (Hedra)

Mangá - Como o Japão Reinventou os Quadrinhos, de Paul Gravett (Conrad)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Morte - A Festa




Nos idos dos anos 80, três escritores praticamente revolucionaram as histórias dos quadrinhos comerciais americanos: o americano Frank Miller e os ingleses Alan Moore e Neil Gaiman. O primeiro, em seu trabalhos para a Marvel com o Demolidor e para a DC com o Batman, mostrou que quadrinhos de super-heróis podem ser sombrios, instigantes, polêmicos e inteligentes, indo muito além do típico conflito entre mocinhos e bandidos. Moore escreveu obras marcantes como V de Vingança, Miracleman, e talvez a melhor obra jamais escrita nos quadrinhos, Watchmen, que tinha como premissa básica a idéia de como seria o mundo real se os heróis realmente existissem. Mas foi com o Monstro do Pântano (para a DC Comics) que ele revitalizou o gênero do terror, criou uma das mais carismáticas personagens dos quadrinhos, John Constantine, e plantou as sementes para a linha de quadrinhos de adultos da DC. 

De igual importância neste aspecto, está o trabalho de Neil Gaiman e seu Sandman. Graças a Moore e Gaiman, os grandes estúdios descobriram que adultos liam quadrinhos e gostavam de temas diferenciados e densos. Sem Sandman e o Monstro do Pântano, não teríamos sido presenteados com obras fenomenais como Hellblazer (estrelado por John Constantine), Livros da Magia, Preacher (do polêmico Garth Ennis), ou mais recentemente 100 Balas, de Brian Azarello e Eduardo Risso (atualmente um dos meus desenhistas preferidos), e o premiadíssimo Fables. 

Neil Gaiman pode ser considerado um dos mais importantes escritores de fantasia da atualidade. Entretanto, ele começou sua carreira como jornalista. Um dos seus primeiros trabalhos foi Violent Cases, com um dos seus mais freqüentes parceiros de trabalho, o artista Dave Mckean. Graças a esse trabalho, ele e Mckean conseguiram uma vaga na DC e realizaram a minissérie Orquídea Negra (que está sendo relançada no Brasil), sobre uma obscura super-heroína da editora. A minissérie possibilitou que eles alcançassem vôos maiores, Gaiman passou a escrever a série mensal Sandman e McKean, além de ser o capista oficial de Sandman, também realizou o especial Asilo Arkhan, escrito por Grant Morisson e estrelado pelo Batman. 


Além de Sandman, Gaiman também é o autor de outros quadrinhos, entre eles Livros da Magia (estrelado por um jovem mago de 12 anos, dono de uma coruja e que usa óculos, muito antes de Harry Potter aparecer) e 1602. E, para completar, Gaiman já escreveu livros de contos e poesias (Fumaças e Espelhos), séries de TV (Neverwhere), romances de fantasia (Deuses Americanos e Belas Maldições), fábulas para adultos (Stardust), livros infantis (Coraline e Lobos nas Paredes) Ganhou diversos prêmios importantes, como o Eisner e o Nebula. 

Já Sandman, considerada a maior obra de Gaiman para os quadrinhos, é uma das mais fascinantes histórias já publicadas pela DC Comics, ganhando fã fervorosos e entusiasmados ao redor de todo o mundo. Alternando momentos de pura fantasia e poesia com outros de um terror indescritível, Sandman ainda tinha o acréscimo de citar diversas mitologias, clássicos da literatura (em especial Shakespeare) e do cinema, trechos de músicas.

A série conta a história de Lorde Morfeu, regente do Sonhar, e um dos sete Perpétuos. Os Perpétuos são seres que não são deuses nem humanos, nem mesmo anjos, são entidades místicas que existem desde que o primeiro ser consciente surgiu no Universo e permanecerão aqui até que o último ser consciente pereça. Mesmo que não reconheçamos, todos nós, inconscientemente, sabemos que esses irmãos existem. São eles: Destino (Destiny), Morte ou Desencarnação (Death), Sonho ou Devaneio (Dream), Destruição (Destruction), Desejo (Desire), Desespero (Despair) e Delírio (Delirium). Morfeu é um dos diversos nomes adotados pelo Sonho, assim como Sandman (Homem da Areia, mais conhecido no Brasil como João Pestana, responsável por jogar areia nos olhos das crianças para que elas durmam).

Na realidade, Sandman não é uma criação de Neil Gaiman, o personagem surgiu na década de 30 (a Era de Ouro dos quadrinhos) e era um detetive chamado Wesley Dodds, que usava uma arma de gás para colocar os bandidos para dormir. Outras versões de Sandman se seguiram a essa, mantendo apenas o nome em comum. Quando Neil assumiu a tarefa de relançar o título, apenas aproveitou o nome e recriou totalmente a personagem, seguindo por um caminho totalmente diferente dos seus antecessores. Atualmente, o Sandman da Era de Ouro ainda é considerado como parte da cronologia atual, mas como um herói que atuou nas décadas de 30 e 40; as versões intermediárias são quase completamente esquecidas - com exceção de Hector Hall, filho do Gavião Negro da Era de Ouro, importante dentro da saga de Morfeu, mesmo que indiretamente. 

A saga de Morfeu começa com o velho bruxo tentando capturar a Morte e por acidente capturando seu irmão mais novo. Isso aconteceu no começo do século passado. Durante anos, o Sandman esteve preso na mansão do feiticeiro, até que conseguiu se libertar. No primeiro arco de histórias, ele parte em busca de objetos mágicos que por direito lhe pertencem, e após reuni-los começa a árdua tarefa de reconstruir seu reino, que entrou em decadência durante sua ausência. Mas as coisas não param aí, aos poucos somos apresentados a importantes personagens, como os já citados irmãos de Morfeu, além de Caim e Abel, o Corvo Mathew, Eva, Titânia, Lúcifer, Shakeaspeare, Hob Glading, entre outros. Pequenos acontecimentos plantados no começo da série só mostraram sua importância muitas edições depois e fatos importantes do passado de Morfeu (como ser pai de Orfeu, aquele famoso cantor grego que desceu aos Infernos para buscar a esposa morta) são cruciais no desenrolar da história. De qualquer maneira, contar demais acabaria por estragar a graça de tudo, ainda mais que  existe série completa publicada no Brasil. 

E se não bastasse a ousadia nos textos, Gaiman ainda teve a coragem de encerrar a série no auge do sucesso, com o brilhante argumento de que uma boa história tem começo, meio e fim, e um bom escritor sabe qual a hora de parar. 

Mas milhares de fãs, não apenas de Sonho, assim como das outras minisséries estreladas pelos Perpétuos, viram-se órfãos. E para saciar sua sede de novidades e sua saudade, vários especiais estrelados pelos coadjuvantes do Sonhar (Merv Pumpkinhead e Bruxaria, por exemplo), além de séries mensais derivadas (Lúcifer e Sandman - Teatro do Mistério, estrelada por Wesley Dodds) e especiais como Sandman Dream Hunters, Noites sem Fim e Overture foram lançadas no decorrer dos anos. 

Entre elas, podemos destacar as minisséries e especiais estrelados por uma das mais carismáticas dos Irmãos Sem_Fim: Morte. 

Duas minisséries especiais foram escritas por Gaiman, ainda durante a publicação de Sandman: Morte - O Alto Custo da Vida e Morte - O Grande Momento da Vida 

Outra publicação protagonizada pela personagem e nosso foco de análise aqui é o “mangá” Morte: A Festa . Escrito e desenhado por Jill Thompson, que já trabalhou com os personagens criados por Gaiman em Sandman: Vidas Breves e nos deliciosos contos “infantis” Pequenos Perpétuos e Festa da Delirium (publicado no Brasil pela Panini), Morte: A Festa reconta os fatos apresentados originalmente na revista Sandman durante a saga Estação das Brumas, mas da perspectiva da irmã mais velha do rei dos Sonhos. 

A leitura das histórias originais não é necessária para se compreender os eventos que se passam em Morte: A Festa, uma vez que Jill Thompson recria os momentos mais importantes da saga, mas é muito interessante comparar o modo como ela se apropriou dos elementos de Gaiman para contar sua própria história. Além de ser uma grande oportunidade de se comparar as diferenças e semelhanças das estruturas narrativas dos quadrinhos americanos e dos mangás (tudo bem que é um mangá americano, mas Jill Thompson conseguiu captar o significado do que seja escrever um mangá). Um dos pontos que mais chama atenção nesse sentido são as apresentações dos Perpétuos que aparecem tanto no começo da história do mangá quanto no prelúdio da história original. Thompson consegue transformar a apresentação feita por Gaiman (que é um texto quase romântico e altamente literário) naquelas fichas técnicas de personagens típicas dos quadrinhos japoneses, e ainda assim manter a essência do texto original e das personagens. 

Em Morte: A Festa (o título original seria melhor traduzido como Morte:Às Portas da Morte), Morpheus, o Sandman, se vê em uma situação bastante complicada depois que Lúcifer resolve expulsar todos os demônios e mortos do Inferno, dando de presente a Chave do lugar para o Sonho. Enquanto nosso herói tenta descobrir o que fazer com a “mais cobiçada propriedade psíquica em toda ordem da criação”, sua irmã mais velha também está com problemas sérios, pois os mortos estão voltando. E pior, estão quase todos indo para a sua casa. Como cumprir com seus deveres usuais de ceifadora e ainda controlar um exército de zumbis destruindo seu carpete? O jeito é contar com a ajuda de suas irmãs caçulas Delirium e Desespero, que têm a brilhante ideia de fazer uma festa na casa de Desencarnação para manter os refugiados do Inferno ocupados. 

A grande sacada de Jill Thompson foi ir muito além da mera transformação das personagens originais em versão mangá: ela mergulhou de cabeça na proposta de escrever um mangá passado no universo do Sandman, adotou praticamente todos os elementos da linguagem desse estilo de quadrinhos, especialmente do shoujo (mangá para meninas). Todos aqueles divertidos exageros faciais estão lá, também temos os pequenos comentários em segundo plano sobre determinadas situações, as fichas técnicas, o personagem andrógino, o amor meio impossível e supostamente platônico, o enquadramento de páginas típico dessas revistas. É uma reconstrução perfeita feita por uma americana do que seja escrever um quadrinho japonês. 

Confesso que tinha certas dúvidas se seria possível transformar os personagens de Sandman em mangá, especialmente dado ao estilo de histórias que eles costumam estrelar. Até que ponto eles poderiam ser adaptados para aquela forma narrativa sem perder suas características essenciais? Não achava ser possível fazer isso, mas Jill Thompson provou que eu estava errada. Apesar do tom mais leve da história, os Perpétuos (mesmo Destino e Morpheus, os mais taciturnos) continuam sendo os nossos velhos conhecidos de sempre. 

Acho que o fato da Morte ser a protagonista da história contribuiu muito para isso. Além de ser uma das personagens mais populares e cativantes da série Sandman, com muitos fãs, inclusive esta que vos fala, espalhados pelo mundo, a Morte talvez seja a mais “humana” dos Perpétuos, que mesmo consciente de seus deveres consegue encarar as situações que enfrenta de forma descontraída. Esse posicionamento da personagem facilitou a passagem do clima tipicamente denso das histórias de Gaiman para o tom leve e divertido que os mangás shoujo geralmente possuem. 


Delirium e Desespero como coadjuvantes são um show a parte e contribuem para o tempero cômico da história. Da primeira era algo até esperado, mas realmente me surpreendi com a versão de Desespero criada por Thompson. Minha concepção sobre a Dama do Anel em forma de anzol mudou completamente. 

A festa propriamente dita é recheada de momentos hilariantes e divertidos, como os sorvetes de Delirium ou o reencontro de Romeu e Julieta, ou a mera ideia de imaginar Mussolini dançando cancan. Outros mortos famosos fazem ponta, como Kurt Cobain, e, com grande destaque, Edgar Alan Poe. 

Talvez um único momento deixe os leitores mais puristas de Sandman um pouco irritados: quando Morte, Delirium e Desespero saem para capturar os mortos desgarrados. Sailormoon demais para os mais implicantes. 

Mas, no geral, Morte: A Festa é excelente. Uma história divertida de se ler e reler (várias vezes) e que não fica em nada a dever para as demais publicações envolvendo os Perpétuos, incluído a série original.O especial deu origem a outro "mangá" baseado em personagens de Sandman: "Dead Boys Detectives", também lançado no Brasil pela Conrad. 

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Mitologia em Sailor Moon

Site da imagem: http://bit.ly/2cwvUnX

Muitos anos atrás (e bota muitos anos nisso), lá nos "finalmentes" dos anos 90, quando a Manchete ainda existia e trazia muitos animes para a TV aberta, eu fiz parte de um fanzine sobre Sailor Moon. Daqueles de mandar o dinheiro pelo correio e receber o fanzine em casa.

Minha coluna era um paralelo sobre Mitologia e a história das Sailors.

Como recordar é viver, resolvi repostar meus textos aqui.

Para quem quiser conferir o texto, pode ser abaixo ou clicar nos links abaixo:

http://issuu.com/anacarolinacunha/docs/sailors?e=9833767/38469411

https://www.dropbox.com/s/vdaq3zxe1w0k5jr/sailors.pdf?dl=0

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Seguindo a trilha do assassino



Em 2004, a Panini Comics prometeu republicar no Brasil aquele que ainda é considerado por muitos como um dos melhores mangás de samurai de todos os tempos: Lobo Solitário (Kozure Okami no original). 

Três anos depois, o samurai renegado Ito Ogami e de seu filho, Daigoro, finalizaram, no Brasil, a sua longa viagem em busca de vingança contra o clã Yagyu. 

Criado na década de 70 por Kazuo Koike (roteiros) e Goseki Kojima (desenhos), esse popular e clássico mangá foi um dos primeiros do gênero (excluindo o trabalho do genial Osamu Tesuka) a introduzir os quadrinhos japoneses no mundo ocidental. A saga do Lobo Solitário e seu filhote influenciou uma geração de artistas tanto na Terra do Sol Nascente quanto no lado de cá do planeta. 

Publicada pela revista semanal Kodansha, esta série teve 114 capítulos em 14 edições (no Brasil foram 28 edições lançadas pela Panini). Além dos quadrinhos, Lobo Solitário teve, no Japão, diversas adaptações para o cinema e tv durante os anos 70 e 80. Também foi produzido um anime cujos episódios chegaram a ser exibidos no Brasil por um curto período no SBT durante os anos 80. 

Em linhas gerais, a trama da série é a seguinte: 

Na época do Japão feudal, existiam vários senhores feudais que estavam sob as ordens do Shogun, o mais poderoso e importante dentre os senhores feudais. Embora o Imperador ainda fosse respeitado como figura de poder e ascendência divina, era o Shogun quem efetivamente governava o país. Para manter seu domínio, o Shogun designou três famílias para ocuparem os cargos de ninjas, assassinos e executores. 
Clique para ver versão ampliada
A família Kurokawa ficou com o cargo de ninja, devido à sua própria tradição. Os ninjas eram responsáveis por observar todos os feudos no Japão, incluindo os senhores feudais. Qualquer atitude suspeita era informada ao Shogun. Se algum dos subordinados tramasse se opor, se rebelar ou se voltar contra o Shogun, o clã dos assassinos (título dado à família Yagyu) era acionado e o traidor era prontamente executado. Em princípio, a família Yagyu também mantinha o título de executores. Os executores eram responsáveis por auxiliar os nobres senhores feudais que se arrependessem de sua traição ao Shogun em um ritual chamado harakiri, ou usando um nome mais respeitável, seppuku. O seppuku é um ritual onde a pessoa pega uma lâmina e começa a cortar o ventre, eviscerando-se. Para "aliviar" o senhor feudal ou qualquer outro que fizesse o ritual, o Executor ceifava a cabeça do condenando, deixando uma aba de pele do pescoço sem ser cortada para que a cabeça não rolasse no chão. 

Depois de anos mantendo o título de executores, os Yagyu foram substituídos pelos Ogami na tarefa por decisão do Shogun, que realizou um teste envolvendo o samurai Ito Ogami e o mais jovem dos Yagyu, Retsudo. Inconformados com a perda do título, os Yagyu tramaram contra Ito e sua família, forjando provas que levaram o Shogun a crer que Ogami havia lhe traído. Os Yagyu também assassinaram a esposa de Ito, que, mesmo agonizando, deu a luz a Daigoro Ogami. 

Assim, Ito parte, juntamente com seu filho, em uma jornada de ódio e violência para limpar seu nome e vingar a morte de sua esposa e de sua família, percorrendo a espinhosa trilha do assassino. 

Frank Miller foi um dos artistas dos quadrinhos americanos que mais se rendeu ao genial trabalho de Koike e Kojima. Miller não apenas incorporou a linguagem de mangá aos seus mais famosos trabalhos como Cavaleiros das Trevas, Ronin e Demolidor, como foi o responsável pelas capas e textos de introdução de cada edição norte-americana de Lobo Solitário, que saiu nos Estados Unidos pela First Comics durante a década de 80. 

Outra obra de destaque inspirada pelo mangá é a fantástica graphic novel Estrada para Perdição, publicada em 1998 pela DC Comics, através do selo Paradox Press. (Saibam mais sobre a série, clicando aqui

Também Genndy Tartakovsky, criador do Laboratório de Dexter, faz uma homenagem a esse mangá em dois episódios de uma das melhores séries animadas da atualidade e ganhadora do Emmy: Samurai Jack. Em dos episódios da série (episódio XIX), Jack encontra as ruínas de sua terra natal e relembra sua infância. Em uma das cenas, temos a participação de Ogami e Daigoro, numa sensacional cena de luta. Já no episódio LII é o próprio samurai Jack que faz as vezes de Ito Ogami, viajando com um bebê que salvara de um bando de ogros, tal qual o Lobo Solitário faz com seu "filhote" Daigoro. 



Lobo Solitário chegou a ser publicado, de forma bastante descontinuada, aqui no Brasil, primeiro pela Cedibra em 89 (9 edições) e depois pela Nova Sampa em 92 (12 edições). Surgiram diversas notas na internet de que o mangá ganharia uma versão cinematográfica hollywoodiana e seria dirigida por Darren Aronofsky (Réquiem para um Sonho). O filme seria produzido pela Paramount Pictures e a Mutual Film Company. Mas ao contrário dos ardentes desejos dos fãs da série, o filme não se passaria no Japão Feudal, e sim nos dias de hoje. Nenhuma novidade sobre a produção foi divulgada depois desses rumores iniciais. 

De qualquer forma, tornar-se ou não um filme hollywoodiano não faz tanta diferença assim para esta série, pois, mesmo depois de cerca de trinta anos de seu lançamento, Lobo Solitário ainda é lembrada e reverenciada por suas infinitas e sólidas qualidades artísticas e narrativas. E é exatamente por todos esses motivos que vê-la, finalmente na íntegra, graças aos esforços da Panini, foi muito mais que um presente para os fãs de quadrinhos brasileiros. Devemos mesmo é nos sentir honrados pela oportunidade de lermos a épica saga e obra-prima de Kazuo Koike e Goseki Kojima. 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

À Sombra do Samurai




Alguns anos atrás estreou na Globo, timidamente e sem nenhum estardalhaço, um anime chamado Samurai X. Embora tenha sofrido horrores nas mãos da emissora, com cortes inexplicáveis e episódios perdidos, Samurai X conquistou uma legião de fãs e se tornou um cult. Posteriormente o CartoonNetwork trouxe o anime de volta. Em 2001, junto com Sakura Card Captors, foi um dos primeiros títulos a ser lançado pela JBC, dando o pontapé para o boom de mangás que vieram posteriormente.

Felizmente,  a editora JBC está dando aos velhos e novos fãs de Kenshin Himura a oportunidade de voltar ou começar a acompanhar suas histórias através do relançamento do mangá.  

Samurai X, ou Rurouni Kenshin, como é conhecido em sua terra natal (algo como "O Vagabundo Kenshin") e que vai ser o título da republicação, conta a história de Kenshin Himura, um andarilho, e se passa nos primeiros anos da Era Meiji, quando o Japão se abriu ao mundo ocidental. Apesar da aparência inofensiva, Kenshin é na realidade o famoso Hitokiri Battousai, o Retalhador, que lutara na guerra civil que estabeleceu a Era Meiji e era conhecido tanto pela habilidade com a espada quanto pela frieza e crueldade com que matava os inimigos. Tentando expiar seus pecados, jurou nunca mais matar e passou a vagar pelo país, ajudando as pessoas, até que conheceu Kaoru Kamiya e passou a morar em seu dojo. A eles se juntaram posteriormente o garoto Yahiko Myoujin, filho de ex-samurais, Sanosuke Sagara, um ex-lutador de aluguel, e Megumi Takani, uma médica que se viu envolvida com o tráfico de ópio. 

Lançado originalmente na revista Shukan Shonen Jump em 1997, Rurouni Kenshin foi o primeiro trabalho autoral de Nobohiro Watsuki em série contínua. Antes ele já havia trabalhado como assistente de Takeshi Obata (Arabian Lamp Lamp) e Youichi Takahashi (Captain Tsubasa/Super Campeões), e feito também algumas histórias curtas, inclusive as que deram origem à saga de Kenshin Himura (e foram publicadas aqui no Brasil na própria revista do herói).

Com uma arte primorosa, que sabe combinar os traços estilizados típicos do mangá com composições que ora beiram o realismo ora beiram o fantástico, além de uma arte finalização que utiliza com eficiência a luz e a sombra, Samurai X acabou por  se tornar um clássico no universo dos mangás. 

Se só o trabalho de Watsuki como desenhista não for o suficiente para conceder esse título a Rurouni Kenshin, a história do mangá o faz. O enredo apresenta elementos já vistos anteriormente em muitas histórias: um herói com um passado obscuro, que é amado por uma linda e jovem donzela, mas que acredita precisar de redenção antes de merecer ser feliz. E para tal intento, conta com o amor e a dedicação de seus amigos mais leais. Apesar disso, a forma como os personagens são caracterizados e o modo como se inter-relacionam, numa mistura equilibrada de tragédia e humor, tornam a história carismática e emocionante. 

Kenshin pode ser tanto doce e atrapalhado quanto sombrio e amargurado, assim como Kaoru é a mais romântica e inocente das donzelas, sendo ao mesmo tempo a mais corajosa e audaciosa de todas. E o mesmo pode ser dito de todos os outros personagens, que se apresentam como uma miríade de qualidades, emoções e defeitos, tão complexos e sutis como qualquer pessoa real. 

A pesquisa e a reconstituição histórica do período em que se passa a história é um caso à parte, sendo comprovada pelos comentários de Watsuki, nos quais percebemos todo o seu empenho na construção de saga de battousai. Seus comentários, ou sobre a composição das personagens ou recados para os leitores, e que foram incluídos na versão brasileira (embora sejam originalmente dirigidos aos leitores japoneses), nos tornam mais próximos da obra, como se aquilo fosse mesmo direcionado a nós e estivéssemos participando da gestação da história. Embora seja uma ilusão, é uma boa ilusão, pois nos dá uma sensação de afetuosa familiaridade com o mangá que temos em mãos. 

Em relação ao anime, vale a pena conferir as partes realmente inspiradas pelo mangá, especialmente a saga da Juppongatana, em que Kenshin e companhia enfrentam Makoto Shishio. O OVA que trata do passado do battousai e seu relacionamento com a falecida esposa, Tomoe, também é primoroso, e têm um clima mais sombrio e taciturno. Entretanto, o segundo OVA, que conta a história dos personagens anos depois da série original, divide os fãs entre aqueles que amam  e os que odeiam.

Se tudo isso não bastasse, a série animada também possui uma das melhores trilhas sonoras de animes que eu já escutei. Recomendável para quem curte J-Pop e J-Rock. 

O sucesso de Rurouni Kenshin é tamanho que o mangá, mesmo depois de 18 anos do início da publicação original, ganhou uma versão em filme live action, que estreou no Japão no dia 25 de agosto deste ano. E que não tem a mínima previsão de estrear no Brasil. Com sorte, talvez o consigamos em DVD ou Blu Ray.

Mais que uma história sobre um determinado período histórico do Japão, Samurai X se trata de uma história sobre amor e amizade, redenção e lealdade. Fala sobre como é possível, apesar de todas as mudanças que ocorrem no mundo, escolher fazer o certo, ajudar aqueles que necessitam da melhor maneira que pudermos. É essencialmente sobre a possibilidade de iniciarmos vida nova e encontrarmos a felicidade. E isso não se restringe a um país ou a uma época específica: é universal e atemporal.




quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Beyond Wrong

Conheça tirinhas inspiradas em nerds reais como eu (que aliás realmente estou lá) e você, onde as coisas geralmente acabam sendo muito erradas.

Clique abaixo para conferir